Clariceana 2018

Encontro de pesquisadores de Clarice Lispector

15, 16 e 17 de agosto

Programação

Faculdade de Letras da UFRJ ― Auditório G2

Av. Horácio Macedo, 2151 ― Cidade Universitária, Rio de Janeiro

Com conferências de Vilma Arêas (15/08), Flavia Trocoli (16/08) e Yudith Rosenbaum (17/08)

Organização

Lucas Cavalcanti (UFRJ)
Leyliane Gomes (UFRJ)
Ricardo de Souza (UFRJ)

Comitê Científico

Flavia Trocoli (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Leilyane Gomes (UFRJ)
Marcela Lanius (PUC – Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Yudith Rosenbaum (USP)

07-08 ― quarta-feira

9h Usos da linguagem

O presente invertebrado em "Água viva", de Clarice Lispector

João Guilherme Siqueira Paiva :: UFRJ

Água viva, de Clarice Lispector, "romance sem romance" que parece transcorrer na temporalidade do presente, do início ao fim – até quando rememora o passado –, nos leva a perguntar "Quando é o presente?". Mas, se formos levar em consideração as perguntas gestadas nessa prosa, não encontraremos nela mesma a estrutura racional do diálogo, aquele que pergunta e que responde, mas sim o curso das suas palavras que fluem – sem rigidez. Daí um significado do polissêmico título "Água viva": o presente invertebrado imerso, como envolto por um véu (a epiderme), por sua natureza, parece dançar. Da mesma maneira a realidade "sem sinônimos" dança entre o visível e o invisível. A insinuação do real, assumido entre data explícita (25 de julho) e espaço definido (o terraço etc), parece desfazer-se em seguida, dando a essa linguagem em movimento, uma aparência de indiscernibilidade. A narradora desrealiza todos os fatos: "Onde está o fato? Minha história é de uma escuridão tranquila". No entanto o texto reteve-se em nítidos limites, quer dizer, entre o início e o fim do livro. Da mesma forma, a aparência de indiscernibilidade possui a exatidão do texto, sua coloração, música e imagens, ainda que cambiantes, sempre "mudando de assunto", se cristalizam no todo de "Água viva". No momento em que encerramos o livro a água viva se imobiliza? Ou finalmente triunfa na sua temporalidade invertebrada? Nossa leitura visa perceber tudo que é "discernível" no texto como uma representação do tempo presente. Benedito Nunes, ao concluir o ciclo de ensaios sobre Clarice Lispector em "O dorso do tigre", escreve que Clarice rompe o "dever de silêncio" colocado por Wittgenstein no fecho de seu "Tractatus logico-philosophicus", ao assumir a falibilidade da linguagem, a autora nega o "indizível" em favor do "tentar dizer". Tal tentativa (e fracasso) já não delimita e circunscreve o texto num tempo histórico determinado? A partir daí, nossa proposta visa relacionar o tempo interior da narrativa clariceana, e sua forma, com uma noção de tempo histórico e teoria da história.

As traduções de três contos de Clarice Lispector

Rosangela Fernandes Rosangela :: UFSC

Este trabalho apresenta uma análise das traduções para a língua espanhola de três contos de Clarice Lispector (“Os desastres de Sofia”, “Tentação” e “A legião estrangeira”) publicados no livro A legião estrangeira em 1964. A obra foi traduzida pela primeira vez em 1971 em Caracas, Venezuela, pela Editora Monte Ávila, reeditado em 2001 sob o título Cuentos Reunidos pela Editora Alfaguara no México, tendo sua segunda edição lançada em Madrid, Espanha, pela mesma editora em 2002. Em 2008 o mesmo livro foi lançado pela editora Siruela com uma nova configuração de formatos, capa e publicidade. E em 2011 foi lançada a tradução argentina sob o título La legión extranjera, em Buenos Aires pela Editora Corregidor. Os tradutores são os argentinos Juan García Gayó e Paloma Vidal. Embora o objeto da pesquisa seja quatro livros diferentes, temos apenas duas traduções. Este trabalho visa analisar as duas traduções para evidenciar como o particular estilo da autora é traduzido para o espanhol. Para isso, vão ser analisados seis fatores que se entendem como conformadores da escrita clariceana (infância, olhar feminino, animalidade, metamorfose, metáforas e paradoxos, adjetivações, repetições, expressões idiomáticas e ditados populares) e as escolhas a que dão lugar. No espaço entre o grito e o silêncio é o lugar onde os tradutores irão trabalhar, onde irão colocar suas interpretações e inferências que darão novas formas à reescrita dos contos. Para pensar as estratégias extratextuais, essa pesquisa está apoiada na teoria funcionalista de Christianne Nord e para reflexão intratextual das traduções, apoia-se na teoria de André Lefevere que defende que toda tradução é um processo de reescrita, que resulta em uma nova obra sempre que relida, interpretada e traduzida por um novo (a) tradutor(a). Analisar as traduções de Clarice Lispector para idiomas estrangeiros é uma área de pesquisa relativamente nova, mas muito proeminente considerando que só para o espanhol, há traduções de todas as suas obras. Esperamos com essa análise ter uma noção de como a autora brasileira é lida em língua espanhola e como sua imagem como mulher, escritora e brasileira é representada em território e língua hispânica.

Macabéa e as diversas óbcies do sistema jurídico brasileiro

Gustavo Cardoso Silva :: UFRJ

A obra da escritora Clarice Lispector cintila nos mais diversos recônditos da literatura brasileira e mundial. Sua produção é profícua e demonstra um traço distinto no cabedal literário nacional, uma vez que por meio dela, conforme narra a crítica competente de Álvaro Lins, nasce “nosso primeiro romance dentro do espírito e da técnica de Joyce e Virgínia Woolf”. No que toca à crítica social de suas obras, concebe-se na novela “A Hora da Estrela” (1977), indubitavelmente o expoente máximo da problematização clariceana envolvendo os indivíduos e a sua imersão em uma sociedade complexa e desigual. Para tratar deste tema discutível, o presente trabalho estabelece como fundamentação as análises encadeadas entre o campo do Direito e da Literatura, de modo mais específico: a reflexão crítica erigida de “A Hora da Estrela” e a viagem que faz o narrador onisciente, Rodrigo S. M., ao explanar a condição da personagem Macabéa e sua desenvoltura na sociedade enquanto mulher desvalida e inconsciente de sua condição perante o sistema jurídico brasileiro. Nesta perspectiva, propõe-se a operacionalização de uma pesquisa através da revisão bibliográfica da obra clariceana anteriormente mencionada e das análises colocadas no livro “Direito e Literatura - O Encontro Entre Themis e Apolo”, sob organização de André Trindade e Germano Schwartz. Intenta-se, portanto, uma exploração da condição da mulher à época da obra e na hediornidade, objetivando demonstrar como os códigos e a jurisprudência estabeleciam uma conjuntura marcadamente opressiva ante a figura feminina e como, no presente, se refletem os avanços e retrocessos nesse âmbito. De modo semelhante ao que propõe a escritora, deseja-se fazer ecoar o grito das mulheres representadas por Macabéa: “Porque há o direito ao grito.” O método utilizado para a elaboração deste estudo se estrutura como dedutivo-descritivo, propõe-se, deste modo, interpretar o texto literário de modo crítico e coerente, elencando momentos vividos pela personagem Macabéa e seu relacionamento com as estruturas opressivas da sociedade, para poder então demonstrar como a obra de Clarice Lispector pode deitar uma luz no horizonte do jurista, ampliando, de modo significativo, sua sensibilidade perante os casos concretos e problemas de justiça a ele apresentado.

