Benjaminiana 2018

Entre os dias 10 e 12 de setembro de 2018 ocorrerá na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro a 2a. Benjaminiana, evento dedicado à obra de Walter Benjamin, visando reunir pesquisadores dos mais diversos campos que trabalham com ou circulam ao redor da obra de Walter Benjamin, permitindo trocas a partir de uma reflexão específica e concentrada no corpus benjaminiano. A Jornada é promovida pelo PPG em Ciência da Literatura da UFRJ e pelo Projeto Fortuna — Laboratório de Edição do PPG. Pesquisadores estão convidados a enviar resumos, até 22 de julho, através do formulário na página do evento ou pelo e-mail walterbenjamin.fortuna@gmail.com. Pedimos resumos com o máximo de 500 palavras para comunicações de até 30 minutos. Incluir também cinco palavras-chave. Pode-se incluir bibliografia após o resumo, caso se deseje. No caso de envio por e-mail, indicar no campo ‘assunto’ da mensagem ‘resumo benjaminiana 2018’, incluindo o nome do autor, título do trabalho e insituição a que pertence além das palavras-cheave. Inscrições para ouvintes serão aceitas até o dia do evento. Haverá seleção dos trabalhos por um comitê científico. Este ano teremos conferências de Márcio Seligman-Silva (UNICAMP), Rosana Kohl Bines (Puc-Rio) e Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ). Dúvidas remeter a walterbenjamin.fortuna@gmail.com

Comitê Organizador


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Comitê Científico:

Alessandra Martins Parente (USP)
Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Juliana Lugão (UFF)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

Benjaminiana 2018

II Encontro de pesquisadores de Walter Benjamin

10, 11 e 12 de setembro

Programação

Faculdade de Letras da UFRJ ― Auditório E3

Av. Horácio Macedo, 2151 ― Cidade Universitária, Rio de Janeiro

Com conferências de Márcio Seligman-Silva (10/09), Rosana Kohl Bines (11/09) e Marcelo Jacques de Moraes (12/09)

Comitê Organizador


Francisco Thiago Camêlo (PUC-Rio)
Leonardo Alves de Lima (UFRJ)
Patrick Gert Bange (UFRJ)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Comitê Científico:

Alessandra Martins Parente (USP)
Danielle Corpas (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Juliana Lugão (UFF)
Patricia Lavelle (PUC-Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)
Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

10/09 | segunda-feira

9h

Experiência, conhecimento

Idealismo absoluto, Walter Benjamin e a filosofia apontada para o mundo comum

Filipe Völz :: UFRJ

Na metade do século XIX a filosofia passa por uma revolução. Só assim podemos explicar a substancial diferença entre a filosofia de Nietzsche, Kierkegaard, Engels e Marx e a história da filosofia anterior. O estilo da escrita filósofica muda, como a comparação entre um texto de Nietzsche e um de Kant demonstraria. Isto está vinculado a mudança de objeto da filosofia, que agora passa a falar sobre o mundo "concreto" e o "senso comum": sobre a moda, os hábitos cotidianos, as classes sociais, enfim, sobre uma gama de tópicos que não estavam vinculados ao discurso filosófico. A hipótese que eu gostaria de levantar é a de que o idealismo alemão, em especial Hegel, radicalizando os princípios da revolução copernicana de Kant, transfigurou a clássica relação entre essência e aparência, abrindo para a filosofia subsequente (mais do que para o seu próprio sistema) o campo das coisas comuns, do cotidiano, da contingência. Através de uma análise do Prólogo de Origem do drama trágico alemão, de Walter Benjamin, com foco na relação que ele estabelece entre Verdade e Aparência, quero entender como Benjamin justifica esse interesse novo da filosofia pelo mundo comum, pela sensibilidade, pela fragmentação e contingência. Para esclarecer a questão filosófica que possibilita essa transfiguração da filosofia, vou relacionar o Prólogo com algumas questões em Hegel, sobretudo através do livro "Hegel", de François Châtelet, que.chama o filósofo de "assassino da filosofia", no sentido de possibilitar esta revolução metodológica e temática. Através da noção de ideia e de apresentação (dois princípios da epistemologia benjaminiana, diretamente relacionados à aparência e à imagem) presentes no Prólogo, quero entender como Benjamin amplifica os princípios do idealismo absoluto de Hegel, a partir daí firmando sua diferença com Hegel, ao optar pela forma do tratado no lugar do sistema como modo mais genuíno de apresentação da verdade da aparência. Isto é especialmente interessante em Benjamin, talvez o maior representante dessa filosofia do mundo comum, por seu vívido interesse em apontar a filosofia para temas como a moda, as drogas, os brinquedos de crianças, o cinema, a prostituição e a política no cotidiano.

