Benjaminiana 2019

Entre os dias 28 e 30 de agosto de 2019 ocorrerá na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro a 3a. Benjaminiana, evento anual dedicado à obra de Walter Benjamin, visando reunir pesquisadores dos mais diversos campos que trabalham com ou circulam ao redor da obra do escritor, permitindo trocas a partir de uma reflexão específica e concentrada no corpus benjaminiano. A Jornada é promovida pelo PPG em Ciência da Literatura da UFRJ e pelo Projeto Fortuna — Laboratório de Edição do PPG. Pesquisadores estão convidados a enviar resumos, até 14 de julho, através do formulário na página do evento ou pelo e-mail walterbenjamin.fortuna@gmail.com. Pedimos resumos com o máximo de 500 palavras para comunicações de até 30 minutos. Incluir também cinco palavras-chave. Pode-se incluir bibliografia após o resumo, caso se deseje. No caso de envio por e-mail, indicar no campo ‘assunto’ da mensagem ‘resumo benjaminiana 2019’, incluindo o nome do autor, título do trabalho e instituição a que pertence além das palavras-cheave. Inscrições para ouvintes podem ser feitas pelo mesmo formulário até o dia do evento. Haverá seleção dos trabalhos por um comitê científico. Este ano teremos conferências de Leila Danziger (UERJ) and Patrick Pessoa (UFRJ) Dúvidas remeter a walterbenjamin.fortuna@gmail.com

Comitê Organizador


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Comitê Científico:

Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

manuscrito passagens

Inscrição

A inscrição de resumos ou de participação como ouvinte pode ser realizada no formulário abaixo. Caso a opção seja por realizar a inscrição por e-mail (walterbenjamin.fortuna@gmail.com), além do resumo e das palavras-chave por favor incluir as seguintes informações:

Benjaminiana 2019

Annual Walter Benjamin's Researchers Meeting


August 28th to 30th
Faculdade de Letras UFRJ | Auditório E3

Projeto Fortuna — Laboratório de Edição
Walter Benjamin's Page
PPG em Ciência da Literatura UFRJ

From August 28th to August 30th , 2019, the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ) will host the third Benjaminiana - annual Walter Benjamin's Researchers Meeting at Faculdade de Letras. The congress aims at gathering researchers and readers of Walter Benjamin, creating room for dialogue and stimulating discussions and exchange amongst researchers of his work. Besides, the meeting aims at stimulate discussions and exchange of information about Benjamin. Brazilian researchers Leila Danziger (UERJ) and Patrick Pessoa (UFRJ) will give conferences. Besides, the participation of researchers from all over the world is expected for paper presentations. This congress is organized by Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura (UFRJ) and Projeto Fortuna.
Papers can be submited up to July 14th . Proposals must be no longer than 500 words and contain 5 keywords. Paper proposals will be evaluated by the scientific committee whose participants are listed below. Propositions can be sent by e-mail (walterbenjamin.fortuna@gmail.com) or form.

Committee:


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Scientific Committee:

Alessandra Martins Parente (USP)
Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Juliana Lugão (UFF)
Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

benjaminiana 2019

Reunión Aual de Investigadores de Walter Benjamin


28, 29 y 30 de agosto
Faculdade de Letras de UFRJ | Auditorio E3

Projeto Fortuna — Laboratório de Edição
Sitio de Walter Benjamin
PPG em Ciência da Literatura UFRJ

Del 28 al 30 de septiembre de 2019, la Universidad Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) será la sede de la segunda Benjaminiana - reunión anual de investigadores de Walter Benjamin en la Facultad de Letras. El congreso tiene como objetivo reunir investigadores y lectores de Walter Benjamin, creando un espacio para el diálogo sobre su obra, además de estimular las discusiones y el intercambio de información sobre los estudios benjaminianos. Presentarán conferencias los investigadores brasileños Leila Danziger (UERJ) y Patrick Pessoa (UFRJ). Además de ellos, se espera que investigadores de todo el mundo presenten ponencias. Este congreso está organizado por el Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura (UFRJ) y Projeto Fortuna.

Las propuestas de ponencia pueden enviarse hasta el 14 de Julio. Los resúmens deben tener hasta 500 palabras y contener 5 palabras clave. Las propuestas serán evaluadas por el comité científico cuyos participantes se enumeran a continuación. Las propuestas deben enviarse por correo electrónico (walterbenjamin.fortuna@gmail.com) o formulario.

Commité organizador:


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Comité científico:

Alessandra Martins Parente (USP)
Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Juliana Lugão (UFF)
Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

ver o futuro

Benjaminiana 2019

III Encontro de pesquisadores de Walter Benjamin

28, 29 e 30 de agosto

Programação

Faculdade de Letras da UFRJ ― Auditório E3

Av. Horácio Macedo, 2151 ― Cidade Universitária, Rio de Janeiro

Com conferências de Georg Otte (28/08), Patrick Pessoa (29/08) e Leila Danziger (30/08)

Comitê Organizador


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Comitê Científico:

Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

29/08 | quarta-feira

11h

Da experiência

Alan Barbosa Buchard (UFRJ) | O "de-agora-tempo" de São Paulo e o "tempo-de-agora" de Walter Benjamin

Em "O tempo que resta", Giorgio Agamben, identifica na representação do tempo histórico na teologia de Paulo de Tarso o ponto de emergência ("entstehung") do conceito de história (ou historicismo) da tradição cristã ocidental . O objetivo da comunicação é partir da noção do “de-agora-tempo” ("ho nyn kairós"), tal como analisada por Agamben, para se interrogar sobre a relação entre o “tempo messiânico” da teologia cristã e o “tempo-de-agora” ("Jetztzeit") da filosofia da história de Walter Benjamin. Enquanto a primeira noção é responsável por uma visão de história marcada pela tensão entre a “abertura” e a “conclusão” da História, a segunda noção, de Benjamin, se apresenta como uma alternativa historiográfica ao tempo histórico da concepção cristã. O texto que servirá de base à análise é o conjunto de teses Sobre o conceito de História (1940) – especificamente, as teses XIV, XVII e XVIII – nas quais Benjamin apresenta sua definição de “tempo messiânico” ("Jetztzeit"), como tempo da “rememoração” ("Eingedenken") e da “redenção messiânica” ("Erlösung"). É a partir dessas noções que Benjamin fará uma dura crítica ao historicismo materialista da Modernidade capitalista, fundado sobre a noção de “progresso da história”. Objetivo da comunicação é, portanto, apresentar o paradigma original da concepção de história tal como entendida pelo Ocidente moderno, bem como a crítica desse paradigma a partir da filosofia da história de Benjamin – distinguindo as aproximações e distanciamentos entre a noção filosófica de tempo em São Paulo e no filósofo alemão.

Bárbara Santos Soeiro (UFBA) | Da expropriação à ressurgência: lampejos de experiência na contemporaneidade

"O emprego do termo experiência (erfahrung) é recorrente na obra de Walter Benjamin, aparecendo desde os seus ensaios de juventude até os seus textos de maturidade, escritos pouco antes de sua morte. Assim como nos indica Jeanne Marie Gagnebin, em seu prefácio à primeira edição das ""Obras escolhidas: Magia e Técnica, arte e política no Brasil"", o alargamento do termo na obra do filósofo alemão dirige-se, sobretudo, contra o seu uso redutor. A investida ou ataque contra a palavra experiência, em seus anos de juventude, não contradiz seus textos posteriores; no entanto, apresenta-se ainda carente daquilo que a tornará eixo indispensável na sua obra. Por ora, é especialmente nos escritos de 1930 sobre os quais devemos nos deter com mais cuidado, isto porque o desdobramento de uma possível genealogia do conceito de experiência parte, paradoxalmente, da constatação do seu processo de expropriação. Propõe-se seguir o encalço do conceito de experiência na contemporaneidade, acompanhando-o em seus respectivos movimentos de expropriação, destruição e, finalmente, ressurgência, segundo os desdobramentos benjaminianos propostos por Giorgio Agamben e Didi-Huberman. Para Agamben, a expropriação daquilo que antes podíamos comunicar, transmitir — predita por Benjamin na modernidade — torna-se fatal na existência contemporânea. Se a razão da primeira se dá em meio às ruínas deixadas pelas grandes guerras que arrasaram a Europa, a segunda se dá em nosso cotidiano individual, este que, curiosamente, nunca antes fora tão rico. O que ocorre, entretanto, é a recaída repentina de sua filosofia num covil apocalíptico; pois, uma vez despossuídos de experiência, nós, sujeitos contemporâneos, ofuscamo-nos sob uma grande luz escatológica, a espera de redenção. Deste modo, o movimento filosófico de Agamben parte de uma destruição inicial a uma transcendência ou “imagem absoluta”, uma saída pela remição. Didi-Huberman aparece, em ocasião, propondo-nos uma guinada de pensamento, sugerindo-nos descobrir um espaço de ressurgência das imagens, estas quais, raras, frágeis e intermitentes, surgem no próprio vazio de nosso tempo. Eis aqui, enfim, uma fagulha, uma brecha mínima de luz."