11h Estar no mundo

Clarice Lispector e Existencialismo

Rayssa Soares Isidoro :: UFRJ

O presente trabalho visa realizar uma análise da personagem Ana, do conto “Amor”, presente no livro Laços de Família, de Clarice Lispector, à luz da filosofia desenvolvida por Jean Paul Sartre; realizando, assim, um diálogo entre a Psicologia, a Literatura e a Filosofia, tendo como referencial teórico principalmente os estudos de Psicologia Fenomenológica Existencial e o Tratado de Ontologia de Sartre, ao que se desenrolará principalmente a noção de Projeto Existencial, bem como suas implicações, possibilidades e limites. Este trabalho constitui também uma possibilidade de atuação clínica de psicoterapia fenomenológico existencial. A escolha desse conto como material para discussão foi motivada devido a uma característica peculiar da escrita de Clarice: a história ao redor de seus personagens retrata o mundo rotineiro, simples e monótono. O leitor defronta-se com a experiência direta do personagem, dada no mundo, entre outros e coisas, no cotidiano da vida concreta. É a partir desse cotidiano irrefletido que surgem e irrompem as questões da existência em Clarice, da mesma forma que a fenomenologia existencial busca teorizar sobre a experiência concreta, no mundo concreto. É a partir dessa identificação entre a obra da escritora e a fenomenologia existencial que o caso de Ana aparece como adequado para a realização da análise que será desenvolvida neste trabalho. Debruçando-se sobre o conceito de intencionalidade, para Sartre, o indivíduo, em sua subjetividade, só pode ser compreendido enquanto lançado no mundo, entre os outros homens e entre as coisas, em suas relações. Nesse sentido, a análise de Ana, enquanto ser-no-mundo, se dará buscando evidenciar qual é o movimento que ela realiza no mundo. Imersa em uma existência alienada configurada por uma identidade serial e imbuída por uma experiência de mulher repleta do dever ser e impossibilidade de auto realização, é que desenrola-se o Projeto de Ser constituído por Ana, em sua totalização em curso. A partir de um encontro com um cego mascando chicles, um acontecimento destotalizante e objeto emocionador, Ana tem uma epifania e, de dentro do bonde, vê toda a constituição de uma vida e projeto existencial ruírem. A partir da transformação de sua experiência de ser no mundo, ocorre uma modificação do mundo, dos Outros, das coisas. Ana não se reconhece mais em seu cotidiano, não reconhece mais os outros, seus afazeres e seus papeis. Ana enche-se de uma vontade de viver que não caberia no Projeto de ser que constituiu para si. A ausência de um Projeto abre à Ana um caminho de novos possíveis e evidencia a liberdade a qual todo ser humano está sujeito. No entanto, tal liberdade carrega consigo a indeterminação, traz à tona a gratuidade de tudo e todos, fato que a espanta. Nesse momento, faz-se presente a má-fé, a temporalidade psíquica e o paradoxo, em que Ana vê-se frente a escolha pré-reflexiva de seguir seus novos possíveis ou voltar à vida caracterizada pela identidade serial e destinada a cuidar das necessidades do Outro.

A visualidade da escrita em Clarice Lispector

Pedro Alegrre :: UFRJ

O que Clarice Lispector nos dá a ver? Em seus romances, quase sempre, a experiência desconcertante de determinada linguagem apresenta, como em G.H., uma visão impossível. Uma barata. A banalidade de suas visões não deve deixar enganar: a barata é uma entrada, na qual o olhar se deixa experimentar pelo que o desarticula naquilo que vemos. A narrativa clariceana demora a acontecer e, por fim, não acontece. A palavra de seus narradores é quase sempre adiamento. Retardar a visão sobre a barata que não se quer – ou não se pode – simplesmente ver. O adiamento narrativo constitui o objeto da própria narração. Isso quer dizer, em outras palavras, que a narração adiada é a suspensão da linguagem para que, enquanto objeto, a própria linguagem se torne visível. Sua narrativa busca a visualidade pura, destituindo a própria narração, porque dessa maneira se dá a possibilidade de olhar o objeto da linguagem. A modalidade do visível de Clarice retoma Joyce quando, em ambos, a narratividade dá lugar à visualidade de seu próprio objeto. Qual é, porém, a constituição desse objeto? A busca acontece diante de algo que é, desde o início, perdido. O preenchimento desse vazio de objeto é a proliferação narrativa de Clarice, para quem não há mais nada a dizer senão o próprio dizer. Por isso, muitas vezes, é o silêncio que diz do objeto que constitui a linguagem. Essa negatividade vira a narrativa do avesso. Trata-se de fazer falar o silêncio que é, ao fim, aquilo que está presente em toda palavra. O drama da linguagem, de que fala Benedito Nunes, organiza o texto clariceano na medida em que, entre o dizer e o não-dizer, o que prevalece é o ter- lugar da palavra que, para todos os efeitos, não é pronunciável. Isto é, algo de invisível. Ora, a tematização da linguagem nos romances de Clarice assinala o que as próprias palavras não podem ver. Como Joana ou G.H., são cegas. Isso quer dizer que a própria escrita é tomada por uma cegueira. Entretanto, ao fitar a barata, ela também responde com um olhar e se dá a ver somente na condição de um olhar também cego. De olhos bem fechados, o objeto perdido da linguagem vibra na visualidade da escrita clariceana. Aquilo, portanto, que se assume como um problema da existência, para as personagens clariceanas, se apresenta também como um problema da visão, especialmente em A paixão segundo G.H. Dessa maneira, pode-se conduzir o problema da linguagem na obra de Clarice Lispector. Este trabalho pretende colocar a dimensão do olhar tal como é figurado em G.H. para deslocar a questão da linguagem presente na obra clariceana. Ver aqui é ser cego para o que é visível. Do que se assume, para tanto, uma visualidade capaz de acolher a perda do objeto. Olhar o vazio do objeto é tarefa para determinada cegueira luminosa. Ver aqui, portanto, é assumir o vazio da imagem, mas também a falta de qualidades do sujeito vidente. Assim, é possível ver uma barata – porta de entrada para o ter-lugar das coisas, que não tem lugar no mundo.

A náusea em Clarice: de Sartre a Spinoza

Brayan de Carvalho Bastos UERJ

Desde que se tornou conhecida do público, a obra de Clarice Lispector foi automaticamente vinculada à proposta da filosofia existencialista, principalmente aquela defendida pelo francês Jean-Paul Sartre. A sustentação dessa tese se deu, em grande medida, por certa fortuna crítica que identificou, nos textos da autora, elementos comuns entre sua literatura e o existencialismo, seja pela atmosfera densa que envolve seus escritos, seja pelo uso de termos comuns aos dois objetos em questão, e nesse sentido merece destaque a produção do crítico literário paraense Benedito Nunes (1976). Um desses termos é a náusea, título do primeiro romance de Sartre (2015) e palavra relativamente importante em “Amor” (2009), um dos contos de Clarice. Entretanto, estudos mais recentes sobre a biografia e a própria filiação intelectual da autora sugerem a possibilidade de levar seu pensamento a produzir novos encontros, vinculando-o ao projeto filosófico imanentista do holandês Baruch Spinoza. A partir desse possível intercessor, o presente trabalho busca compreender a náusea escrita por Clarice como uma proposição filosófica que se aproxima do conceito de beatitude em Spinoza (2009), entendendo o vínculo com o existencialismo como uma potencialidade coerente, embora restrita quanto ao reconhecimento dos efeitos que a obra de Clarice pode provocar.

14h Conferência

Vilma Arêas UNICAMP

O ponto de virada: “A Via Crucis do Corpo”

16h Graça, sublime, grotesco

A víbora: uma leitura sobre o prazer e o mal em Perto do coração selvagem

Ana Maria Vasconcelos Martins De Castro UNICAMP

“Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior” (LISPECTOR, 1997, p. 180), diz-nos G. H. Algo semelhante se passa com a Joana de Perto do coração selvagem, quando esta subitamente se recorda de ter visto um homem comendo com volúpia um pedaço de carne quase crua. O assombro da experiência rememorada provoca um total rearranjo da sua realidade. A sede profunda e velha citada por Joana, subitamente descoberta ao ver a sede do outro, é como que o sofrimento dos possuidores de pouca fome ante a falta da fome maior, ou da fome-mais, para usar o conceito de Roberto Corrêa dos Santos. É a ânsia pelo desejo em estado bruto – e entendemos desejo aqui não exatamente no sentido psicanalítico de falta, mas como algo mais próximo de produção. “Desejo: quem (...) gostaria de chamar isso de ‘falta’? Nietzsche o chamava Vontade de potência. Podemos chamá-lo de outro modo. Por exemplo, graça.” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 106-107). Graça, alegria, aumento de potência: entendemos que há mesmo uma produção desta fome maior na narrativa de Clarice Lispector, por isso o movimento incessante de rasura em sua escrita . O problema vivenciado pela personagem – não só em Perto do coração selvagem, mas em outras obras da autora – não é de ordem moral, mas da ordem das forças, da própria potência. Joana não acusa moralmente o homem flagrado na violência de seu ato de comer a carne quase crua – não é sequer este o caso. Ela “sabia que o homem era uma força”, e experimenta, entre fascínio e repugnância, a força vital que a afeta ao sofrer o impacto de simplesmente ver – ou lembrar, neste caso – o acontecimento. Reflete Joana em determinado momento do livro: “A certeza de que dou para o mal”. Neste trabalho pretendemos discutir os aspectos e o impacto do mal – entendido aqui não pela perspectiva maniqueísta, mas pela óptica do jogo de forças vitais tal qual o percebe Joana – em Perto do coração selvagem.