Limites da lógica, lógica da limitação – crítica epistemológica de Walter Benjamin

Diego Rogério Ramos :: USP

Trata-se de apresentar aspectos da crítica à lógica elaborada por Walter Benjamin em alguns textos de juventude (1913-1925). Partindo do texto “Über den Kreter” (1920), no qual Benjamin reflete sobre o paradoxo do cretense, argumentaremos que, em benefício da preservação da própria lógica enquanto dimensão fundamental do conhecimento, seria necessário reconhecer seus limites. Esses limites são mais claramente compreendidos ao notarmos sua precedência na formulação da noção moderna de subjetividade. Nesses termos, a crítica à lógica pode se realizar pela exposição de sua dimensão alienante. Seguindo o texto “Sokrates” (1916), no qual Benjamin caracteriza o discurso e a figura de Sócrates, argumentaremos que a submissão do mundo às expectativas da lógica reduz os objetos e possibilidades do conhecimento, bem como a experiência humana, fazendo dela algo não humano (Nicht-Menschlicher). Nesse texto, Benjamin reflete sobre a “criação espiritual” a partir do erotismo e dos arquétipos masculino e feminino (os quais não são concebidos como formas biológicas ou sociais essenciais). A partir desses termos, Benjamin pôde afirmar que a maior barbárie cometida por Sócrates foi a maneira como ele conformava o meio erótico dos círculos platônicos, não mediante a beleza ou a arte, mas pela vontade, forçando Eros a uma posição de servo. Desse sacrilégio resultaria a castração de si (Kastratentum seiner Person), que seria emblematicamente representada pela forma de conhecimento desenvolvida por Sócrates. Isso quer dizer que aquela vontade operaria o logos, o qual, inserido pela maiêutica socrática, forçaria os conteúdos eidéticos a uma apresentação lógica, determinada por oposições e dualidades hierárquicas. Assim estabelecido, o logos atuaria segundo os princípios de identidade, unidade e abstração, os quais suprimiriam ou deturpariam a dimensão sensual e material dos objetos. Sócrates seria o protótipo mítico de uma estrutura de pensamento e apreensão do mundo especificamente masculina. Diversamente, pode-se pensar uma disposição feminina, cuja origem mítica poderia remontar a Safo. Essa figura é especialmente tematizada por Benjamin em dois aforismos de “Metaphysik der Jugend”, nos quais ele reflete sobre a maneira “como Safo e suas amigas falavam”. O que Benjamin apresenta é uma específica relação com a linguagem, uma que não reduz a expressão a simples comunicação representativa nem legitima e classifica o que é expresso por critérios hierárquicos binários. Nesse momento, somos capazes de evidenciar aspectos de uma filosofia da linguagem e uma concepção de imagem fundamentais para a epistemologia benjaminiana. Com isso, podemos concluir como a crítica epistemológica desenvolvida no texto “Über den Kreter”, cujo tom kantiano é evidenciado pela disposição de encontrar os limites da legitimidade do conhecimento, deve ser percebida também como uma crítica cultural pungente, tão penetrante na estrutura existencial do homem quanto a crítica à disposição castradora do discurso socrático. A crítica epistemológica benjaminiana se estenderia, seguindo nosso argumento, além dos aspectos essenciais para a concepção moderna de conhecimento baseado na lógica, alcançando os elementos mitificados da existência espiritual do homem.

Experiência, linguagem e suprassensível: apontamentos sobre Benjamin e Kant a partir de Werner Hamacher

Verena Seelaender da Costa :: UERJ

Hamacher propõe, no artigo “Linguagens intensivas” (2001), uma aproximação do tema da linguagem em Benjamin através do manifesto “Sobre o programa da filosofia vindoura” (1918). Nesse texto, Benjamin busca estabelecer uma crítica à filosofia kantiana por esta fundamentar os conceitos de cognição e experiência exclusivamente a partir de um referencial lógico-mecanicista. Benjamin acreditava que a filosofia kantiana estava demasiadamente contaminada pelo paradigma cientificista do esclarecimento e mais de uma vez mencionou que a fraqueza fundamental do projeto de Kant era exclusão, em seu conceito de experiência, da dimensão para ele mais importante: a dimensão linguística (Ferber, 2014; Muricy, 1999). Hamacher inicia seu artigo colocando que a cognição [Erkenntnis] se constitui não como condição do objeto capaz de ser conhecido ou do sujeito capaz de conhecer, mas como de fato a própria relação ou meio [Medium] no qual essa condição se produz (Hamacher, 2012). Esse caráter medial da cognição se dá pois a cognizabilidade [Erkenntbarkeit] não está nem, por um lado, submetida a estrutura transcendental do sujeito - e, por isso, completamente independente do objeto -, nem, por outro lado, determinada por uma propriedade fenomênica dos objetos de poderem ser conhecidos - propriedade esta que encontraria-se sempre na antecipação de sua atualização através de um sujeito capaz de conhecer. A cognizabilidade é a relação entre objeto e sujeito que não se encontra privilegiadamente em nenhum dos dois; mais do que isso, ela é exatamente aquilo que é comum entre ambos, é o “meio que os possibilita ser o que são, o meio no qual eles podem se tocar, se afetar e se comunicar [mitteilen] um com o outro” (Hamacher, 2001, p. 174). Nesta comunicação, buscarei demonstrar como, do ponto de vista da teoria de Hamacher, a crítica benjaminiana reformula, por sua vez, a divisão fundamental para Kant entre natureza e liberdade a partir da introdução da linguagem no sistema kantiano.