14h

Contar

Bruno Pinheiro Ribeiro (UFRJ) | Ainda é possível narrar? Uma proposta de leitura para a dramaturgia de Tempo Morto, da Companhia do Latão.

Em Tempo Morto, segundo ato de Ópera dos Vivos, a Companhia do Latão se esforça para reparar algumas lacunas históricas e promover certas conexões com experiências passadas, assumindo a possibilidade da interlocução com parte das atividades teatrais brasileiras dos anos de 1960 e revelando o processo alucinado da exploração capitalista, com seus acordos de classe que redundaram no golpe de 1964. As articulações formais da dramaturgia estabelecem uma tentativa de “escovar a contrapelo”, e, portanto, de assumir o passado como verificável no presente e possivelmente projetado para o futuro. Esse processo de rememoração assume a narração como fundamento para a necessidade de transformação. Ao admitir a possibilidade de contar, a dramaturgia adota concomitantemente a possibilidade de recontar, ou seja, de mirar a história por outros ângulos. Desse modo, a narrativa funciona em constante ativação da memória social, entendendo-a de maneira aberta. A história é elaborada poeticamente, portanto, de forma dinâmica e mutável, de modo que a experiência representada se atrita com a expectativa linear e conclusiva dos fatos históricos “oficiais”, deixando a premissa brechtiana “de que a história poderia ter sido de outro jeito” em latência.

Isabela Cordeiro Lopes (USP) | Benjamin e a narrativa da experiência: a literatura em jogo

"Os ensaios de Walter Benjamin sobre o narrador, o empobrecimento da experiência e a reprodutibilidade técnica ora apontam para uma crise, ora para a impossibilidade de uma arte que seja capaz de narrar a experiência de uma forma que não seja aprisionada ao presente, aos modos de produção capitalistas e a uma planificação das temporalidades. A partir de uma leitura cuidadosa do autor, aliada aos estudos de Jeanne Marie Gagnebin acerca de seu pensamento, este trabalho se volta para estes aspectos fundamentais da crítica de arte benjaminiana, procurando neles ferramentas de análise dialética tanto dos elementos antropológicos e culturais quanto da estética contemporânea.
Propõe-se neste trabalho um exercício duplo para a leitura do trabalho benjaminiano, à luz de algumas produções literárias contemporâneas: em primeiro lugar, estabelecer uma concepção antropológica da narração, retomando o “materialismo antropológico” de Benjamin. Essa perspectiva nos permite entender, afastando-nos de uma certa tendência ao pessimismo, o clássico narrador benjaminiano - cujo narrar é marcado pela coletividade, pela transmissão da experiência, por seu aspecto artesanal, calcado na oralidade. Em um segundo momento, cabe observar que, dada a necessidade antropológica da narração, esta deve tomar uma forma, deve se realizar concretamente, em uma espécie de jogo de forças contra a própria inenarrabilidade da experiência contemporânea. Dado o fim das grandes narrativas, outras formas devem surgir, estabelecendo relações oblíquas com seu próprio tempo e com as temporalidades com que dialoga, sobretudo o passado, geralmente marcado pela interdição.
A partir desses dois passos, este trabalho se volta para as produções vanguardistas da literatura contemporânea, procurando analisar as formas de narrar que emergem da experiência, se não inenarrável, ao menos profundamente empobrecida da contemporaneidade. Em especial, procura-se analisar algumas produções que estabelecem estéticas do jogo literário como forma de narração, não no intuito de recuperar a irrecuperável narrativa pré-capitalista, mas no movimento de, articulando-se com o presente, desmascarar o real a que se colam. Dando forma à ideia de que se adere à experiência (Erfahrung) uma dimensão experimental, o próprio Benjamin já aponta no sentido de ver nas produções mais radicais de seu tempo uma estética produzida a partir dos escombros da narrativa tradicional. No século XXI, Alejandro Zambra, Veronica Stigger, o predecessor Georges Perec, entre outros autores, parecem atestar que a única forma de narrar é quebrar por inteiro as noções que fundaram a narrativa tradicional. Não há, pois, uma recusa da literatura, ou da tentativa de narrar a experiência: há uma renovação da literatura por meio de seu próprio exercício. O narrador benjaminiano é, em parte, reabilitado por complexos jogos narrativos, conforme aponta o pensador: “nas obras de arte, o que é acarretado pelo murchar da experiência [...] é um ganho formidável para o espaço de jogo”. Neste quadro, o trabalho pretende discutir as dimensões do jogo literário como uma reabilitação, parcial e fragmentada, do espaço de narração de uma experiência contemporânea que é ao mesmo tempo impossível e necessária."

Maycon da Silva Tannis (PUC-Rio) | Walter Benjamin e o Não-Sentido: Uma deontologia possível.

"Com o presente trabalho pretendo tratar da questão do não-sentido como instrumento crítico e criativo em Walter Benjamin, em seus textos sobre literatura, seus textos literários e suas anotações que formam o volume monumental das “Passagens” (Die Werke, 1927-1940). A tematização do não-sentido não foi tratada de modo específico em sua obra, mas podemos tomar em conta a elaboração crítica para uma dialética imóvel, como evidenciado na sessão “N” das Passagens, onde o autor toma a tensão como elemento crítico e não se preocupando com o termo suprrassumido nascido após o movimento dialético.
Essa tensão, como pretendo demonstrar com esse trabalho, se encaminha para um rompimento com o sentido, uma vez que admite a polissemia dos termos dispostos, ainda que em contradição, a não-conceitualidade como valor ativo e produtor de um sentido polissêmico em proximidade com a metáfora e uma existência plena, ainda que momentânea, que se abrindo instantaneamente para um Ser-aí que se realiza em um instante e também em um instante se esvai, restando apenas a metacinética que este produz em seu instante explosivo, como nos aponta a famosa metáfora do trovão.
Neste trabalho pretendo retomar essa estrutura crítica em convergência com a sua obra literária, principalmente nos escritos “Rua de Mão Única” e o apanhado, recentemente traduzido em língua portuguesa “Arte de contar Histórias”. Essa convergência que pretendo demonstrar nos aponta a profundidade filosófica que os escritos de Benjamin possuem, tanto como crítico da cultura e a consequente formulação de escritos que deem conta dessa crítica, tanto como um teórico do ficcional que opera dentro e fora das reverberações de sua obra. Nesse sentido aqui, ao afirmar que a sua literatura e a sua crítica convergem/confluem para o não-sentido, afirmo aqui que ambas se tornam instrumentos que impedem a reificação do real e o consequente pacto com a ontologia nele disposto: a atitude de uma violência contra a linguagem tem o flagrante de torna-la algo mais que mera esteira de conteúdo, mas um elemento criador do real e de uma realidade que seja lugar de encontro.
E justamente por isso, por ser dotado de características que privilegiam esses espaços para além de uma conceitualidade homogênea, por se realizarem no terreno denominado por Hans Blumenberg de Eixo Metafórico, assim sendo, por se realizarem na metáfora, são descomprometidos com a restrição que a ontologia impõe. Para tal localização intelectual pretendo mobilizar os debates em torno do ficcional para desdobrar as obras de Benjamin nos produtos que acima citei e então compreende como essa confluência se liga à uma demanda geracional iniciada, segundo o próprio autor, por Proust, mas que podemos observar em outros autores do período, como Virginia Woof, Dostoievisky e outros. A proximidade desses textos será interessante para notarmos como, em acordo com a geração que enfrentou o terror da primeira grande guerra de 1914, o autor faz esse verdadeiro giro-copernicano em nome da destituição do sentido unívoco do real, que para o autor é sempre sinônimo de barbárie."