Ser demais o sangue em Clarice Lispector

Ramon Ramos Pesquisador Independente

Propõe-se refletir acerca da tensão imposta pela presença da figura do rato morto na narrativa “Perdoando Deus”, de Clarice Lispector. Sob a ótica do desequilíbrio desencadeado pela imagem grotesca do animal visceralmente exposto, pretende-se investigar a angústia suscitada na protagonista-narradora a partir da transgressão do corpo e de desdobramentos acerca dos conceitos de contínuo/descontínuo presentes em O erotismo de Georges Bataille. No conto, a personagem/narradora caminha distraidamente olhando vitrines em Copacabana, quando quase pisa em um enorme rato morto. A exposição do corpo devassado do roedor desperta na mulher movimentos de repulsa que promovem um diálogo imediato com Deus. A imagem do sangue e a exposição da interioridade do roedor são elementos disparadores para a reflexão acerca da corrupção da própria carne — por meio de associação sacro-erótica. Em meio à angústia que remete ao devassar (também erótico) de seu próprio corpo, a narradora/protagonista questiona perante o divino se Ele, por meio do rato violado, estaria insinuando que ela se esquecera de sua interioridade. Observa-se também que, antes do incidente com o animal, a mulher encontrava, a partir da liberdade sentida, o amor de Deus e por Deus — tanto que pensava ter amor maternal pelo divino. Tal conexão remete não apenas a uma relação de intimidade com o Ser supremo, mas, por meio dele, a aquisição da sensação de contínuo, conforme anota Bataille. O rato, portanto, funcionaria como lembrete do descontínuo em contraposição à calmaria do percurso prévio ao seu encontro — o que desdobra, na narrativa, em uma nova transgressão: o avanço na intimidade de Deus. Há, dessa forma, três movimentos transgressores a serem analisados: a) a vulnerabilidade da narradora/protagonista (invadida pelo contraponto do animal eviscerado que espelha a fragilidade do corpo humano e que, por consequência, retifica a sensação psicológica de uma possível continuidade); b) a exposição da interioridade do rato morto (simbolizada pelo sangue vital e erótico que simultaneamente a protagonista abraça e recusa); c) a violação da intimidade divina (ameaçada pela protagonista, em claro movimento de chantagem, de possível exposição de sua truculência e mesquinhez).

Os três tempos psicológicos do conto "Perdoando Deus"

Amanda Angelozzi :: USP

Uma das questões frequentes na escrita clariceana são as experiências reveladoras motivadas pelo encontro com uma alteridade. Muitos outros habitam sua vasta obra, indo desde flores, cegos mascando chicles, a animais de zoológico, manifestando um desejo da autora de mergulhar no mais profundo da existência, buscando o núcleo coração selvagem da vida. Mesmo que estas alteridades sejam distintas entre si, elas têm como eixo unificador o mobilizar, em seu encontro com a personagem, uma desordem de sua suposta estabilidade subjetiva. O outro se manifesta nas narrativas clariceanas em situações de tensão, deslocando ou retirando a personagem de sua corrente rotina, potencializando uma crise que coloca em questão o ego construído, visões da existência e dos afetos, levando à vulnerabilidade e desamparo, processo importante, pois faz parte da revisão do estado de ser no mundo. Em cada personagem, os desdobramentos advindos do choque com o outro se manifestam de maneira particular, como é o caso do intrigante conto “Perdoando Deus”. O conto, publicando em Felicidade Clandestina – mas que já aparece um ano antes como crônica no Jornal do Brasil, em 19/9/1970, sendo reunido postumamente em A descoberta do mundo, em 1979 –, traz como protagonista uma mulher sem nome, que caminha pela avenida Copacabana em harmonia com a condição de amor que a tomou, sentindo-se “mãe de Deus”. Porém, o encontro inesperado com um rato morto na rua, seu maior medo, mobiliza uma revolta que dispara movimentos refletivos e agônicos na personagem, levando- a de um extremo ao outro da vida. A autora conduz o leitor para dentro do mundo psíquico da mulher, centralizando o “eu” na posição de narrador, sujeito e objeto, utilizando o fluxo de consciência e o monólogo interior (por vezes filosófico e litúrgico) como recurso linguístico-estilístico privilegiado. A Comunicação Oral, fruto de pesquisa de Iniciação Científica realizada entre os anos de 2016 e 2017 na FFLCH-USP, terá como objetivo desenvolver aspectos da análise deste conto à luz de algumas referências da psicanálise, sobretudo a noção de sujeito que Freud contrapôs à filosofia cartesiana. Com o apoio da fortuna crítica da autora, proporemos a uma leitura dos três tempos do périplo subjetivo da personagem, sendo o primeiro o de plenitude (antes do encontro com o rato), o segundo o de revolta (que se inicia no “quase” pisar no animal) e o terceiro de iluminação (de organização após a desordem). Pretende-se refletir, também, sobre como se manifesta a epifania da personagem, desenvolvendo a ideia de que ocorre no primeiro momento uma falsa epifania, e no segundo uma epifania corrosiva, de acordo com o sentido atribuído por Olga de Sá em A escritura de Clarice Lispector. Além disso, discutiremos a importância do animal no processo de reelaboração do sujeito, bem como o estranhamento e espelhamento com a alteridade animal, sendo a experiência com o grotesco um confronto necessário para que a personagem possa atingir um possível novo equilíbrio.

18h Um corpo feminino

A hora da velhice feminina no conto clariciano

Amanda Dib da Silva de Almeida Ferreira :: UFRJ

A pesquisa propõe-se a pensar a escrita de Clarice Lispector na década de 1970, acreditando que a escrita da autora atingiu uma espécie de maturidade delineada pela redução a certas questões. A tentativa de Clarice, após A Via Crucis do Corpo, em 1974, é a de não mais ser reconhecida como a grande escritora de Laços de Família, 1960. Seguindo a leitura de Vilma Arêas, acreditamos que Clarice em 1974 faz a recusa do sucesso e da perfeição formal, desejando, de alguma forma, o fracasso de sua obra. É o período no qual a autora “manca” - retira sua literatura de um suposto lugar de monumento e a assume como forma imperfeita. Depois de A Via Crucis do Corpo e Por onde estivestes de noite?, ambas de 1974, ela escreve para trazer à luz algo que os registros do poder e da institucionalização não permitem. No centro da cena, nesta época, aparece o que é mais baixo, mais desagradável e mais feio do que apareceu em 1960 com Laços de Família, pois ganhou outro tratamento e outra forma. No conto Feliz Aniversário, 1960, Clarice escreve o corpo feminino envelhecido, visibilizando-o. A reviravolta da personagem ocorre quando ela não mais tem comportamentos adequados para uma senhora, que, até então, assumia papel passivo e estático diante da família em sua festa de aniversário - feita por parentes que a colocavam como membro mais alto e importante. O que se viu depois da revelação da voz da aniversariante foi a suspensão do padrão da senhora de família, que, depois de cuspir, utilizou linguajar chulo para insultar parentes e trazer incômodo para a festa, desmontando as ilusões familiares. Em 1974, ao escrever o corpo feminino envelhecido, Clarice suspende, desta vez, o padrão de mulher mais velha sem desejo sexual - retirando-a, assim, dos laços de família. Seu novo tratamento para essa matéria é rebaixado e, de certa maneira, pode ser considerado socialmente vergonhoso para conduta de uma mulher mais velha. Revelar os desejos sexuais das personagens tardias de Clarice é dar luz a algo que encontra maior resistência a ser visto, em decorrência do pudor atribuído ao corpo das mulheres. Nota-se que “paralelamente” ao envelhecimento das personagens, acompanha-se esta espécie de maturidade pela redução na escrita de Clarice, capaz de questionar e retirar, rebaixar. Isto incita buscar que rumo tomou o corpo envelhecido das personagens, desde 1960, com Laços de Família, até 1974, com A Via Crucis do Corpo e Por onde estivestes de noite? Coloca-se, também, a pergunta: por que a forma tem que ser imperfeita quando a velhice feminina e o sexo passam pelo centro da cena em 1974? Enquanto em 1960, apesar de já haver, de outra maneira, o feio e o desagradável, a forma mantinha-se perfeita. Para pensar a via crucis destes corpos envelhecidos, leremos Vilma Arêas, Clarice Lispector com a ponta dos dedos; O drama da linguagem, de Benedito Nunes; Clarice - uma vida que se conta e Teoria do Conto de Nádia Battela Gotlib.