11h

Da crise

Walter Benjamin e Lina Bo Bardi: pensadores da ruína

Luiza Amaral :: PUC-Rio

A obra de Lina Bo Bardi é multifacetada não só pela quantidade de campos profissionais de atuação como o design, a arquitetura, a cenografia, museografia e a restauração, mas também pela quantidade de questões e conceitos abordados em seus diversos ensaios. Na Europa, a arquiteta italiana, em meio a impossibilidade do fazer arquitetônico em virtude da guerra, toma a escrita como um outro caminho para o fazer arquitetônico. A partir da análise dos ensaios escritos por ela no período de 1943 a 1991, passou-se a análise da documentação visual como plantas baixas e desenhos da arquiteta, realizados desde sua chegada no Brasil em 1946. Feito isso, foi possível observar a presença dos conceitos de experiência e pobreza presentes ao longo da obra da arquiteta, tanto nos textos quanto nos outros campos de atuação. Tratando-se dos conceitos de pobreza e experiência, foi estabelecido um tensionamento entre a leitura de Lina Bo Bardi e a de Walter Benjamin que também trabalhou intensamente com esse tema ao longo de sua obra. Para esse tensionamento foram usados os seguintes textos de Benjamin: “Erfahrung (Experiência,1913), “ Experiência e pobreza”(1933), “ O narrador”(1936), “ Teses sobre o conceito de história”(1940). O encontro entre Walter Benjamin e Lina Bo Bardi não se concretizou. O filósofo não teve contato com as obras de Bo Bardi e ela, por sua vez, não foi leitora de seus ensaios. O contato entre ambos, no entanto, é teoricamente lateral devido à partilha das experiências de um mesmo momento europeu de guerra que os levou a observar a pobreza da experiência em virtude dos traumas e dos silenciamentos causados pelas destruições e pelos conflitos, mas também por partilharem visões similares quanto a crítica da modernidade, as relações de produção e a mudança das formas de moradia. No plano intelectual, a interface entre eles é mais efetiva na medida em que partilham leituras de teóricos como Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Bertold Brecht (1898-1956), e, além disso, a atuação de Lina Bo Bardi em grupos de esquerda tanto na Itália, quanto no Brasil, faz com que a arquiteta estivesse familiarizada com os textos de Theodor Adorno (1903-1969), o que pode aproximá-la indiretamente das proposições de Benjamin. Dessa forma, não é o objetivo aqui estabelecer uma relação concreta entre ambos, mas sim tensioná-los a fim mostrar como a percepção da pobreza e da experiência de Walter Benjamin transparecem no concreto das arquiteturas e textos de Lina Bo Bardi.

Diário de Moscou: Num Espelho de Benjamin da Nossa Crise Diária

Ricardo José de Azevedo Marinho & Renata Bastos da Silva :: UNIGRANRIO

Depois da ocasião do centésimo aniversário da Revolução Russa e da aproximação do octogésimo da morte de Benjamin, o presente trabalho se propõe a contribuir para a contextualização histórica da personalidade e do pensamento desse pensador, seguindo uma abordagem que se consolidou sensivelmente nos estudos mais recentes. O tema da relação de Benjamin com Lenin e o bolchevismo ainda não foi debatido com o rigor que o assunto requer, mas hoje, um quarto de século depois do fim da experiência soviética na Rússia e na Europa do Leste, devemos nos libertar de limitações definidoras e ideológicas. Um modo de fazê-lo é reconstruir os vários fios que ligam o percurso de Benjamin antes da Revolução Russa e depois, como uma experiência fundadora e formadora. Esses fios são entrelaçados com toda a sua biografia de 1917 em diante (e por isso o Diário de Moscou ser um texto importantíssimo), a tal ponto que não é fácil isolar o próprio tema e fornecer pistas interpretativas capazes de unir comentários, percepções, análises, estratégias e reflexões. Mas é necessário fazê-lo se quisermos compreender melhor o nexo entre a ação política e o pensamento. Pretende-se sugerir que justamente partindo-se do tema da Revolução Russa podemos ver com mais precisão a formação das principais categorias do pensamento político de Benjamin. Assim, Diário de Moscou representa uma possibilidade de se abordar a crise brasileira contemporânea partindo de episódios que afetaram de modo peculiar à imagem da esquerda brasileira. Para tanto, a obra de Benjamin permite esboçar um quadro suficientemente amplo e diversificado pelas temáticas do seu Diário de Moscou capazes de abranger os vários perfis da crise que nos acompanha.

14h

Conferência

Reprodução técnica e a crise de renovação da humanidade

Márcio Seligman-Silva :: UNICAMP

Parto de uma análise dessa tese benjaminiana: “A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo que nela é originalmente transmissível, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este testemunho está fundado sobre a duração material, no caso da reprodução, onde esta última tornou-se inacessível ao homem, também o primeiro – o testemunho histórico da coisa – torna-se instável.” (Benjamin, Walter, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, organização e apresentação M. Seligmann-Silva; trad. Gabriel Valado Silva, Porto Alegre: L&PM, 2013, p.55) A era da reprodutibilidade nos joga abruptamente no tempo após a era do testemunho histórico. Talvez seja por conta desse mesmo fato que, podemos pensar hoje, tanto se falou e fala no testemunho. O século XX, como um século de catástrofes, guerras e genocídios, exigiu o testemunho, mas também revelou seus limites, assim como levou a renovação da humanidade a um momento paradoxal. Nas últimas duas décadas é a fotografia analógica (uma técnica de impressão) que tem servido como um dos modelos do testemunho histórico: pois de um modo geral é certo que a era digital, com mais razão ainda do que a da fotografia e do filme analógicos, bloqueia ainda mais a relação com o evento inscrito na escrita eletrônica dos pixels. Qual a relação entre essa técnica analógica e uma visão da vida como sagrada? Como reprodução técnica,crise do testemunho e renovação da humanidade se determinam, esse será o fio condutor de nossa apresentação.