16h

Imagem-coisa

João Paulo de Freitas Campos (USP) | Imagem dialética como método

"A tarefa desta comunicação é refletir sobre as virtualidades e limitações das ideias de Walter Benjamin para o estudo da dimensão expressiva da vida social, com ênfase no estudo do cinema. Focalizaremos o conceito de imagem dialética, pensando como cineastas contemporâneos constroem imagens críticas de seu presente histórico ao questionar a história oficial ou hegemônica. A reflexão propõe a utilização do conceito supracitado como método de análise crítica da vida social, pensando a partir da leitura de fragmentos do projeto Passagens (BENJAMIN, 2018) e de algumas interpretações recentes da imagem dialética (BUCK-MORSS, 2002; PENSKY, 2004; JENNINGS, 1987). De acordo com Benjamin, “a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal e contínua, a relação do ocorrido com o agora é dialética - não é uma progressão, e sim uma imagem, que salta” (BENJAMIN, 2018, p. 766-767). A articulação de imagens do passado no presente conduz este a um estado crítico e o lugar que encontramos tais imagens é na linguagem ou no sedimento linguístico da cultura material de uma época (PENSKY, 2004, p. 193). Pode um conceito de definição tão obscura e aberta nos auxiliar na análise do cinema?
Em seguida, apresentaremos um estudo de caso em que realizamos uma leitura benjaminiana do filme Era uma vez Brasília (2017), de Adirley Queirós (CAMPOS, 2019). Buscando alternativas ao paradigma da representação na análise fílmica, descrevemos uma constelação de aparições: lonjuras que se transformam em presenças diante do espectador. Na obra de Queirós, o passado de Brasília interage com o presente histórico da Ceilândia, o que suscita ao leitor uma reflexão crítica sobre as promessas de progresso da modernidade brasileira.
A partir de uma interpretação do fragmento do arquivo N supracitado, Max Pensky (2004) argumenta que a noção de imagem dialética evoca uma temporalidade alternativa em que o ocorrido interage com as aspirações políticas de um agora. Uma tensão entre objetividade e subjetividade subjaz o conceito - tempo e método. Nós encontramos imagens dialéticas nas expressões culturais de uma época (tempo) ou as construímos através de um agenciamento crítico (método)? Outros estudiosos - além do próprio Benjamin - podem encontrar ou construir tais imagens? Com a leitura do filme de Queirós, pretendemos mostrar esses dois aspectos da imagem dialética em ação, numa tentativa de aproximar a crítica de cinema, a antropologia da arte e o pensamento de Walter Benjamin."

John C. Dawsey (USP) | Brincando de bonecos: o conceito benjaminiano de mímesis

Este estudo mobiliza o conceito benjaminiano de mímesis. Em uma cidade do interior paulista, observa-se um circuito mimético em que bonecos criados à semelhança de “velhos barranqueiros” entram em relações com moradores que se tornam semelhantes aos bonecos. O gesto de um artesão de povoar as margens de um rio retorna com a força de um campo energizado por bonecos e moradores revitalizando os últimos em sua determinação de não saírem de suas moradas. Imagens de antepassados que fizeram suas moradas ás margens da Rua do Porto e de índios paiaguás ou evuevi – “gente do rio” – se articulam ao presente, num momento de perigo, em que moradores se veem ameaçados por um projeto da prefeitura de “reconquista das margens do Rio Piracicaba” associado à restauração de um imaginário bandeirante. Chama atenção o modo como os resíduos da cidade e da sua história, coletados por um artesão numa carroça puxada por um cavalo chamado Lontra, ganham vida na forma dos bonecos.

Retomando os principais estudos críticos sobre mímesis, alguns juízos merecem destaque: 1) a mímesis produz uma ilusão acompanhada possivelmente por uma experiência de arrebatamento; 2) a mímesis pode suscitar uma forma de passividade diante do real; e 3) a mímesis pode inclusive expressar uma pulsão da morte, um desejo de dissolução do sujeito.

O conceito benjaminiano de mímesis mobilizado nesta apresentação abre outras perspectivas de análise. Embora os bonecos das margens do rio possam suscitar uma espécie de encantamento, ou reencantamento do mundo, chama atenção a lucidez do ato do artista e artesão. Num gesto se produz um desvio, da Casa do Povoador para as margens do rio de moradores, vivos e mortos, que do rio fizeram a sua morada. Imagens de antigos barranqueiros e de povos ameríndios se articulam ao presente, iluminando, num momento de perigo, as ilusões produzidas não pela arte dos bonecos, mas por ações de “reconquista”, ao estilo de bandeirantes redivivos, alimentadas por sonhos narcotizantes de progresso.Em lugar da passividade, observa-se um circuito mimético em que bonecos criados à semelhança com antepassados e moradores que já faleceram entram em relações com moradores que se tornam semelhantes aos bonecos. O gesto do Elias de povoar as margens do rio retorna com a força de um campo energizado por bonecos e barranqueiros, fortalecendo barranqueiros em sua luta por não saírem da Rua do Porto e das proximidades com o rio a que pertencem, e com qual recriam relações de dádiva.

Por fim, embora os bonecos suscitem imagens dos mortos, seja de antigos barranqueiros, seja de povos ameríndios, chama atenção o modo como essas imagens se associam a gestos de reconhecer ou mesmo recriar a vida do rio e dos moradores que vivem às suas margens. Chama atenção o modo como os resíduos da cidade e da sua história, coletados por Elias numa carroça puxada por um cavalo chamado Lontra, ganham vida na forma dos bonecos.

18h

Conferência

Georg Otte (UFMG) | Walter Benjamin e a explosão do continuum

29/08 | quinta-feira

11h

Antropofágica

Cláudia Rio Doce (UEL) | Revista de Antropofagia, Walter Benjamin e as imagens do presente

A Revista de Antropofagia (1928-1929), contemporânea às reflexões de Walter Benjamin sobre o Surrealismo, foi o principal veículo de divulgação do movimento antropófago, momento mais radical do modernismo brasileiro. Nela encontramos a tentativa de criar um novo pensamento, contestando a historiografia oficial calcada no discurso colonial e apresentando uma leitura contracolonial da história. Para tanto, a Revista se volta aos relatos de origem, contrapondo ao discurso colonial português e à visão do europeu sobre os povos que viviam no Brasil uma outra versão sobre ambos, elaborando, com o método da montagem, imagens dialéticas cujas sobreposições temporais se confundem, apontando para novas possibilidades de construção do relato. Se a Revista é literária, é principalmente um espaço a partir do qual se efetua uma nova leitura de mundo, estabelecendo uma nova sensibilidade. Na identificação com o antropófago, desaparecido no processo de colonização, a imagem literária passa a exercer um relevante papel político no panorama cultural latino americano. Ao apontar para a ficcionalidade dos relatos coloniais, para a construção portuguesa de uma imagem que foi transmitida e repetida inúmeras vezes como verdade, a Revista os desautoriza, trabalhando com a justaposição de realidade e ficção, do presente e do passado, da história e da literatura, num convívio plural e complexo, explorado em suas diversas nuances, promovendo a iluminação profana dos materiais. O trabalho buscará mostrar como essa prática da montagem, que possibilita uma leitura política do próprio presente, em sua relação com o passado, está presente na Revista já na sua primeira fase.