Espelhos-superfícies d'Água. Aproximações e distâncias entre a escrita de Clarice Lispector e Lygia Clark.

Raissa de Goes Rapozo :: PUC - Rio

A presente proposta deseja estabelecer um espelhamento entre os romances Água viva (1973), de Clarice Lispector e Meu doce rio (1975), de Lygia Clark. Enxergando, em ambos, uma escrita molhada, úmida. Escrita de lagos e charcos, fluidos. Discursos feito por corpos femininos. Não se trata aqui de romances ditos "de mulher" ou que pretendem debater o lugar ou papel da mulher na sociedade. É uma escrita do corpo. O corpo é feminino, molhado, possui cavidades, buracos, invaginações. Trata-se de uma escrita erótica. Não sobre o erotismo, sobre o sexo, mas o texto mesmo provoca esse erotismo. Ambos os textos, isso pretendo demonstrar, se infiltram nos olhos, ouvidos, boca e todo o corpo do leitor. Criando um erotismo na leitura e da escrita. Produzindo, portanto, uma possibilidade de leitura erótica mais que uma literatura erótica. Lygia diz de uma escrita feita por partes do corpo, conta um mito de criação de um mundo-bicho, mundo feito e percorrido por um rio, um fluxo de água. Uma mulher que goza, molha e cria mundo. Clarice diz querer mais o fluxo que o instante. Em ambas, o fluxo, o movimento e a torção entre espaço e corpo, entre dentro e fora, entre antes e depois, inscrevem a letra, a escrita e o erotismo na relação com o leitor. Quando mencionamos a ideia de torção, queremos trazer luz sobre o gesto de Clark em seu trabalho Caminhando. Ali, ela torce a superfície do papel e cria um paradoxo espacial. Faz desse papel uma fita de moebius para experimentar esse paradoxo onde dentro e fora, verso e reverso ocupam o mesmo lado da fita, da superfície. Lispector escreve em seu romance que deseja o instante já. Os tempos condensados. Essas e outras aproximações serão feitas em minha fala para que possamos perceber essa erótica de uma escrita do corpo feminino.

Espera, espasmo, escrita

Marcella Assis de Moraes :: UFRJ

Este trabalho toma como provocação inicial a afirmação de Maria Rita Kehl, a partir da teoria freudiana, de que as mulheres, até meados do século XX, não tinham alternativas sublimatórias além da maternidade e da vida doméstica. A autora questiona: “Que contribuições teria a mãe vitoriana, ‘mulher ociosa nos limites do mundo’ a que se refere Foucault, a acrescentar à cultura, a partir de seu recolhimento e seu isolamento, além de (Freud)‘tecer os panos com que ocultar as evidências de sua castração’? ”A psicanalista propõe essa questão a partir de um contexto delimitado e, em certo sentido, vencido – o século XX e os limites que se impunham à vida de uma mulher naquela época. Apesar disso, parece haver algo dessa questão que sobrevive ainda e que nos ronda, fantasmaticamente, nos textos de Clarice Lispector. Ao lado deles, ressoam também os romances de Marguerite Duras, as obras plásticas de Lygia Clark, os filmes de Chantal Akerman, as fotografias de Nan Goldin, entre outras. Para me deter sobre isso, proponho um exercício de leitura, a partir do romance Perto do coração selvagem, em que se indicam dois contrapontos: de um lado, a passividade da“carne morta e quieta”, da “falta de vida”, da “lassidão da espera”, da clausura solitária, da diligência feminina e maternal; de outro, a intensa atividade viva e desejante, o “desejo-poder- milagre”, a “vontade de experiência”, a “sede”, “o que faz agir”, “a pura e incontida violência”. Retomo também a distinção que Hannah Arendt apresenta, em A condição humana, entre “vita activa” e “vita contemplativa”, especialmente na relação que ela recupera, a partir dos gregos antigos, entre a capacidade produtiva da espécie humana e a aspiração à imortalidade, que, nos outros animais, é alcançada unicamente por meio da procriação. Para Clarice, nem a imortalidade parece ser uma aspiração nem a distinção entre homem e animal é decisiva; apesar disso, é recorrente a tentativa de reter o instante, tensionando a mortalidade, por uma atividade criadora que não é a da procriação, mas a da escrita. Trata-se de uma espécie de espaço intervalar entre pensar, dizer e agir. Nesse sentido, talvez a maneira de instalar uma passagem desde a passividade e até a ação se condense nesta frase de Joana, logo no início do livro: “é preciso não ter medo de criar” – de tecer panos, passamos a tecer textos.

16-08 ― quinta-feira

9h A literatura e a vida

Pertencer: relações com lugares e não-lugares

Laís Maria Rosal Botler :: Un. Hebraica de Jerusalém

O conceito de pertencimento está intrinsecamente ligado ao de lugar, onde se mantêm as raízes; onde se tem, conforme bell hooks (2009), uma “cultura de lugar”. No presente trabalho, parte da minha pesquisa de doutorado intitulada “Lugares e não-lugares na narrativa de Clarice Lispector”, pretendo analisar como questões de pertencimento são experienciadas, representadas e descritas por Clarice nas cartas que escreveu a suas irmãs e a seus amigos durante o período em que morou fora do Brasil (1944-1959), especialmente no que concerne às relações estabelecidas com os lugares e não-lugares pelos quais passou e viveu. O corpus, composto das cartas presentes nos livros Correspondência e Minhas Queridas, será analisado à luz de autores como bell hooks (2009), Augé (1995), Hall (2015) e Bauman (2000). Tal análise servirá para posterior comparação com os romances que a autora escreveu no período (O Lustre, A Cidade Sitiada, A Maçã no Escuro).