16h

Em derredor

Micrografias: Benjamin e Walser

Francisco Camêlo :: PUC-Rio

Propõe-se uma reflexão cruzada entre o autor suíço Robert Walser e o escritor alemão Walter Benjamin, a partir de suas caligrafias diminutas. Foi Gershom Scholem quem disse do interesse de Benjamin pelo pequeno (miniaturas, brinquedos e livros infantis), interesse que se manifestava também na extrema pequenez de sua letra e no desejo de chegar a cem linhas numa folha de carta de tamanho convencional, feito conseguido por Walser, que escrevia microtextos com uma grafia minúscula e sobre quem Benjamin redigiu um curtíssimo ensaio em 1929. Se, por um lado, a letra miniaturizada de Benjamin e de Walser aponta para um gesto de escrita que parece cifrar o conteúdo do texto, por outro lado, a micrografia de ambos diz do interesse mútuo de se esconder nas malhas textuais através de um apequenamento do eu pela escrita, que deriva de uma recusa à monumentalidade do sujeito diante da linguagem e das grandes narrativas face à pobreza de experiências. Pode-se, ainda, aproximar o interesse de Benjamin e de Walser pela miniaturização da letra de uma estreita vinculação com o universo da infância, seja pelos personagens crianças e fracassados, que tanto fascinaram Franz Kafka pela obra do escritor suíço; seja pelo protagonismo que a infância como Denkbild assume na obra do autor alemão. A partir dessas afinidades eletivas, procura-se mostrar a miniaturização como procedimento de escrita de Benjamin e de Walser através de paralelos entre suas micrografias e de comentários analítico-especulativos de ensaios de Benjamin e de contos de Walser.

Méthode est écart, ou como meditar com Benjamin e Bataille

Sergio Alexandre Novo Silva :: UFRJ

Tanto Walter Benjamin quanto Georges Bataille viveram o período das duas Guerras Mundiais, enfrentando as suas consequências sociais e históricas imediatamente impostas àqueles indivíduos que se preocupavam em pensar a literatura entrelaçada com a política. Não muito se debate, porém, as possíveis discussões e textos autorais que eles haveriam compartilhado no período em que o primeiro passou pela França, frequentando os cursos promovidos pelo último no Collège de sociologie (1937-1939). Tal aproximação, em termos narrativos, deixa para trás fatos históricos ainda – ou para sempre – desconhecidos, apenas vislumbrados em poucas cartas; essas que não são nem mesmo endereçadas formalmente um ao outro. Ainda assim, tornase importante analisar suas obras com um olhar vesgueado: um olhar que, não obstante, considera a comparação como método próprio de suas análises dos objetos artísticos, tanto literários quanto plásticos. Desse modo, é importante assinalar que ambos conferiram à meditação textos importantes que discutem o fazer artístico e a própria posição crítica do leitor/espectador diante das obras de arte. Com suas próprias palavras, também esboçam um método crítico que percebe no “desvio” – l’écart, em Bataille, e der Umweg, em Benjamin – um movimento ou uma forma necessária para esse mesmo questionamento sobre a obra e o fazer artísticos. Propõe-se nesta apresentação, portanto, transitar entre Walter Benjamin e Georges Bataille. Pois ambos também são escritores que transitam de maneira “de(s)viante” entre a produção literária e crítica, divididos entre duas línguas diferentes e por vezes aproximados por essa mesma distância linguística e sua fortuna literária. Pretende-se aproximá-los na busca por faíscas provocadas a partir de suas palavras em choque. Não à toa algumas dessas palavras são compartilhadas, ou até mesmo sinônimas: desvio [écart, Umweg], metamorfose [métamorphose, Verwandlung], limiar [seuil, Schwelle] e limite [limite, Grenze] são apenas algumas destas. Resta-nos tentar entender como elas operam diante umas das outras, buscando a respiração necessária a qualquer tipo de meditação que se faça a partir de um acervo de obras de tão difícil compreensão. Isto é, as oxigenações ou os “longos ecos que ao longe se confundem” – as correspondências, portanto, que Baudelaire, o poeta francês em que os dois críticos repousaram longa meditação escrita, afirma no quarto poema de As flores do Mal, “Correspondências”. Tenta-se, assim, obter um vislumbre das metamorfoses que as escritas de Walter Benjamin e Georges Bataille sofrem a partir de determinados temas cruciais para a história literária moderna e d’entrelínguas; ou seja, trata-se da busca pelos desvios de formas encenados por suas escritas em contato.

Walter Benjamin, leitor de Franz Kafka: A crítica do mito e da lei, e a liberdade para além do direito