Cleiton França de Almeida (UFRJ) | A arte de contar histórias nos desfiles das escolas de samba - narrativa, história e tradição a partir de Walter Benjamin

Um desfile de escola de samba começa a ser concebido, nos moldes atuais, a partir de um enredo. Todos os elementos que constituem o cortejo - fantasias, alegorias, samba - são desdobramentos de um texto-mestre. Os responsáveis pela escrita da narrativa carnavalesca a ser defendida por uma agremiação precisam, em tese, tecer um conto que desperte o desejo da comunidade em (re)transmiti-lo em seu canto, seja no sambódromo ou fora dele. Com o objetivo de dialogar sobre questões referentes ao ato de contar histórias por meio dos desfiles das escolas de samba, esta comunicação analisa o enredo do GRES São Clemente 2017, “Onisuáquimalipanse”; o enredo do GRES Estação Primeira de Mangueira 2019, “História pra ninar gente grande”; e o enredo do GRESV Imperatriz Ludovicense 2018, “É para todos e para todas sempre será - O Paraíso da Diversidade”, um trabalho autoral executado no carnaval virtual em que pude experimentar, enquanto pesquisador, artista e escritor, o lugar de narrar um discurso por meio da linguagem carnavalesca. Para isso, são utilizados os escritos de Walter Benjamin sobre narrativa, história e tradição, em conversa com outros autores como Luiz Antônio Simas e Suely Rolnik. Investiga-se nos exemplos escolhidos estratégias de utilização do carnaval e do samba de enredo enquanto ferramentas potentes na transmissão de experiências e de sabedorias plurais, enquanto meios de contar histórias populares e/ou histórias invisibilizadas pelo sistema colonialista. Benjamin diz que o grande contador terá sempre suas raízes no povo, e em primeiro lugar nas camadas artesanais. No Brasil, essa figura desenvolveu-se principalmente devido às culturas ameríndias e afrodiaspóricas que mantiveram seus rituais vivos por via da oralidade. Dito isso, é possível tecer considerações sobre (1) os enredistas e os carnavalescos serem os grandes contadores brasileiros da atualidade e (2) a importância da manutenção das tradições carnavalescas ligadas ao samba para que esse exercício narrativo não caia em desuso.

Lilian Rebello Tufvesson (UFRJ) | O samba que a história não conta: um olhar benjaminiano sobre o desfile da Mangueira em 2019

Nas pequenas e imensas teses sobre o conceito de história escritas por Benjamin, a relação entre passado e futuro é considerada em termos dialéticos, como proposta para uma visão histórica que consiste em ler o que não está escrito e perceber o invisível que habita as imagens, para ultrapassar as limitações da narrativa estabelecida pelos vencedores. Enquanto esta narrativa é perpetuada oficialmente, as histórias dos vencidos precisam encontrar frestas para que os antepassados sejam ouvidos e suas trajetórias e lutas sejam rememoradas. As teses benjaminianas atravessaram fronteiras e oito décadas até ecoarem nos versos do samba que canta “Brasil, meu nego, deixa eu te contar a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar, na luta é que a gente se encontra”. Em 2019, o sambódromo foi um espaço de liberdade narrativa histórica na apresentação de Histórias para ninar gente grande. O carnavalesco Leandro Vieira havia anunciado o desfile como uma narrativa das “páginas ausentes” da história oficial. A Mangueira ondulou a bandeira brasileira com outras cores e as palavras “Índios, negros e pobres” substituindo “Ordem e progresso”. Trata-se de um desvio pelo passado em busca de outro futuro, através da percepção do índice que se oculta no passado e o impele à redenção, como propõe Benjamin na Tese II, ao evocar vozes que emudeceram e permanecem ainda perceptíveis nas vozes atuais, revelando um encontro entre as gerações. E cada geração possui o poder messiânico para redimir os infortúnios dos antigos vencidos pelas tiranias dos vencedores, conclui Michael Lowy. Os perigos que espreitam o presente têm conexão dialética com fatos ocultados pela narrativa historiográfica oficial, observa Reyes Mate inspirado na tese VI, em que Benjamin escreve que “o dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio do historiador convencido de que tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Benjamin escreveu as teses em 1939, sob a sombra crescente do fascismo, este inimigo que retorna e ameaça os mortos com uma segunda morte, “pela falsificação ou pelo esquecimento dos seus combates”, como afirma Mate. As circunstâncias atuais motivam a urgência de um olhar histórico aguçado, cujo arquétipo é definido por Benjamin como o historiador materialista capaz de perceber as imagens dialéticas entre passado e presente, em oposição ao historicismo tradicional que adiciona fatos no tempo homogêneo e vazio. A dialética benjaminiana percebe imagens subitamente cristalizadas em suas tensões históricas como vias de acesso ao avesso de estruturas narrativas tradicionais. Uma propícia definição para a fotografia como imagem dialética, cuja atualização o samba reivindica ao entoar que “tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado, [...] eu quero um Brasil que não está no retrato”. A comissão de frente traz um museu com retratos de figuras históricas oficiais que são substituídas pelos vencidos.

14h

Conferência

Patrick Pessoa (UFF) | Walter Benjamin como crítico de teatro

16h

Surrealismo, Modernismo

Francisco Camêlo (PUC-Rio) | Pequenos mundos de surrealistas periféricos

A apresentação investigará estratégias de miniaturização no campo das artes visuais, a partir de Walter Benjamin. Propõe-se um paralelo entre o escritor alemão e o artista norte-americano Joseph Cornell, considerando seus modos de produzir e pensar fincados na Escola de Frankfurt e no surrealismo, respectivamente. Nas obras de ambos, observa-se uma valorização daquilo considerado como rebotalho conjugada a uma dimensão infantil presente tanto no uso de objetos pequenos (miniaturas, brinquedos), quanto na técnica do recorte e da colagem. Aproveitando uma argumentação de Georges Didi-Huberman sobre os gestos da criança e do trapeiro, destaca-se a afinidade dessas figuras alegóricas com o colecionador e o fotógrafo surrealista, a partir de comentários críticos de Susan Sontag, a quem Joseph Cornell homenageou com colagens. Para ampliar a discussão, aproxima-se, brevemente, o procedimento de Walter Benjamin de colecionar citações com o modo de Susan Sontag elaborar ensaios e artigos, com base em uma entrada de seu diário. Nesse exercício, busca-se evidenciar a relação entre fotografia e técnicas de miniaturização. Como arremate, insinua-se um rápido contraponto entre as obras de Joseph Cornell e as do artista brasileiro Farnese de Andrade.

Patrick Gert Bange (UFRJ) | No coração do impossível: leitura cerrada de “A imagem de Proust”, de Walter Benjamin

Jeanne Marie Gagnebin, num capítulo chamado “O trabalho de rememoração de Penélope”, escreve: “O fato de Benjamin se remeter a essa metáfora [a do poeta como trapeiro ou sucateiro] explicaria também sua predileção pelo que ele chama de filologia, bem como sua desconfiança em relação a interpretações globalizantes, que partem de ou buscam uma totalidade (como tantas vezes seu amigo, e censor, Adorno dele exigiu) – pois a totalidade, mesmo quando segue um desígnio de denúncia crítica, tende a ofuscar a complexidade esquecida dos objetos [...]”. Pode-se interrogar um texto para se pensar pormenorizadamente esse modo benjaminiano de leitura, na medida em que se examina como ele se detém em um objeto específico, a saber, o romance Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, no ensaio “A imagem de Proust”. Para dar a ver esse modo de leitura, a proposta deste trabalho será resistir aos sobressaltos que o ensaio de Benjamin provoca, resistindo ao gesto de desdobrar, talvez muito rapidamente, algum fragmento do ensaio, passando a outros textos. Na dissertação de mestrado, que defendi em 2018 e que contém uma tradução do ensaio “À imagem de Proust”, esse gesto foi uma espécie de método de escrita, porque um dos objetivos centrais consistia na experiência de levar outras opções tradutórias às últimas consequências críticas. No entanto, outra experiência mostrou como esse modus operandi pode ser pouco viável no registro da fala: a experiência de sala de aula. Pode-se dizer dessa tarefa da seguinte forma: antes de desdobrar, resistir no interior da dobra. Assim, demorarei na maneira intrincada e inventiva com que Benjamin faz a crítica de Proust, neste ensaio que pode ser lido como uma coleção de imagens de pensamento tecidas e costuradas. Podem-se elencar algumas dessas imagens a serem lidas: o mimetismo do curioso, a eternidade bêbada, a linguagem cifrada dos salões, o Nilo da linguagem, a tapeçaria da existência rememorada e seu verso, os demônios da rememoração e a reflexão como tomada de fôlego, a asma como motor rítmico da escrita, a síntese inconstruível. Um contraponto que estará no horizonte dessa análise imanente será o ensaio “Posição do narrador no romance contemporâneo”, de Adorno. Entre as duas formas de leitura de Proust, Adorno com sua sobriedade impecável e Benjamin com seu tecido imagético e embriagado pelos fios da Recherche, procurarei redoar a forma do ensaio “A imagem de Proust”, buscando de-cifrar uma teoria da invenção, espraiada na obra de Proust e traduzida, como a uma mônada, ao ensaio de Benjamin, uma teoria que reconhece este lugar dessa obra literária: no coração do impossível.