A resistência em Clarice Lispector: uma aprendizagem

Bianca Pulgrossi Ferreira :: UFSCar

O objeto de estudo deste trabalho é o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, publicado em 1969, pela escritora Clarice Lispector. O objetivo central é mostrar que este pode ser considerado uma “narrativa de resistência”, nos termos de Alfredo Bosi (2002). Para isso apresentamos um estudo de parte da fortuna crítica da autora, seguido de uma reflexão sobre o conceito de “resistência” e sua ligação com o contexto histórico do regime militar de 1964. Por fim, utilizamos esses elementos para compor uma análise final, mostrando que a resistência opera no romance por meio de elementos irônicos e parodísticos desestabilizadores de normas, valores e condicionamentos interpessoais e sociais, agudizados no período em questão e que visam desestabilizarem sua recepção. Dessa forma, pretendemos apresentar uma nova perspectiva de leitura sobre o romance, que ressalte seu caráter político-social, de modo a posicionar a escritora como crítica de seu tempo. Assim, o foco deste trabalho é navegar sobre mares pouco explorados, no caso, o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), e, a partir dele, recuperar a relação entre literatura e sociedade existente em suas linhas. Este estudo se faz necessário para ressignificar ou mesmo questionar, a partir da análise do romance em questão, a vertente crítica que considera sua obra apolítica e desinteressada em relação às graves questões sociais que viveu e observou. A crítica em geral, desde a década de 1940 até os dias de hoje, analisou o texto clariciano por meio de três enfoques principais: a questão formal da linguagem, a dimensão filosófica-existencial e a questão do feminismo, segundo afirma Cristina Ferreira-Pinto Bailey em sua pesquisa Clarice Lispector e a crítica (2007, p. 8). Acreditamos que todos esses enfoques contribuem para juntos constituírem um projeto de resistência dentro do texto clariciano. De acordo com Alfredo Bosi (2000), pode-se dizer que existe resistência em uma obra literária quando ela aparece como tema ou como processo inerente à escrita, que carrega dentro uma tensão. Tomando a escrita clariciana pelo seu aspecto formal subversivo juntamente com seus temas existencialistas, podemos afirmar que se trata, de antemão, de uma literatura de resistência, coroada pela questão feminina. Desse modo, os três enfoques (formal, feminino e existencial) aparecem interligados na análise do texto clariciano em questão, no sentido que resistem em certo sentido com a sociedade brasileira e suas contradições do final da década de 1960. Diante do exposto até então, este trabalho tem por objetivo geral investigar como o romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969) aborda uma crítica social ao status quo. Quais foram os artifícios e elementos literários, formais, estilísticos que artesanalmente compuseram essa resistência que ficou abafada? De que maneira a análise de um relacionamento amoroso pode dizer sobre os conflitos da sociedade brasileira da época? De que maneira a questão do feminino, do existencial e também do aspecto formal da narrativa, juntos, fazem com que ela seja uma narrativa de resistência?

Construções do espaço e pertencimento em A Hora da Estrela

Danielle da Silva Leal :: UERJ

A partir do estudo da obra A hora da estrela (1977), são perceptíveis as peculiaridades inerentes à personagem principal, Macabéa. Nesse sentido, Macabéa (quase) não se questiona acerca de sua existência, fazendo uma breve reflexão no momento de sua morte, quando não há mais esperança para ela. Tal fato mostra-se relevante para este trabalho por ser uma história narrada por uma voz masculina e, como afirma Marta Peixoto (2004, p. 194), ao apontar o vazio da existência de Macabéa, nos mostra o “papel” do narrador ao conduzir a história: “É o narrador que indaga e que persegue uma construção verbal: escrever a história da vítima e, através dela, a sua própria”. Macabéa, apresentada e “exposta” por uma voz masculina - Rodrigo S.M -, tem sua existência denunciada por ele, tendo em vista as condições nas quais ele está inserido: Rodrigo S.M. demonstra responsabilidade, compaixão e, ao mesmo tempo, “isenção” de culpa ao compor a história de uma personagem desconhecida para ele, que não faz parte de sua classe social. O narrador-escritor, assim denominado por Clarisse Fukelman (1993), procura construir a história de uma personagem “rala e muda”, que está isolada da sociedade na qual está inserida, buscando o sentimento de pertencimento e identidade. A nordestina está inserida, por esse narrador masculino, em um espaço que não lhe pertence; ela se desloca pelas ruas do Rio de Janeiro, mas não faz parte daquele lugar, tais espaços não são seus. O espaço é estranho para a nordestina que migrou sozinha em busca de melhores condições de vida. Apesar de sua função ser inferiorizada, Macabéa consegue se estabelecer, mesmo que minimamente, em uma cidade estranha para ela. Ser datilógrafa é motivo de orgulho, pois é o melhor que lhe foi concedido. Nesse sentido, o presente trabalho analisa a personagem como dona de sua trajetória e livre. Ela circula livremente pela cidade, trabalha, namora, vai ao médico, ao cinema e vive contente em sua maneira de ver o mundo. Regina Dalcastagnè (2012, p. 140) aponta que, ao contrário do que se afirma sobre Macabéa, ela não é infeliz, “é dona de sua vida e de seus passos, não deve satisfação a ninguém, não tem nenhuma autoridade masculina a quem se reportar. Não é a cidade que a destrói, a cidade lhe dá vida e espaço, quem a mata é seu autor, porque não sabe o que fazer com ela, porque acha que ela não cabe no mesmo lugar que ele.” A grande questão volta-se para a relação do narrador e Macabéa. Os dois não podem ser separados, estão interligados e são dependentes, já que um (sobre) vive à luz do outro. Rodrigo S.M. se propõe a contar uma história de uma mulher que não lhe escapa das mãos; em que sua dura realidade se choca com a do intelectual.

11h Desejo

A odisséia clariceana do amor no livro dos prazeres

Teresinha V. Zimbrão da Silva :: UFJF

Este trabalho se propõe demonstrar que em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Clarice Lispector estaria atualizando situações míticas para o contexto burguês do Rio de Janeiro da segunda metade do século XX. Mostraremos que o tom de desproporção entre o “sublime” da referência mitológica e o “prosaico” da situação romanesca, notado no romance por parte da crítica clariceana, admite ser interpretado como intencional, ainda que tudo seja feito a sério, sem o tom de paródia ou ironia que explicitariam a intenção da autora de escrever então, em diversos sentidos, uma “odisséia às avessas”.

Perigo, desejo!

Tainá Hilana Oliveira Pinto :: UNB

Na busca de estabelecer um diálogo entre Clarice e psicanálise tentarei delimitar a noção de desejo tendo como ponto de partida alguns contos da autora. Sugiro a hipótese de que em Clarice a noção de desejo pode ser aproximada da noção de perigo, de ameaça insondável capaz de fazer colapsar toda ordem estabelecida. A autora parece indicar uma relação estreita entre medo e desejo, de forma que este último, com frequência, se apresenta como um chamado à coragem de ser “o outro que se é”, uma entrega ao desconhecido íntimo que nos habita. Tomando em consideração o conto “Os obedientes”, tentarei estabelecer uma conexão com o texto de Freud “Psicologia das massas”. No conto temos esse casal de personagens que fizeram do “não conduzir”, “não inventar”, “não errar” muito mais do que um hábito em suas vidas, tratava-se aí de um “ponto de honra assumido tacitamente”. Tomo esse ponto de honra que se assume tacitamente – a obediência – como ponto de partida para pensar o indivíduo na massa. Freud, em suas reflexões aponta que regularmente o desejo do sujeito não conflui com os interesses da massa, o desencontro marcado pelo perigo de se opor à massa pode ter como preço o custo da própria vida. Enquanto buscar estar em harmonia com a massa, se permitir contagiar pelas emoções e movimentos da coletividade, ser um anônimo no meio da massa, pode vir a ser sinônimo de segurança e preservação da vida. Mesmo que se trate de uma segurança pautada no autossacrifício. Parece que o sujeito só tem a perder, tanto quando obedece, e se coloca em harmonia com a massa, como quando se opõe a ela. Clarice parece sugerir que talvez a dimensão de liberdade do sujeito esteja em escolher como perderá, e no que fará concessões de si e do próprio desejo.

Desejo e solidão: uma leitura do romance de Clarice Lispector

Gilson Antunes da Silva :: IF Baiano (Valença)

Esta análise do romance inaugural de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, toma como elemento central de investigação as enunciações do desejo na narrativa. Parte do pressuposto de que o desejo, como circuito ininterrupto, procura um repouso sobre o signo perdido (coração selvagem) a partir do advento da falta. O intuito é responder à seguinte questão: como esse movimento se manifesta na narrativa ao perseguir a Coisa perdida? Para atingir esse objetivo, analiso as modulações do desejo ao longo da obra, a partir de três eixos: o infantil, a marca diabólica e o circuito em errância. Investiga-se, desse modo, o desejo em sua potência na sua configuração como vontade de mais além e afirmação da vida em sua tragicidade. Assim, articulam-se o material literário com alguns pressupostos advindos da teoria psicanalítica e da filosofia, numa pesquisa interdisciplinar de natureza bibliográfica. As conclusões apontam para a presença de um princípio corrosivo e disjuntivo agindo com o desejo, impulsionando a protagonista da narrativa para o informe, para o caos, para a repetição na diferença, enfim, para o eterno retorno. Isso ainda remete para um princípio afirmativo da vida, bem como para a impossibilidade de uma síntese final. Nesse gesto afirmativo da vontade, Joana acolhe também a condição de abandono, de solidão como forma de estar no mundo e de aceitar a própria vida.