Rafael Barros Vieira :: UFF

O objetivo da presente apresentação é analisar a crítica ao direito presente nos escritos de Walter Benjamin sobre Kafka pós-1933, com ênfase ao seu ensaio de 1934, “Franz Kafka – A propósito do décimo aniversário de sua morte”. As reflexões em torno do direito ocupam um papel que não é desprezível na trajetória de Walter Benjamin (VIEIRA, 2016), e uma das expressões da recorrência dessas reflexões se dá junto ao interesse pela obra de Franz Kafka. Esse interesse remonta, segundo o próprio Benjamin (2012, p.279), a meados dos anos 10 com a leitura do conto “Diante da Lei”, percorre a segunda metade dos anos 20 e se intensifica nos anos 30, culminando sobretudo em seu conhecido ensaio de 1934. Nesse ensaio, diversos elementos trabalhados por Kafka em seus contos, parábolas e romances servem de referência para uma abordagem crítica do fenômeno jurídico. É perceptível o recurso a textos como “O processo”, “O Castelo” e “Na colônia penal”, para analisar a dinâmica de um mundo administrado que articula a dominação impessoal – e fetichizada - dos aparelhos burocrático-legais ao suplício explícito da tortura. Alguns dos personagens desses escritos aparecem como projeções de um sujeito sujeitado, administrado, submetido a uma lei e a um processo que não conhecem. Mas mesmo assim estão expostos à força da lei e do próprio processo. Esses personagens procuram permanentemente agir diante do processo ou da administração, tentando encontrar margens para enfrentá-las, ao final sem conseguir exatamente. É justamente nessas nuances que o poder parece operar com mais eficácia, pois oferece ao sujeito a falsa imagem de uma liberdade que concretamente não exerce, na qual ele segue seu trajeto diante de uma estrutura que lhe é estranha. São diversos os outros momentos em que a temática reaparece sob formas distintas. Benjamin estabelece algumas vezes durante o texto paralelos entre o poder do patriarca e do burocrata, indicando de que forma ambos conformam os sujeitos às engrenagens institucionais ao seu redor. Retomando alguns temas que o acompanham desde o final dos anos 10 e início dos anos 20, os conceitos de mito, culpa e castigo se articulam para interpretar a onipresença dos tribunais e da administração em alguns dos principais escritos de Kafka. Para Benjamin, no mundo dos códigos está pressuposto o ressurgimento do mito que afirma o domínio da pré-história – o mundo mítico – sobre as tentativas coletivas dos seres humanos de agir histórica e livremente (GAGNEBIN, 2011, p.9). Nesse sentido, gostaria nessa apresentação de desenvolver alguns desses temas que conformam a discussão sobre o direito proposta por Benjamin nesse ensaio, para na parte final discutir a disputa interpretativa com Werner Kraft do conto kafkiano sobre “O novo advogado”. Este conto serve de mote para a diferenciação proposta por Benjamin entre direito e justiça, e para a reflexão sobre o que seria a porta da justiça que se abriria diante de um “direito que não é mais praticado” (BENJAMIN, 1994, p. 164).

18h

Residua freudiana

Entretecer o tempo: as prostitutas em Rua de mão única, de Walter Benjamin

Patrick Gert Bange :: UFRJ

Walter Benjamin e outros escritores da chamada Escola de Frankfurt praticaram a escrita na forma do Denkbild, isto é, da imagem-pensamento. Gerhard Richter propõe que esse gênero, com “força fragmentária, explosiva e descentradora”, guarda, numa tensão eminentemente política, “a indeterminação determinada do que em seus próprios tropos soletra o nome ‘resistência’ de maneira cada vez diferente e em movimentos imprevisíveis de sua assinatura textual” (RICHTER, 2017). Seguindo essa hipótese, tenho lido Rua de mão única em seus modos diversos e singulares de praticar o Denkbild. Uma questão mais central surgiu em meio a essa prática, a saber: como, na escrita de Benjamin e a partir dela, se podem ler e propor formas que resistam ao enrijecimento de um sentido, duro e fechado de uma vez por todas, apontando, ao invés disso, para modos de frescor e modos de erotismo. Daí dois núcleos de trabalho se formaram: primeiro, um que se ocupou da figuração do aparelho fonador, lendo, decisivamente a partir do Denkbild “Si parla italiano”, a abertura para outros modos possíveis de ocupação e de uso do corpo, sobretudo da boca, como espaço linguístico-político a ser sempre revisitado e reinventado; segundo, um outro que se ocupou de investigar a figuração de mulheres, em Denkbilder como “Armas e munições”, “Solicita-se ao público que proteja as áreas plantadas” e “Artigos de papelaria”, recuperando e se distanciando de uma passagem do jovem Benjamin, segundo a qual “a linguagem das mulheres permaneceu inacabada”. Nos dois casos, a forma do Denkbild tenciona o pensamento conceitual e imagético de tal maneira, que eles se tornam pequenos universos a serem explorados em suas singularidades radicais e a partir dos quais se abrem possibilidades de leitura tão imprevistas quanto surpreendentes, numa espécie de prática abissal de leitura. A proposta de trabalho que apresento aqui segue esse caminho e busca analisar a figuração de prostitutas em Rua de mão única, em conversa com outros textos de Benjamin. Nela, tanto a questão do uso dos corpos, quanto a do feminino estão colocadas, em especial no Denkbild “Número 13”, em que se lê: “livros e prostitutas entretecem o tempo. Dominam a noite como o dia e o dia como a noite”.