Sergio Alexandre Novo Silva (UFRJ) | Do manifesto aos documentos: Walter Benjamin e os dissidentes do surrealismo

Em seu famoso texto publicado em 1929 na revista Literarische Welt, “O surrealismo, o último instantâneo da inteligência europeia”, o filósofo alemão Walter Benjamin propõe analisar os valores revolucionários do movimento surrealista expressos pelos escritos dos seus principais mobilizadores. Mais do que repousar no reconhecido ímpeto surrealista pela revolução dos paradigmas políticos, sociais e literários e seus re-encantamentos à maneira romântica, Benjamin identifica ao escrever o seu texto o momento de “transformação” [Transformationsphase] em que se encontra o surrealismo. Momento este em que justamente se coloca em questão o absolutismo e o acabamento desses valores revolucionários nos anos de 1929 e 1930, reclamados pelo segundo manifesto escrito por André Breton que, segundo a sua republicação de 1946, “carrega desagradáveis traços de nervosismo” que foram como última tentativa de restaurar e reformular as primeiras configurações do movimento. “A onda inspiradora de sonhos” [inspirierenden Traumwelle], como chama Benjamin, e a capacidade de integração do sono e da vigília que caracterizaram esta primeira fase do movimento estariam, a partir de então, postas em cheque pela “luta material e profana pelo poder e pela hegemonia”. É neste ponto de crítica e crise que o presente trabalho pretende se repousar a fim de discutir a constelação de ideias que o texto de Benjamin evoca. Pois muito mais do que definir o surrealismo positiva ou negativamente, ele analisa dialeticamente suas propostas políticas e literárias, sem deixar de levar em conta as suas consequências e as suas potências para os anos que o sucederam. Desse modo, não seria por acaso, e nisto o texto de Benjamin nos serve de prenúncio, diversos nomes de escritores dissidentes ou críticos do movimento surrealista constarem no acervo de textos de uma revista como a Documents, cujo início de atividade na França começa alguns meses após a publicação do ensaio de Benjamin. A revista, com seus escritos heterodoxos de literatos, etnólogos, historiadores da arte, cujos nomes mais resgatados nos últimos debates acadêmicos seriam os de Georges Bataille, Michel Leiris e Carl Einstein, marcaria também a necessidade de reconfiguração do movimento surrealista, a fim de questioná-lo ao propor novos valores artísticos para a segunda metade do século XX muito mais concentrados nas transgressões e alterações da forma imanentes ao próprio antropocentrismo e não mais provenientes de uma sur-realidade.

18h

Poema, poeta, poesia

Filipe Bitencourt Manzoni (UFF) | Retornos do autor na poesia contemporânea: entre aura e rastro

Nossa proposta busca analisar o tensionamento da barreira entre o literário e o biográfico recorrente na produção poética brasileira contemporânea a partir da noção benjaminiana de rastro. Nos interessa observar o investimento em fragmentos biográficos (isto que já foi tratado por termos como um retorno do autor, uma pós-autonomia ou um “otobiográfico”) a partir de dois cenários conceituais principais. Primeiramente nos interessa abordar a questão desde uma oposição entre duas “modalidades de percepção”, isto é, na medida em que, seguindo as proposições de Miriam Hansen, tanto o rastro quanto a aura esquematizariam uma dupla relação entre a proximidade e a distância. Nesse contexto, nos situaríamos em uma espécie de oposto da auratização da figura do autor, na medida em lidaríamos com o biográfico apenas na medida em que este se deixa ler pelos rastros textuais. Num segundo momento, nos interessa voltarmo-nos para a irrupção do rastro biográfico como um “efeito de sinceridade”, no sentido proposto por Boris Groys: um rompimento em uma cadeia simbólica de significação, ou ainda um gesto de apontar para a medialidade do meio que desnuda ao mesmo tempo em que reencobre o real enquanto limiar insignificável. Lidamos, nesse contexto, com uma figura do “autor” que não é mais que uma fantasmagoria da qual tomamos posse apenas liminarmente, através de rastros e vestígios de um contato.

Verena Seelaender da Costa (UERJ) | Linguagem dos objetos e os sons das coisas em Walter Benjamin (1915-1929)

Neste trabalho, será empreendida uma breve investigação da relação entre objetos e linguagem no pensamento de Walter Benjamin no período de tempo compreendido entre os ensaios de juventude sobre a linguagem (em especial, “Dois poemas de Friedrich Hölderlin” e “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem humana”) e as reflexões sobre o surrealismo do final da década de 1920. Com isso, irão se buscar estabelecer alguns elementos para uma possível desestabilização, através da noção de som, da diferença, afirmada reiteradamente por Benjamin em sua obra desse período, entre linguagem humana e linguagem das coisas. Para além da evidente impossibilidade de mapear o que significa exatamente uma “coisa” no pensamento de Benjamin, é interessante notar que a noção de coisa é, mesmo assim, central à obra benjaminiana. Quase que a totalidade dos escritos do autor é permeada por objetos materiais de todo tipo; de fato, dificilmente encontram-se refiexões nas quais eles não estejam de alguma forma presentes. Ele afirmou, em “Sobre a linguagem em geral”, que “é negado às coisas o puro princípio formal da linguagem que é o som”. No entanto, as coisas têm sons, inclusive mais variados e abrangentes do que os presentes nas línguas humanas. O que falta às coisas não é propriamente a capacidade de produzir ou articular sons, e sim a impossibilidade desses sons se manifestarem na forma de nomes. No artigo "Onirokitsch: glosa sobre o surrealismo", de 1925, Benjamin afirmou que, no sonho, as imagens das coisas caem no chão “com estrépito”. O estrépito, que refere-se a produção de sons indistintos que não comunicam propriamente nenhum sentido, não é, porém, igual à ausência de sentido característica da pureza dos nomes. Isso ocorre, segundo Benjamin, porque as essências espirituais dos objetos, apesar de terem expressão linguística imediata, estão em uma comunidade “mais ou menos” material entre si. Entretanto, a expressão “mais ou menos” marca certa indeterminação que coloca em dúvida até que medida é possível delimitar exatamente a diferença entre a essência imaterial-espiritual do ser humano e a essência material-espiritual das coisas. Assim, serão apresentados indícios que possam remeter não só a essa indeterminação, mas ao próprio som como meio no qual ela pode se dar.