14h Conferência

Flavia Trocoli :: UFRJ

Do consenso à narrativa, para pôr de luto o saber da noite anterior

16h Sessão de Lançamentos

18h A linguagem do espelho

O advento da especularidade em contos de Clarice Lispector

Mariângela Alonso :: UENP/CCP

O teórico Lucien Dallenbach admite o fenômeno da mise en abyme, espécie de autotexto particular, caracterizado pela reduplicação de aspectos interiores da obra literária, no sistema das relações possíveis dum texto consigo mesmo. A partir dos apontamentos de André Gide (1869-1951), Dallenbach esclarece que a imagem en abyme é oriunda da heráldica e representa um escudo contendo em seu centro uma miniatura de si mesmo, de modo a indicar um procedimento de profundidade e infinito, o que parece sugerir, no campo literário, noções de reflexo ou espelhamento. O estudioso atenta para as comparações com as bonecas russas, as caixas chinesas, as pirâmides mexicanas, os cartazes publicitários e a famosa fita de Moebius como processos que reproduzem seus motivos ao infinito e em perspectiva. Tais questões não deixaram de se fazer sentir na escrita de Clarice Lispector (1920-1977), especialmente no que tange a dois contos presentes no volume Laços de família (1960), quais sejam A menor mulher do mundo e O búfalo. O primeiro relata a aparição de Pequena Flor, uma mulher de quarenta e cinco centímetros, encontrada por um explorador francês na África Equatorial. O jogo abismal inicia-se com a revelação da gravidez da mulher pigmeia. A construção espelhada é reforçada pela oscilação de planos e vozes, pois o retrato da pequena mulher é divulgado nos jornais, gerando as mais diversas reações nos leitores. Assim, o narrador constrói sete diferentes quadros ao modo de subdivisões prismáticas. Projetam-se, portanto, diversos pontos de vista, o que favorece a técnica do encaixe na medida em que tais instâncias requerem para si novas e intrigantes histórias. Trata-se de um exercício de escrita que se renova pelo jogo da especularidade, como ocorre em O búfalo. Neste conto, a especularidade é mediada pelo olhar da mulher que vê no búfalo o outro de si. O encontro do olhar permeia-se num crescendo, à medida em que curiosas imagens se avolumam até o momento do desejo de fusão entre a mulher e o animal. Esse cruzamento remete à figura especular do quiasmo, componente estrutural que propicia um jogo de espelhos, permitindo à autora articular situações dramáticas. Desse modo, imersos nos reflexos de sua interioridade, os personagens confrontam-se numa dinâmica em que identidade e alteridade se alternam. Escritas sob o signo da espiral, as obras que compõem o corpus desta pesquisa trazem imagens difusas e inesperadas de um jogo de espelhos invertidos. O que resta desse jogo é o próprio sujeito, com seus conflitos diante de si e do mundo. Com base nessas considerações, salientamos o procedimento narrativo da mise en abyme como um dos pilares de produção da escrita de Clarice Lispector. Para tanto, lança-se aqui a proposta de uma análise dos contos mencionados a partir das formulações de Lucien Dallenbach (1977), Jean Verrier (1972), Verónique Labeille (2011), entre outros. Ademais, a reconstituição dos principais pontos da fortuna crítica clariciana contribuirá, em grande medida, para o desenvolvimento desta discussão.

Clarice e Gullar: palavras nuas - uma leitura comparativa

Priscila Nogueira Branco :: UFRJ

Derrida, em O animal que logo sou, afirma que os animais não estão nus enquanto uma condição, mas assim o são. Clarice e Gullar, em Água Viva e Crime na Flora, dois textos extremamente experimentais que transcendem qualquer definição de gênero tradicional, buscam o "é" da escrita, sua nudez animalesca. Olhar o gato de Derrida profundamente e não obter resposta é o encontro de Clarice com o "it" da linguagem e Gullar se espantando com a sombra, o fóssil e o vazio das formas.

A literatura filosófica de Clarice Lispector

Pamela Zacharias :: UFRGS

Propõe-se apresentar a presente pesquisa de pós-doutoramento que se origina a partir de um encontro da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari com a escrita de Clarice Lispector e propõe aproximações entre a literatura da escritora e os conceitos desenvolvidos pelos autores. Para Deleuze e Guattari, a literatura se faz em um plano de composição e cria perceptos e afectos através de um personagem estético; já a filosofia, tece um plano de imanência para criar seus conceitos que se constroem por meio de um personagem conceitual. Este trabalho analisa em que instância personagens estéticos e personagens conceituais se atravessam. Quais as ressonâncias que um literato pode provocar no campo filosófico? Para isso, mapea-se as linhas criativas da literatura de Clarice Lispector, seguindo-as em busca de visualizar quais os conceitos sensoriais e quais as sensações conceituais que afloram da criação literária da escritora. Dessa forma, mobiliza-se as potencialidades múltiplas de sua obra para além do campo literário, percorrendo nela uma força filosófica.

17-08 ― sexta-feira

9h Literatura e imagem

A fotografia do horror: análise do conto "A bela e a fera ou uma ferida grande demais" de Clarice Lispector

Geovanny Luz dos Anjos Santos :: UFRJ

A partir da leitura e análise do conto “A bela e a fera ou Uma ferida grande demais”, presente na coletânea de contos A Bela e a Fera, de Clarice Lispector, este ensaio se propõe a abordar as possíveis semelhanças entre a narrativa clariciana e a fotografia com base na cena do encontro de uma mulher rica com um mendigo. Para isso, foram levados em consideração os estudos de autores como: Roland Barthes (1984), Susan Sontag (2004) e Walter Benjamin (2008). Além deles, a abordagem crítica da análise se concentra nos pesquisadores da obra de Clarice: Hernán Rodolfo Ulm (2015), Valéria da Rocha Aveiro, Maria Fernandes de Andrade Praxedes(2017) e Marli Silva Fróes. De modo geral, podese afirmar que a obra clariciana não se prende à sucessão de fatos narrados, mas sim se estrutura em um fluxo de consciência que se inicia como consequência de uma única ação.

O instante-já: a teatralidade em Água-viva

Leila Bianca Mélega Gallo :: PUC- São Paulo

Esta comunicação pretende explorar o termo teatralidade no campo da literatura, mais especificamente da prosa, acreditando em sua pertinência para investigar os sentidos do texto literário e ampliar suas potencialidades. Para tanto, aspira-se buscar índices de teatralidade em Água Viva, de Clarice Lispector, obra que desde o início expõe uma indecisão em relação ao gênero literário, “texto fronteiriço inclassificável” como diz Nunes (1995, p. 157) ,ainda que Lispector tenha insistido em nomeá-la na capa enquanto sendo um “romance”. Essa obra apresenta um movimento próprio que parece-nos apontar para uma performatividade e um jogo rítmico singulares e, por isso, será chave para o desenvolvimento da concepção de teatralidade que buscamos desenvolver nesta comunicação. Então, a partir da reflexão acerca do tempo e das imagens do texto, Água Viva pode contribuir para expandir uma investigação acerca da teatralidade no texto literário, independentemente dele ter sido escrito especificamente para os palcos, levando-nos a entender em quais aspectos podemos encontrar a teatralidade no texto literário em prosa ou verso e quais as suas particularidades, bem como modos de construção. Em contrapartida, é intenção dessa comunicação que esse conceito nos ajude a criar novos caminhos de leituras de Água Viva, expandindo o caminho percorrido pelo romance dentro das fissuras entre literatura e teatro. O romance Água Viva de Clarice Lispector pode ser capaz de mostrar a sua potencialidade, já que é um texto repleto de nuances que caminham entre o limiar do escrever e do ser e que é sempre completado por imagens que valorizam a relação do “instante-já”. Assim como ocorre no teatro, visto que esta é a arte do momento presente, do agora, o romance de Clarice enfatiza essa performatividade do texto, que se dá no momento da leitura. Por isso, acreditamos que seja de fundamental importância traçar esse caminho utilizando o conceito de teatralidade pouco explorado na literatura.