Benjamin, Agamben, Freud: sobre a merda do deus dinheiro

Marcus Cesar Ricci Teshainer :: USP

Benjamin (2013a), em “O Capitalismo como religião”, estabelece quatro traços o que tornam comparável o capitalismo a uma prática religiosa centrada em um ritual. O primeiro traço aproxima o capitalismo de uma religião sem liturgia ou dogmas, uma religião apenas cultual. O segundo afirma o caráter permanente desse culto, enquanto o terceiro concebe que tal culto tem como efeito uma culpabilização universal. O quarto traço caracteriza-se por uma discordância com a afirmação nietzschiana de que Deus está morto. Para Benjamin (2013a, p. 22), Deus não está morto na religião capitalista, mas porém sua transcendência ruiu e foi incluída no destino do homem como super-humano, ou seja, Deus não está morto, mas oculto. Agamben (2017, p. 117) comenta esse mesmo texto benjaminiano a partir da mudança da referência de moeda internacional do padrão ouro para o dólar. Para o italiano, a mudança, ou o deslocamento, de referência de valor para todas as moedas do mundo de uma mercadoria (o ouro) para o dólar representou uma virada importante para pensar o capitalismo como religião. A moeda torna-se algo semelhante a Deus, ou, para ser mais preciso, já que se entende aqui o capitalismo como religião, torna-se o próprio Deus - aquilo que se refere a si mesmo, sem princípio ou fim. Agamben (2017, p. 119) coloca a seguinte questão: se o capitalismo é uma religião, o que, nele, justifica a fé? Para responde-la faz uma arqueologia do termo pistis, traduzido pelos latinos por fide, que significa além de fé, crédito. Em latim, a raiz da palavra credere (acreditar) tem o creditum (crédito) como seu particípio passado. Fé é, portanto, um crédito de palavra que se dá a Deus. Para nós, no entanto, o mais interessante nesta leitura de Agamben (2017, p. 125) é a relação que ele estabelece entre o dinheiro como Deus da religião capitalista e a linguagem humana contemporânea perdendo seu nexo com o mundo, com as coisas dizíveis, comunicáveis. Isso se dá, segundo ele, no mesmo momento em que o dinheiro passa a se relacionar apenas consigo próprio, separando a linguagem da cultura. Diante disso, como psicanalistas, caberia perguntar se a psicanálise poderia ser uma profanação da religião capitalista, isso significa devolver para a linguagem humana uma relação com as coisas. No seu texto, Benjamin (2013a, p. 22) afirma que não, que a psicanálise também faz parte do culto capitalista: A teoria freudiana também faz parte do império sacerdotal desse culto. Ela foi concebida em moldes totalmente capitalistas. A partir de uma analogia muito profunda ainda a ser esclarecida, aquilo que foi reprimido – a representação pecaminosa – é o capital que rende juros para o inferno do inconsciente. (Benjamin, 2013a, p. 22) A intenção deste trabalho se anuncia: colocar em questão a afirmação de Benjamin sobre a teoria freudiana levando em conta a interpretação de Agamben de que Deus virou dinheiro e a leitura de Freud da equivalência clínica entre o dinheiro e merda.

Benjamin e a dramatização das catástrofes na ficção do arquivo

Nathalia de Aguiar Ferreira Campos Campos :: UFMG

O estudo focaliza uma frutífera vertente no campo literário contemporâneo: a ficção do arquivo, tal como ela se expressa na obra do escritor português João Tordo. Tendo como substrato o romance Anatomia dos mártires (2011) – em oportuno diálogo com trabalhos de outros escritores da mesma cepa –, pretende-se detectar na narrativa uma matriz diretamente benjaminiana na maneira de performar a interceptação dialética entre presente e passado, tal como caracterizou o filósofo alemão, o lampejo em que o “ocorrido” e o “agora” se constelam (BENJAMIN, 2006, p. 504, N 2a, 3). Conforme Benjamin, isso se traduz em um movimento ativo do presente em relação ao passado, em que o primeiro reconhece, amiúde, sua interpenetração dinâmica com vestígios “superviventes” das catástrofes. A geração presente, portanto, está imbuída de impreterível compromisso messiânico com a redenção do passado, por meio da “explosão” da continuidade histórica: só assim os elos quebrados da cadeia linear poderão, enfim, se ligar a outros elos distantes. A ficção do arquivo, nessa conformidade, exibirá uma particular tendência para privilegiar a representação de certos aspectos renitentes no comportamento das sociedades como gérmens de novas formas de opressão, em lugar de dar às catástrofes uma moldura pacificada e estéril. Por essa razão, a imbricação entre a pesquisa histórica e a encenação cáustica do arquivo recusa o “fascínio improdutivo da mímesis sem inteligência e reflexão” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 18), levando as narrativas a transitarem por um repertório compósito de figuras do arquivo e formas textuais, de maneira a afastá-las do antiquário e do risco de desproblematização do passado. Sem o impulso memorialista nem as inclinações realistas das gerações prévias (RODRÍGUEZ, 2018), a geração por trás das ficções do arquivo no século XXI está literariamente mais favorecida para revisitar a memória histórica sem herdar o passado como fatalidade, mas, ao contrário, para encarar o presente como argamassa de transformação do curso da história. Por fim, à medida que se vai descortinando um caminho próprio para as ficções do arquivo na abordagem da memória das catástrofes modernas, espera-se nelas sublinhar a reverberação do imperativo benjaminiano por uma história estereoscópica, considerando-se uma tradição “caolha”. Eis uma literatura que parece se dispor a ensinar a falar com o tempo presente, vocacionando para o reconhecimento do outro em regime de “memória transumana” (FLUSSER, 1998, p. 3), afinal, falar com este tempo convoca, antes e reiteradamente, a falar com os “mortos”. Só assim seremos vozes que coabitaremos na eternidade.

11/09 | terça-feira

9h

Leitura e influência

Walter Benjamin e Marcel Cohen: a história e seus restos a partir de uma Estética do Menor na literatura