Yasmin Nigri & Naiara Barrozo (PUC-Rio/UERJ) | Torso, verdade, história: Benjamin leitor de Rilke

Em uma fala proferida no 9º GT de Estética da Anpof, cujo registro está no artigo “A aplicabilidade estética benjaminiana no Brasil”, Carla Damião explora o vínculo entre o despertar da consciência história e a descontinuidade na forma de uma destruição criadora no pensamento de Benjamin. Ela afirma que “da destruição surgem igualmente os conceitos construtivos de ‘constelação’ e de ‘mosaico’, bem como de ruína, de torso e outros que supõem um indício da destruição e a permanência indicativa do que existiu e do que ainda vive sob a forma de negação”. Mesmo que a alusão não seja apontada diretamente, a referência ao torso leva-nos ao poema “Torso Arcaico de Apolo”, de Rilke. Nele, o eu lírico contempla uma estátua antiga da qual resta apenas um pedaço, que mais se assemelha à ruína que a uma estátua. Este resto que atravessou a antiguidade o encanta, não por aquilo que se vê, mas por aquilo que se pode vislumbrar nas sombras de um passado fulgurante em forma de torso. Rilke e Benjamin se conheceram em 1915, quando o filósofo vivia em Munique. No mesmo período, ele conheceu Gerschom Scholem, com quem estabeleceu uma relação estreita. Em livro que relata a história desta amizade, Scholem conta que em 1918, em uma conversa com Benjamin, ele afirmou que “Torso Arcaico de Apolo” era um poema extraordinário. Além disso, na página 132 de sua Teoria Estética, Adorno cita os versos “pois ali ponto não há/ que não te mire”, presentes no final do poema de Rilke, e nos lembra que estes eram muito admirados por Benjamin. Quando lançamos o olhar para sua obra, é possível observar que a figura do torso é retomada inúmeras vezes. Talvez o trecho mais emblemático seja esta passagem contida em “Rua de Mão Única” (1928): Torso. Somente quem soubesse considerar o próprio passado como fruto da coação e da necessidade seria capaz de fazê-lo, em cada presente, valioso ao máximo para si. Pois aquilo que alguém viveu é, no melhor dos casos, comparável à bela figura a qual, em transportes, foram quebrados todos os membros, e que agora nada mais oferece a não ser o bloco precioso a partir do qual ele tem que esculpir a imagem de seu futuro. Drummond, assim como Benjamin, foi um narrador de cidades, e como tal, um cronista que buscou traduzir poeticamente o espaço urbano para além das suas evidências. Benjamin e Drummond possuem afinidades essenciais que os aproximam. Ambos pertencem a uma geração que presenciou, na primeira metade do século XX, os acontecimentos catastróficos das duas guerras mundiais e vivenciou um tempo marcado por imagens de morte e de um passado em ruínas. O anjo da história benjaminiano possui certo parentesco com o poeta de bronze, o oráculo que observa a cidade sentado em um banco do Calçadão de Copacabana. Tentaremos estabelecer algumas relações entre os dois autores, conectando a iluminação profana benjaminiana à experiência poética de Drummond diante das ruínas do seu tempo. O torso se relaciona diretamente às concepções de passado e de história do filósofo. Aqui, aliás, vemos algo que parece ser desenvolvido anos depois, em “Sobre o conceito de história”. Lá, Benjamin irá dizer que o passado não faz parte de um tempo homogêneo e vazio, mas de um tempo saturado de cristais que contêm elementos que foram imobilizados constelativamente em determinado momento histórico, mas que podem ser mobilizados e reordenados pelo materialista histórico em qualquer instante do presente – ou, dizemos, como membros a partir dos quais é possível esculpir imagens do próprio passado. Em vista disso, o objetivo geral desta comunicação é o de rastrear as origens do pensamento crítico acerca da relação entre verdade e história em Benjamin na imagem do torso presente no poema de Rilke.

30/08 | sexta-feira

11h

Fotograma

Barbara Bergamaschi Novaes (PUC-Rio) | A Aura de Benjamin no Cinema de Arquivo Contemporâneo

Walter Benjamin ao falar de Atget e dos Surrealistas já identificava uma possível beleza naquilo no que está em vias de desaparecer: (2014, p. 189) a “O valor de culto não se entrega sem oferecer resistência. Antes ele habita uma última trincheira: o rosto humano (...) Nas antigas fotos, a Aura acena pela última vez na expressão fugaz de um rosto humano ”. Benjamin (1985, p.25) ainda afirma que os surrealistas foram "os primeiros a pressentir as forças revolucionárias que transparecem nos objetos antiquados", que "fazem explodir as forças atmosféricas ocultas nas coisas”. Susan Sontag, (1981) comentando o texto de Benjamin, afirma que uma fotografia de 1900 nos comove mais hoje em dia pelo fato de ser uma fotografia tirada em 1900 do que pelo seu tema. Para a autora, o tempo acaba colocando a maior parte das fotografias, até as mais amadorísticas, no nível da arte. "O próprio passado, à medida que as transformações históricas continuam a acelerar-se, tornou-se o mais surreal dos temas” (SONTAG, 1981, p.75). Didi-Huberman (2015, p.268) relembra que apesar de identificar o declínio da aura com o surgimento da reprodutibilidade técnica, Benjamin nunca proclamou seu derradeiro fim ou constatou seu desaparecimento. A noção de aura é difusa em toda a obra de Benjamin, sua colocação responde a uma experiência trans-histórica e dialética. Benjamin vai assinalar diversas maneiras pelas quais a Aura se faria notar, sua definição é ambígua e por vezes obscura. Para os exegetas de Benjamin, haveria uma mudança na conceituação de Aura a medida que o filósofo vai amadurecendo. Nesta análise tentaremos dar conta das diversas acepções de Aura e como elas se relacionam com o filme Light is Calling (2004) do cineasta americano Bill Morrison e com o filme Lyrical Nitrate (1991) do cineasta holandês Peter Delpeut. Ambos são "arqueológos" que resgatam antigas e esquecidas. Entretanto, mais do que se ater ao senso comum da arqueologia de historicizar as imagens, as localizando no tempo de maneira teológica e cronológica, os dois cineastas buscam explorar essas imagens enquanto forças poéticas, trabalhando suas potencialidades plásticas e sua materialidade como objeto de experiência artística. Mais do que colocar o conceito de Aura em uma relação antitética, como antinomia da mídia técnica, exploramos e apostamos na estranha e ambígua percepção de passado e futuro que este “aceno” da Aura propicia nos filmes de arquivo destes realizadores.

Eloiza Gurgel Pires (UERJ) | A experiência cinematográfica e o sujeito do olhar em Walter Benjamin

Este artigo apresenta uma refiexão a respeito da centralidade da experiência cinematográfica na modernidade sob a ótica benjaminiana. Walter Benjamin, filósofo e crítico literário alemão, pensou historicamente a evolução tecnológica e as novas formas de produção no início do século XX, relacionando a técnica às transformações do sensórium dos modos da percepção e da experiência social. Enquanto Freud publica com Breuer os Estudos sobre a Histeria, em 1895, os irmãos Lumière fazem as primeiras apresentações públicas de seu cinematógrafo. Na modernidade descobre-se o território pantanoso do inconsciente que, de acordo com Benjamin, irrompe nas telas cinematográficas na forma de um “inconsciente ótico”. Nesse limiar os entrelaçamentos do onírico com o real fazem emergir o sonho no âmago da realidade tida como vigília, desse modo, as imagens cinematográficas problematizam o sujeito do olhar. Nesse sentido, uma das funções sociais mais importantes atribuídas ao cinema, segundo Benjamin, é a de criar um equilíbrio entre o sujeito moderno e o aparelho. Não apenas no modo como o indivíduo se representa diante das câmeras, mas como ele mostra o mundo por meio desse aparelho. O filósofo rejeitou o pensamento segundo o qual haveria incompatibilidade entre a razão vigilante dos filósofos e a percepção onírica dos artistas. Assim, a constelação do sonho benjaminiana dialeticamente aproxima realidades. Em Benjamin valoriza-se a imagem como construção de um paradigma estético, e a imagem técnica como a possibilidade de pensar a realidade a partir do sonho. Nessa perspectiva, tentaremos discutir o pensamento de Benjamin mostrando as articulações e rupturas engendradas com as problematizações constituídas a partir das conexões existentes entre a experiência cinematográfica na modernidade, o sujeito do olhar e o que Benjamin chamou de “inconsciente ótico”.