Clarice a cada sábado

Heloísa Iáconis :: USP

De 1967 a 1973, Clarice Lispector foi assinatura certa no Caderno B do Jornal do Brasil. Nesse espaço, a escritora teceu, semana após semana, “conversas de sábado”, colunas que apresentam, com delicadeza afiada, um leque grande de temas, circunstâncias, personagens e composições textuais. Esta pesquisa, empreendida no âmbito do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), busca compreender tal produção clariceana, vista a partir do laço dual entre jornalismo e literatura. Classificados como crônicas, os escritos em destaque dialogam de forma muito particular com o gênero que é, no íntimo, um caleidoscópio do cotidiano. Clarice aproxima-se e, em um triz à frente, afasta-se daquilo que é, comumente, tido enquanto crônica. No material em questão, há de tudo um tanto: trechos de obras da própria autora, entrevistas, cartas, declarações a amigos, questionamentos pessoais. O conjunto, ainda que diverso, carrega, porém, a essência da atividade cronística: coloca-se ao “rés do chão”, termo cunhado por Antonio Candido, mesmo quando o eu ganha o plano medular. E mais: tem-se um superar do ramerrão, ponto que, segundo Davi Arrigucci Jr., é dever do gênero. Fora um dado tom informal e uma espécie de pacto respeitoso com o leitor, os textos de Clarice no JB alinham-se à tradição cronística – desorganizando-a. Uma crônica que, por um lado, é crônica e, por outro, não é: sem desmentido algum que enfraqueça o discurso, a escritora apropriou-se do consolidado e reinventou, a seu modo, um terreno que bem permite liberdades várias. Este estudo é, portanto, o entre do entre esmiuçado: no meio do jornalismo e da literatura, a crônica; no meio da crônica e da não crônica, a crônica de Clarice Lispector. O híbrido do híbrido. Para a análise deste corpus, criou-se cinco categorias: o eu e o outro, grupo que abrange contribuições focadas nas primeiras pessoas (singular e plural); o entorno, reunião de escritos acerca de conjunturas externas; a construção do feminino, na qual o ser mulher é a tônica preponderante; memórias de vida, série que traz recordações da infância em Recife e de momentos da idade adulta; o escrever, reflexões sobre o ofício, que perpassam pelos pares (de suporte e gênero) já citados, além de excertos de livros da autora. Importante salientar que essas classes foram criadas com o intuito de embrenhar-se em tópicos que são caros a Clarice também na esfera puramente literária. Um dos medos da escritora era, no periódico, perder-se de si mesma. Atribuição mantida devido à necessidade financeira, a incursão clariceana na crônica, todavia, mantém o sumo dos volumes consagrados. Com aporte teórico baseado em artigos dos críticos mencionados e nas teses de Aparecida Maria Nunes e Célia Regina Ranzolin, esta pesquisa procura interpretar a realização cronística de Clarice como uma soma que se fez singular e renovadora. Um pescar de entrelinhas rápidas, fugazes que, em última instância, avivam um teor humano e empático que nem sempre possui lugar nas páginas nascidas para o agora.

11h Experiência de um eu

Aquela última instância: a flor.

Lucas de Aguiar Cavalcanti :: UFRJ

Em “A imitação da rosa”, conto de Clarice Lispector publicado pela primeira vez em 1960 na coletânea Laços de Família, encontramos a personagem Laura, uma dona de casa de classe média, que tenta retomar a normalidade de seu cotidiano após “estar de novo bem”. O que aconteceu antes de Laura estar de novo bem, isto é, a informação sobre algum mal que a acometeu anteriormente, isso está apagado, acessível apenas nas entrelinhas do texto. Ainda assim, a compreensão completa não pode passar de uma ilusão, já que as lacunas e o não dito apagam a possibilidade de estabelecer uma sequência encadeada na vida dessa personagem. Aquilo que restará indecifrável da leitura já está posto no início do conto, na descrição física de Laura há “uma ponta de surpresa no fundo de seus olhos”, “um mínimo ponto ofendido em seu olhar”. Esse ponto no fundo de seu olhar pode ser lido como a imagem daquilo que restará não dito. A rosa, introduzida já no título, figura no conto como elemento que rompe a superfície de normalidade e banalidade do cotidiano de Laura, reintegrando a “extravagância” em sua vida. Esse elemento do mundo externo detona uma série de acontecimentos interiores que se desenvolvem na consciência da personagem. A partida das rosas irá engendrar no conto um esquema de perda que por fim levará a personagem ao seu estado anterior, antes de “estar de novo bem”. Para Lambotte a melancolia aparece ao longo da história ocidental como conceito que engloba um conjunto variado de sensações, tendo sido concebida por Platão como “conjunto de caracteres onde conviviam facilmente a embriaguez, a paixão e a demência” (LAMBOTTE, 2000, p. 33). O conceito de melancolia, com suas diferentes formas, surge neste trabalho como auxílio para compreendermos a trajetória de Laura, personagem que experimenta diferentes estados de sentimentos e excitação ao longo do conto. Embora esteja centrado nos pensamentos, sentimentos e reflexões de Laura, o conto é narrado por uma voz em terceira pessoa. Deste modo, resta analisarmos quais as relações que se estabelecem entre os pensamentos da personagem e a voz narrativa. Além disso, pensarei quais são os efeitos dessa relação para a estrutura do conto. O que fará Laura retornar ao estado considerado de “loucura”? Como o conceito de melancolia, com toda sua abrangência, pode servir de referencial interpretativo para a dinâmica vivida por Laura? Qual o efeito que a ruptura representada pelas flores causa na vida de Laura e na linguagem do conto? Partindo dessas questões, tentarei pensar neste trabalho a função das rosas nesse conto para além de um símbolo, como elemento que não se fixa à ordem cotidiana e que lança Laura em uma dinâmica de excesso e esvaziamento.

Aquela última intância: a existência.

Maísa Ferreira da Silva :: UFRJ

Debruçando-se sobre o conto A imitação da Rosa de Clarice Lispector , este trabalho propõe-se analisar, à luz da filosofia de Jean-Paul Sartre, os modos pelos quais a personagem Laura faz-se sujeito no mundo a partir da compreensão da existência como totalização em curso capaz de movimentos cristalizantes e essencializadores. Tomando a conceituação sartreana de projeto existencial, o conto de Clarice Lispector nos confronta com uma mulher que, em sua liberdade, faz-se para o outro uma existência impregnada pelo vazio, pelo não ser. Munida pela obra literária de Clarice Lispector, pretendemos discutir a experenciação da feminilidade sustentada em um dever ser e na impossibilidade de ser digna como o outro. É preciso não despertar o espanto no olhar dos outros, não despertar a pena e é no agigantamento da liberdade do outro que a existência de Laura não pode ser outra senão a de um não-sujeito, senão daquela que ganha tempo para que a existência do outro se viabilize. E é diante de um objeto que lhe é presenteado - um buquê de rosas - e significante de uma possibilidade de ser outra no mundo, que Laura, numa atitude de má-fé, decide por dar as rosas a outra pessoa como forma de escapar da angústia e fixar-se em uma temporalidade psíquica alienante. Baseando-nos fundamentalmente no conceito de projeto existencial, buscaremos articular as ferramentas da obra de Clarice Lispector com a filosofia da existência de J-P. Sartre a fim de contribuir para o alargamento das possibilidades teóricas e práticas da Psicologia contemporânea.