Felicio Laurindo Dias :: UNICAMP

Para pensar a história de colapso e barbárie do breve e intenso século XX é necessário retomar parte do pensamento de Walter Benjamin que leu a construção da nossa civilização sob a égide de uma falsa ideia de progresso, ou, ainda, uma espécie de escrita de um documento de barbárie. Nesse caminho, o historiador Erick Hobsbawm, em Era dos Extremos (1995), aponta uma história de colapso e horror mundial, expressa por 31 anos de guerra, que se reproduz nas mais diversas formas de expressões artísticas, ainda que de maneira diluída e etérea. Esse cotidiano repleto de violências do passado também é recriado e reelaborado ao longo da historiografia literária e suas múltiplas produções acerca da guerra, dos genocídios, do terrorismo e as catástrofes históricas em geral, como é o caso de A cena interior (2015), de Marcel Cohen. Nesta obra, encontramos um texto cujos temas giram em torno das tragédias pessoais e dos eventos históricos traumáticos das perseguições sofridas pelos judeus. A intraduzibilidade da experiência do que foi Auschwitz é retomada sob a representação de eventos menores e fora dos tons grandiloquentes, por meio da recuperação de objetos, espaços e relações contaminadas pela história de horror que foi o massacre nos campos de concentração.. Nesse sentido, essa proposta de comunicação tem como objetivo pensar a literatura atravessada pelo contexto de barbárie e violência do século XX sob a perspectiva de uma Estética do Menor, que consiste na escolha estética dos projetos literários de autores que, a partir de um olhar voltado para o âmbito do privado, têm seus personagens inseridos numa retomada histórica (que não se completa) por meio de espaços de recordação, como cômodos da casa, fragrâncias de perfume, objetos familiares ou fotografias. O movimento do pensamento benjaminiano na obra Rua de Mão única: Infância berlinense: 1900 (2013) é o de escavar e colecionar fragmentos que possam compor uma visão desnaturalizada do mundo, permitindo-o adentrar a história por outro viés. À luz das contribuições de Benjamin, perceberemos como, ainda que talvez inaparentes, vestígios e rastros (restos) do passado ocupam espaços na ficção de modo muito sutil. Queremos discutir e explorar tais perspectivas de forma ampla e conjunta, além de comprovar ser possível a articulação entre esses diferentes modos de percepção de obras literárias que possibilitam uma visão a contrapelo da história. Pensaremos as aproximações entre a composição ficcional de Cohen e o método benjamiano de ler a história, destacando aspectos como a relação com objetos e espaços da infância em Benjamin, assim como o resgate dos hábitos, dos sabores, dos cheiros e das texturas impregnados nos objetos que constroem a narrativa de Cohen e retoma suas memórias de infância a partir de um imaginário construído por detalhes ínfimos. Cohen e Benjamin pensam num mundo submetido à lógica dos objetos e exploram a possibilidade de mapear a própria vida, dada a precariedade da rememoração do passado, via coleções, sonhos e fragmentos.

A potência revolucionária na fotografia surrealista de Kati Horna

Lilian Rebello Tufvesson :: UFRJ

O surrealismo – último instantâneo da inteligência europeia, escrito em 1929 por Walter Benjamin, instiga reflexões sobre as potências revolucionárias das vanguardas. O filósofo inicia o ensaio enfatizando que o observador alemão não está situado na fonte francesa do surrealismo e, portanto, tem a oportunidade de avaliar as energias do movimento sem se deixar levar pelas aparências artísticas ou poéticas. Benjamin alerta que é um equívoco supor que só podemos conhecer das experiências surrealistas os êxtases sensoriais, pois a tarefa mais autêntica do surrealismo é mobilizar para a revolução as forças da embriaguez. Ele observa que André Breton foi o primeiro a pressentir as energias revolucionárias que transparecem no antiquado. Para Benjamin, os surrealistas são “videntes e intérpretes de sinais” que compreenderam a relação entre esses objetos e a Revolução. Por isso, escreve que é preciso trocar o olhar histórico sobre o passado por um olhar político. Inspirado por esta leitura, este artigo busca tecer reflexões sobre a potência revolucionária das imagens surrealistas, relacionando o pensamento de Benjamin à obra da fotógrafa húngara Kati Horna (1912-2000). A trajetória desta fotógrafa difere-se por um olhar específico, mesclado de influências da reportagem fotográfica e das experiências do surrealismo. Por muito tempo, ela viajou, em sucessivas migrações para escapar do nazismo. Entre 1933 e 1937, viveu em Paris, onde o surrealismo impregnou-se ao seu estilo, nos temas e processos artísticos. Neste período, ela realizou suas primeiras reportagens fotográficas, como as séries do Mercado de Pulgas e dos Cafés de Paris. Em 1937, fotografou a Guerra Civil Espanhola, elaborando fotomontagens com cenas do cotidiano durante o conflito. Engajada com o anarquismo, Horna publicou as imagens em revistas libertárias. Depois, fugiu para o México, onde ligou-se a outros surrealistas. No período de formação em Budapeste, Berlim e Paris, Kati Horna delineou uma estética que 2 desenvolveu por toda vida, através de colagens e fotomontagens: uma mistura de experimentações artísticas e questões políticas. Ao escrever sobre o surrealismo, Benjamin nota que na literatura de vanguarda há transformações fonéticas e gráficas; experiências mágicas com palavras que levaram a literatura aos limites do possível. Mas sobre fotografia, vertente tão importante do surrealismo, Benjamin escreve apenas um breve comentário sobre a intervenção das imagens na narrativa de Breton, sem nenhuma alusão ao seu potencial político. Assim, Benjamin abre espaço para interrogações. Como seria o potencial revolucionário nas fotografias surrealistas? Este potencial pode ser visto nas fotografias de Kati Horna? De que forma os registros do Mercado de Pulgas se relacionam com as fotomontagens da Guerra Civil Espanhola? A abordagem surrealista questiona o real desencantado pelo capitalismo e pela guerra? Michael Lowy observa que o surrealismo é um estado de espírito, alimentado pela experiência da deriva como um passeio fora das coações da razão utilitária capitalista; um passeio no reino da liberdade, tendo o acaso como bússola. As ruas, os objetos, os passantes tornam-se estranhos e inquietantes – como nas fotografias do Mercado de Pulgas. Há uma tentativa de reencantar o mundo, inseparável, para os surrealistas, da luta pela transformação revolucionária da sociedade.