Juliana Serôa da Motta Lugão (UFF) | Benjaminiana fotográfica: uma coleção inventada

Walter Benjamin figura entre os autores que constam em qualquer bibliografia de estudos históricos e teóricos sobre fotografia. Para listar as referências mais recorrentes, cito aqui os conhecidos “Pequena História da Fotografia” e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, mas também uma convoluta de Passagens dedicada à técnica e, menos comentada, a segunda “carta de Paris”. Com efeito, a fotografia perpassa a obra do autor, seja em referências diretas, como nos ensaios citados, mas também nas entrelinhas de outras reflexões, como a poética de Baudelaire, além de ser forte presença em sua escrita mais experimental. Surpreendentemente, a coleção do autor de imagens e livros sobre o tema conta com pouquíssimos itens, se rastrearmos as referências em seus escritos. Colecionador notório e declarado que era, Benjamin não poderia, defendo aqui, se limitar à tão poucas um repertório de referências aparentemente tão diminuto. Essa comunicação visa, assim, investigar, rastrear e apresentar modos de encontrar a coleção de imagens fotográficas, que fez do autor um teórico, crítico, historiador da fotografia – e quiçá um fotógrafo.

Lucyane De Moraes (UFMG) | A crítica da Modernidade a partir de Walter Benjamin

Tendo em vista o quadro estabelecido no âmbito das relações socioculturais na contemporaneidade, caracterizado pela excelência dos meios em detrimento dos fins, é necessário refietir sobre o quanto a velocidade com que mudanças culturais implementadas no âmbito da produção e do consumo, via sofisticação tecnológica, tem dificultado a compreensão das relações entre arte e sociedade. Conforme Benjamin, “as resistências que a Modernidade oferece ao ímpeto produtivo natural do homem são desproporcionais às suas forças”. E é, por exemplo, que tal noção de Modernidade “desproporcional às forças humanas” se torna objeto de valor inestimável em um mundo metamorfoseado em indústria, constituída por um estado de amnésia permanente, implicitamente não histórico e sem transcendência, eivado de ideal estéril de novidade. Em sentido crítico, vale lembrar que o autor berlinense aponta para vivência do choque assinalada pelas transformações do mundo moderno – por meio do reconhecimento da catástrofe, da imersão no abismo das massas e de seu próprio declínio –, determinando que o indivíduo passe a existir por meio de uma rêverie fantasmagórica contraposta ao despertar da consciência coletiva. Analisando o pressuposto benjaminiano sobre um outro tipo de percepção estética estabelecida e determinada pelos recursos de reprodutibilidade técnica e tendo em vista a tendência crescente de processos ligados à experiência da interatividade virtual na atualidade, investiga-se em que nível as novas tecnologias digitais inauguram espaços alternativos para o desenvolvimento de relações interativas que simulam aspectos da realidade em sentidos diversos daqueles estabelecidos no âmbito do real mesmo, criando supostamente outras formas de subjetividade que se aplicam à medida aos procedimentos industriais ligados a cultura de massas, legitimadas por uma espécie de ideal psicológico cibernético. Sem ignorar a importância dos meios tecnológicos para a vida cotidiana, no que respeita ao fazer artístico, procura-se entender como os novos media abrem espaço para uma refiexão prospectiva acerca da possibilidade de se incorporar os avanços tecnológicos ao processo de produção de uma arte de caráter inovador, uma vez que compreende-se ser necessário eliminar do conceito estético do novo os procedimentos industriais da Modernidade mercadológica, daquilo que é imposto mais uma vez e que domina cada vez mais a produção material da sociedade, compreendendo tais procedimentos em si como um princípio contrário ao novo. Para avaliar tal proposição, recorre-se ao conceito de fetichismo da mercadoria, cunhado por Marx, endossando a tese de que no mundo moderno do capital, o mesmo – continuado em processo de repetição – embora se apresente como novidade, revela uma experiência esvaziada de conteúdo, determinando uma realidade fictícia. Assim, criada com bases na ‘satisfação’ do desejo do consumidor, a dinâmica da produção da mercadoria cultural de fabricar diferentes produtos dão a sensação de que o indivíduo esteja ilusoriamente em contato com algo novo. E, assim, como identificado por Benjamin, o novo que aparece é tão-somente o mesmo: o novo sempre-igual (Immergleichen).

14h30

Conferência

Leila Danziger (UERJ) | Biblioteca-imagem, Biblioteca-monumento

16h

30's

Isabela Carolina Rossi (Unicamp) | A vez e a hora das crianças: uma pedagogia da experimentação a partir de Asja Lacis

“todo desempenho infantil orienta-se não pela “eternidade” dos produtos, mas sim pelo “instante” do gesto. Enquanto arte efêmera, o teatro é arte infantil” -- escreve Walter Benjamin no texto de 'Programa de um teatro infantil proletário'. Tomando como ponto de partida esse recorte e a leitura do livro “Profissão: Revolucionária”, esse trabalho apresenta um fragmento da pesquisa em processo acerca da contribuição da militante, atriz e diretora de teatro letã Asja Lacis, para uma possível pedagogia do teatro, no contexto de experimentação de linguagens com alunos da rede pública da cidade de São Paulo. Em seu livro, ao narrar as experiências com jogos de coro e de encenação junto a crianças e trabalhadores na Alemanha da década de 1920-30, Asja realiza uma espécie de ensaio memorialístico e organizador de suas práticas, onde o conceito de "Spielraum” (espaço de jogo) presente nas constelações de Benjamin, pode ser lido como estruturante de uma pedagogia onde o erro, a brincadeira e a imaginação se constelam de modo que novas ordenações de espaço e tempo possam ser intuidas, imaginadas, construidas. Ao nos movermos por tais materiais, essa comunicação, quase relato de uma trajetória, se propõe assim a imaginar em que medida tais exercícios de aprendizagem fazem emergir, no continuum da história (ou ao menos nas salas de ensaio e nas salas de aula), a prática cotidiana de uma estética da tatibilidade, de uma pedagogia da experimentação.

Rafael Barros Vieira (UFF) | O conceito de Estado Totalitário nas análises de Walter Benjamin sobre Charles Baudelaire

O presente trabalho tem como objetivo analisar o percurso pelo qual Benjamin elabora o conceito de Estado Totalitário, que aparece nos escritos sobre Baudelaire pelo menos quatro vezes. O conceito aparece pela primeira vez durante a discussão sobre a relação entre o flâneur e a multidão na literatura francesa do século XIX (principalmente em Baudelaire e Hugo). Ao invés de opor o flâneur, como símbolo do indivíduo desgarrado como faz Baudelaire, e a multidão, objeto da contemplação e idealização de Hugo como ente dotado de virtudes sobre-humanas, Benjamin problematiza ambos. Em “A Paris do Segundo Império em Baudelaire”, Benjamin discutirá como a forma-mercadoria, elemento organizador do projeto de cidade executado por Haussmann, incide tanto sobre o flâneur em seus trajetos pela cidade como sobre a multidão transformada em massa. Os Estados Totalitários teriam como uma de suas características essenciais promover a racionalização dirigida de uma economia mercantil, dando curso a um certo instinto gregário e comportamento automático característico da conversão do indivíduo em massa. Segundo Benjamin, mesmo o desgarrado flâneur não estaria isento dessas relações. Para além da reconstrução de diversos aspectos da Paris do Segundo Império, esse retorno ao passado está relacionado aos problemas do presente de Benjamin. Os textos sobre a capital do século XIX em geral são atravessados de referências sobre a Alemanha de seu tempo. Além de debater a elaboração do conceito de Estado totalitário, pretendo também indicar as aproximações entre o mesmo e o processo de compreensão crítica do fascismo alemão proposto por Benjamin.

Tomaz Amorim Fernandes Izabel (USP) | Walter Benjamin e Oswald de Andrade: crítica modernista da modernidade

Pretendo explorar afinidades eletivas entre Walter Benjamin e Oswald de Andrade principalmente a partir do seu uso de formas e procedimentos de vanguarda em crítica a certos pressupostos e práticas modernas. Não se trata de comparar diretamente as obras, mas partir do texto de Oswald chamado “A crise da filosofia messiânica” levando em consideração certas preocupações e formulações semelhantes em ensaios de Benjamin - como o recurso aos estudos sobre o Matriarcado (como apresentado por J. J. Bachofen), a crítica da burguesia a partir da relação complexa de ambos com o Comunismo, a questão racial e as filosofias da história não-modernas a partir do pensamento indígena e do pensamento judaico, suas concepções quase opostas de “messianismo”, a ambivalência em relação aos desenvolvimentos da técnica, além da forma instigante com que ambos formularam através das inovações estéticas das vanguardas modernistas tanto críticas à Modernidade, quanto a formas burguesas conservadoras. O mais interessante nestas afinidades temáticas e formais será perceber as diferenças nos modos de tratamento. Se há um gesto semelhante de perspectiva crítica a certos aspectos da Modernidade, ele parte de posições distintas, de Benjamin inegavelmente ainda no seu centro e de Oswald, em sua periferia.