Poéticas do eu: a fenomenologia do instante em Clarice Lispector

Andrea de Carvalho :: UTFPR

O presente trabalho se propõe a analisar o conto “O Relatório da Coisa”, de Clarice Lispector a partir de uma leitura fenomenológica. As possibilidades abertas pelos rastros deixados na escrita de Lispector são infinitas. A articulação das vozes do eu talvez seja uma das marcas mais significantes para tal interpretação. A autora sujeita as instituições mais rígidas e inflexíveis a seu jogo: a palavra e a literatura tornam-se peças de apoio. Este trabalho intenta, assim, elencar o gesto (fenomenológico) em torno do qual as vozes do eu se articulam no conto. O foco da análise centra-se nos aspectos que demonstrem as relações de significação, ou entrelaçamento, estabelecidos entre o eu e o outro. O esforço em resumir o “enredo” do conto é frustrado, pois qualquer leitura reside na insinuação de conceitos dispostos em formato de “relatório”; na tentativa de significar aquilo que não pode ser dito - tarefa essa melhor empreendida pela literatura. O leitor se acha perdido em meio à construção de palavras que carregam em si apenas a função de distraí-lo para que a significação floresça em seu ínterim. No entanto, a manutenção do instante parece ser elemento primordial para que as relações de significação entre o eu e o outro se estabeleçam no conto. O instante parece ser a chave de leitura para que o narrador, juntamente com seu interlocutor, signifique o tempo (e assim, o eu): deixar o mínimo para o desconhecimento, o amanhã, implica dedicar-se à manutenção repetitiva do instante; do agora. Clarice Lispector se abre e abre seu leitor à possibilidade do impossível; do impronunciável. No conto “O Relatório da Coisa”, a autora sujeita a rigidez do gênero relatório à rigidez do gênero literário, faz com que se relacionem, se entrelacem, se percam um no outro para fazer ver a negligência que se constrói quando a preocupação está na elaboração de palavras e não de significantes. A progressão de entrelaçamentos é concomitante à progressão do conhecimento da “coisa”: quanto mais o eu se abre a outras relações que tangenciam a “coisa”, mais o eu sabe. A linguagem, a “coisa” (que é, em última instância, linguagem) está sempre aquém e além da significação (tal qual estabelece Roland Barthes). Esse trabalho não poderia, portanto, propor qualquer coisa outra que não a tentativa - tentativa de elencar o gesto concebido da interação de significantes. Não obstante, o presente estudo pretende elucidar aspectos referentes à construção de sentido que nasce a partir dos encadeamentos de silêncios estabelecidos pelas vozes no conto. Assim, a fenomenologia engendrada, principalmente, por Merleau-Ponty se mostra a mais pertinente para tal perspectiva de análise.

14h Conferência

Yudith Rosenbaum :: USP

Clarice Lispector: Lucidez, loucura e desrazão

16h Políticas da escrita

A paródia segundo c.l.

Gustavo Reis Louro :: Un. de Yale

Uma reflexão acerca da paródia como procedimento escritural na ficção de cl. Como a paródia serve como um contradiscurso às narrativas estabelecidas pela metafísica e pela religião, principalmente. Obras como A paixão segundo G.H., Água viva e os contos "Uma galinha" e "O ovo e a galinha" serão lidos a partir dessa chave.

Everybody lies: deception and mystery

Elhana Sugiaman :: Un. de Oxford

Clarice Lispector's works are shocking to the critics for many reasons. However, those can be summarised under one attribute that is 'a lack of', e.g. a lack of plot, politics, male perspective, and even morality. In a time where literature was the domain of social criticism, Clarice's works seemed to come out of nowhere. Justice was a vague concern. Like little children, her characters constantly test their boundaries. This includes the question of right and wrong. What is sin? It's a good question. Yet her role as an author plays a part in moulding her character's morality. Known for her mystery, Clarice withholds information about herself in as much as she keeps her readers in the dark with her narrative. Her stream-of-consciousness is a flow of impressions and sensations - not truth. No, truth can only go as far as half-truth, given the unreliability of the narrators. There is a string that weaves the attribute of 'a lack of', and that is the subjectivity of the text, or how the text often represents or encompasses a person's 'string' of thoughts. What she realises in her text is how the mind does not always know the objective truth, but constantly believes in truth because that it is equal to experience. Thomas L. Carson defines a lie as 'a deliberate false statement that the speaker warrants to be true' (2010). That begets two noteworthy features: (1) that lying does not require that the liar intends to deceive others and (2) that any lie violates an implicit promise or guarantee that what one says is true. 'To lie, on this view, is to invite others to trust and rely on what one says by warranting its truth, and at the same time to betray that trust by making a false statement that one does not believe to be true' (Carson 2010). The concept of lying is present in Clarice Lispector's writing. Characters may lie and sometimes their action betrays their thoughts. For examples: Joana does not know her happiness and trembling come from the grief of losing her father. G.H. does not know which reality is composed of her own created truths or lies. On the other hand, Rodrigo knows that he is lying for the sake of performing the part of being an author. Her characters lie because lying is worth a value to survive in the world. They are three cases of lying from three different books. Perto do coração selvagem chronicles almost a lifetime of a woman's experience and her inner thoughts. Her subconscious lie stems from her disposition which prefers logical, experimental thinking rather than emotional. Clarice allows us to see the jarring conflict whenever Joana experiences particularly emotional situations, like the death of her father, argument with Otavio, and encounter with Lídia. A paixão segundo G.H. recounts the inner thoughts of a woman's crisis after she crushed a cockroach. Her lie remains hidden underneath her paradoxical truth. A hora da estrela portrays an author's creation of a novel which aims to criticise social injustice. Rodrigo's narrative does not yield subconscious lying; rather, lying is device to justify a person's worth and action. In all three formats, it is evident that lying within the subconscious mind is a way to depict a person's reality. It reveals all of their reality but not all of the mystery. In the case of which the subconscious mind reflects a fantasy (i.e. Macabea's life), not all of their reality is bared, and yet all of the mystery is disclosed. Everybody lies, except those who hide the truth.

Escrita ação, escrita corpo

Lia Duarte Mota :: UFJF

Em A hora da estrela, último romance de Clarice Lispector, de 1977, o narrador Rodrigo S.M afirma que, para escrever, seu material básico é a palavra e que dessa junção de palavras, que formam frases, surge um sentido secreto. A palavra é, assim, ação. O narrador nos avisa também que não é um intelectual, ele se sensibiliza, escreve com o corpo. Esse sentido secreto de que fala o narrador parece estar próximo do que Jacques Rancière chama de política da arte, algo que, entre outras coisas, está além da vontade do autor/artista. Para o teórico, a arte possui uma política própria, que concorre com a disciplina política e que é anterior à vontade dos artistas. Desse modo, a arte não produz conhecimento para a política, mas sim dissensos, uma experiência específica, fruto do engendramento entre o visível e o não visível, o dizível e o não dizível. O que vale ressaltar é que a tensão imposta não se resolve, ela é parte do espaço sensível comum. Trata-se, então, de pensar como esses corpos estão imbricados na escrita, partes de um ato que se dá no indecidível da política da arte. A literatura envolve o corpo e não deve falar, especificamente, sobre situações políticas para ser política, não deve falar, especificamente, sobre a existência ou a construção/ ocupação humana do mundo para ser considerada pensamento. A escrita é política ao embaralhar gêneros, discursos, assuntos, línguas, lugares. A proposta deste trabalho, portanto, é pensar este corpo presente no romance de Clarice Lispector como ação política.

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Informações sobre transportes

Ônibus passam regularmente até 21:30. Após esse horário os intervalos tornam-se irregulares. Os últimos ônibus passam aproximadamente às 22:20 (ônibus que faz integração com o metrô). Há um ponto de táxi diante da Faculdade, após 18h é necessário requisitar táxi na portaria. Mais informações sobre transporte na paǵina da Faculdade de Letras. Há linhas de ônibus da própria UFRJ que fazem integração entre a Ilha do Fundão e várias partes da cidade. Horários e pontos de saída podem ser conferidos aqui. O tempo de viagem a partir do Centro/Zona Sul do Rio é de cerca de 1h de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Oeste é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 45 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Norte do Rio é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush).

Sobre certificados aos ouvintes

Serão concedidos certificados de participação aos ouvintes equivalentes a 1 hora/sessão ou conferência, autenticado por lista de presença. Será concedido um certificado de participação no encontro equivalente a 12 horas para ouvintes com presença em 9 sessões.