Alessandra Affortunati Martins Parente (USP) | O messianismo do Moisés de Freud: um ajuste de contas a partir de Walter Benjamin

Compreendida como utopia fora das linhas já escritas pela história e paradoxalmente apenas possível graças a elas em seu caráter absolutamente dissolvido, a intensidade messiânica, diz Walter Benjamin, caminha em sentido oposto ao da dynamis profana. Em seu “Fragmento teológico-político”, o filósofo considera que a busca da felicidade pela humanidade livre não se cruza com a direção messiânica; todavia, prossegue, do mesmo modo como uma força acionada num determinado sentido pode levar a outra num sentido diametralmente oposto, assim também a ordem profana do profano é capaz de suscitar a vinda do reino messiânico. Em suas palavras: “o profano não é, assim, categoria de tal reino [messiânico], mas é uma categoria – e das mais decisivas – da mais imperceptível forma do aproximar desse reino”. Essa passagem será fundamental para o trabalho que pretendo apresentar. Nele, discutirei como a figura bíblica de Moisés suscitou a vinda do reino messiânico ao profanar as divindades da dinastia faraônica e abrir caminho para a libertação dos escravos israelitas. Entretanto, a dissolução histórica não pode ocorrer pela tradição mosaica, como aponta alusivamente Walter Benjamin em duas passagens bastante vagas de sua obra. Daí que o intuito seja aqui o de traçar um diagnóstico do fracasso mosaico a partir de O homem Moisés e a religião monoteísta de Freud. Ali pode-se extrair o húmus material que foi capaz de acionar o reino messiânico e identificar as razões pelas quais, apesar da dimensão claramente revolucionária ali presente, a redenção e a dissolução da história sucumbiram. Desenhar esse viés exigirá ainda a análise de uma pequena alteração feita por Benjamin (Löwy, 2012) num dos fragmentos de Rua de mão única, após sua guinada ao marxismo. Em 1928, Benjamin escreve em seu “Panorama Imperial”: “[...] nunca ninguém poderá fazer as pazes com a pobreza quando esta se abate como sombra gigantesca sobre o seu povo e a sua casa. Nessa altura, o que se tem a fazer é manter os sentidos despertos para toda a humilhação que sobre elas recaia, e controlá-los até que seu sofrimento deixe de escorregar pelo plano inclinado da amargura, para enveredar pelo trilho ascendente da revolta”. Como mostra Michael Löwy, o fragmento havia sido escrito em 1923 e no lugar do termo amargura havia o termo ódio, assim como ao invés de revolta lia-se prece. Só a psicanálise será capaz de desdobrar os meandros latentes de tal alteração de afetos que sinalizava os meios subjetivos pelos quais Benjamin pensava antes os caminhos para a intensidade messiânica e passou estrategicamente a pensá-los depois – do ódio à amargura e da prece à revolta. Veremos que, embora a psicanálise seja capaz de fornecer análises para pensar os substratos afetivos impulsionadores da revolução, Freud ainda se mantém preso à legitimidade dos velhos termos de Benjamin para pensar uma estrutura social – o ódio do pai e sua morte e a culpa que leva à prece dirigida ao totem que recupera a velha imagem paterna. Entretanto, a história de um Moisés egípcio poderia muito bem introduzir uma nova estrutura social na qual a amargura ganha ímpetos de vida pela revolta e pela afirmação do desejo de liberdade

18h

Reprodutibilidade agora

Mayara M. Peixoto, Sammy H. S. Itaborahy (UFJF) | Mídias sociais à luz da teoria da cultura de massa: conversações

O surgimento das tecnologias de reprodução em massa no início do século XX suscitou nos pensadores de então uma série de questionamentos a respeito do que se tornaria não só a obra de arte, mas toda uma produção de conteúdo amplamente replicável. Compreender fenômenos como a Internet, bem como seus efeitos na vida cotidiana dos indivíduos de forma individual e coletiva, demanda que voltemos aos inícios dessa forma tão singular de organização de conteúdo. Iniciaremos a discussão da pesquisa que ora se apresenta com os conceitos do já clássico ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (BENJAMIN, 2012), de forma a elucidar inicialmente as transformações político-sociais que advêm da produção massiva de conteúdo – bem como o poderio político que detêm aqueles que controlam a distribuição da informação. A partir dessa base, nos encaminharemos para uma análise de uma mídia social específica – o Instagram –, a fim de discutir seus efeitos: padrões estéticos impossíveis, estímulos para consumo compulsivo, notícias falsas, mistura de vida real com a virtual e criação de um abismo nas relações sociais. Nos auxiliarão nessa análise as elaborações de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, registradas no livro Eichmann em Jerusalém (1999). Os dois intelectuais, Benjamin e Arendt, compartilharam o sombrio contexto do nazismo alemão; a leitura de sua obra pode nos permitir reconhecer de que formas ainda nos encontramos sob a égide de um fascismo.

Thiago Spíndola Motta Fernandes (UFRJ) | A obra de arte na era de sua reprodutibilidade digital

Na década de 1960, o problema do registro de obras de arte ganhou novas dobras com a emergência da performance e da arte conceitual, devido a sua proposta de desmaterialização da arte e a consequente transformação do trabalho artístico em ideia ou ação, em detrimento do objeto. Nesse contexto, entrou em discussão o estatuto dos registros e resíduos desses trabalhos efêmeros, perecíveis, processuais, que passaram a compor exposições e acervos de museus. No mesmo momento, as mídias de massa se tornaram importantes armas para artistas que passaram a desenvolver táticas de apropriação e subversão dos meios de comunicação (práticas que na década de 1990 seriam teorizadas e receberiam o nome de “mídia tática”) para ampliar o valor de exposição de seus trabalhos artísticos efêmeros, fazendo circular suas imagens em jornais e na televisão. A presente comunicação analisa algumas dessas táticas adotadas por artistas visuais em diferentes momentos históricos e identica mudanças signicativas na circulação de imagens de trabalhos artísticos efêmeros diante das transformações recentes na comunicação, ocasionadas pela popularização das mídias sociais. Nesse quadro, são destacadas as ações do coletivo carioca Tupinambá Lambido, realizadas em espaços públicos do Rio de Janeiro desde 2017, e as táticas adotadas pelo grupo para ampliar o valor de exposição de sua produção utilizando as mídias sociais. Esta comunicação apresenta um recorte da dissertação de mestrado do autor, intitulada “Entre a (auto)destruição e a sobrevivência da imagem: intervenção urbana, mídia tática e a performatividade do registro do efêmero”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Walter Benjamin é um dos principais teóricos que embasam a discussão, sobretudo o texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”.

+ Informações

Mapa da Faculdade de Letras e arredores

Informações sobre transportes

Ônibus passam regularmente até 21:30. Após esse horário os intervalos tornam-se irregulares. Os últimos ônibus passam aproximadamente às 22:20 (ônibus que faz integração com o metrô). Há um ponto de táxi diante da Faculdade, após 18h é necessário requisitar táxi na portaria. Mais informações sobre transporte na paǵina da Faculdade de Letras. Há linhas de ônibus da própria UFRJ que fazem integração entre a Ilha do Fundão e várias partes da cidade. Horários e pontos de saída podem ser conferidos aqui. O tempo de viagem a partir do Centro/Zona Sul do Rio é de cerca de 1h de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Oeste é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 45 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Norte do Rio é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush).

Sobre certificados aos ouvintes

Serão concedidos certificados de participação aos ouvintes equivalentes a 1 hora/sessão ou conferência, autenticado por lista de presença. Será concedido um certificado de participação no encontro equivalente a 12 horas para ouvintes com presença em 9 sessões.