Um anel de saturno – as atualizações de Walter Benjamin por W.G. Sebald

Beatriz Moreira da Gama Malcher :: UFRJ

Com uma prosa lenta, melancólica e extremamente paciente sobre a civilização e suas ruínas, é impossível não ouvir nos textos de Winfried Georg Maximilian Sebald os ecos benjaminianos. Seja na sua vasta obra como crítico literário, sejam em suas escassas – apesar de renomadas – prosas de ficção, Sebald sempre parece se remeter, direta ou indiretamente, a Walter Benjamin, seja no que diz respeito à sua metodologia de trabalho, seja no que diz respeito aos temas explorados. Essa óbvia influência do filósofo sobre o escritor e crítico surge, no entanto, como uma espécie de risco de pesquisa: a busca por Benjamin em Sebald muitas vezes pode incorrer em um sério problema crítico tendo em vista o processo de mediação, impedindo o vislumbre das diferenças e dos contrastes entre as percepções de ambos. A apresentação que proponho ao Benjaminiana 2018 procura, neste sentido, expor as aproximações e fissuras entre os autores tendo como norte principal a dialética civilização barbárie, o sentido da história e o problema da organização do pessimismo. Para tal, proponho, como estudo de caso, uma leitura interna do livro Die Ringe des Saturn (1995) de Sebald, observando de que forma questões caras a obra benjaminiana se fazem presentes nele. Levarei em conta, especialmente, seu trabalho sobre Charles Baudelaire (1923), suas teses “Sobre o conceito de história” (1940) e algumas passagens de seu inacabado Das Passagen-Werk (1928–1929, 1934–1940). De maneira concomitante, procurarei ressaltar como a forma através da qual Sebald trata e atualiza, em sua prosa de ficção, questões caras a obra de Walter Benjamin, auxilia a ressaltar e reafirmar a atualidade e a relevância do filósofo para pensarmos o capitalismo tardio e a história através de uma perspectiva dialética e materialista.

11h

Materialismos

Do nada ao excesso ou a imagem como sintoma: da lição de anatomia à autópsia sem corpo

Marcos Lentino Messerschmidt :: PUC-RS

No texto “A imagem queima”, publicado em 2013, Georges Didi-Huberman propõe a reescrita de uma “Arqueologia do saber das imagens” como uma possível resposta à questão sobre que tipo de conhecimento histórico é capaz de trazer o que ele chama de “conhecimento pela imagem”. Ao procurar construir este saber crítico sobre as imagens, o autor recorre ao método de montagem benjaminiano, exemplarmente desenvolvido pelo filósofo e historiador da cultura na chamada obra das Passagens. Organizar as imagens com o método da imaginação e da montagem serve como meio de cumprir a tarefa proposta por Walter Benjamin na tese VII Sobre o Conceito de História, a de ler a história a contrapelo. Tomando como ferramenta este método de leitura dialética das imagens desenvolvido por Didi-Huberman a partir de Walter Benjamin, procuraremos, nesta apresentação, visando uma abordagem crítica da história da cultura, empreender a articulação entre duas imagens à primeira vista essencialmente distintas e sua interpretação, a saber: o quadro “A lição de anatomia do Dr. Tulp, pintado por Rembrandt no ano de 1632, e uma fotografia publicada no site do jornal El País no dia 25 de junho de 2018, em que aparecem amigos e parentes do jovem Marcos Vinícius da Silva (assassinado aos 14 anos pela Polícia do Estado do Rio de Janeiro no dia 20 de junho do mesmo ano) em torno de seu uniforme escolar manchado de sangue, na que se pode ver, alegoricamente, uma espécie de autópsia sem corpo.

Corpo, política e vida nos escritos de juventude de Walter Benjamin

Márcio Jarek :: UTFPR

Temos por objetivo apresentar alguns aspectos do trabalho crítico do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), elaborados na década de 1920 e relacionados a sua intenção de reestruturação da compreensão da política na contemporaneidade. Especificamente, nos propomos a remontar alguns traços e desdobramentos do projeto de juventude Benjamin de escrever um livro sobre a relação entre vida e política. O que o coloca como um precursor do atual debate sobre as dimensões biopolíticas das relações de poder tais como, em especial, das relações de poder e de violência sobre o corpo. Tendo em vista a estrutura inicialmente pensada por Benjamin para esse projeto sobre as relações entre vida e política, nossa apresentação visa a avaliação crítica das relações entre o corpo vivo humano (Leib) e seus desdobramentos na compreensão político-antropológica do problema psicofísico da vida humana. E, a partir dessas verificações, abordaremos, num segundo momento, a compreensão de Benjamin da vida enquanto mera vida (blosses Leben) no contexto de crise da verdadeira política e estabelecimento de relações de poder/violência (Gewalt) justificados pelas tradições jurídico-políticas modernas.

O materialismo histórico de Benjamin e a alegoria do jogador de xadrez

IVAN CAPELLER :: UFRJ

In his work Ursprung des Deutschen Trauerspiels, Walter Benjamin unveiled the heuristic and critical potentialities of the allegory as a form of thought. Through his study of the german « tragic dramas » of the seventeenth century, he was able to turn upside down the traditional romantic relationship between allegory and symbol that undervalued the first category in order to better enhance the qualities of the second. In Benjamin’s perspective, allegories are epistemologically revealing because they are embedded with a frozen, dead meaning that cristallizes itself in the form of visual and verbal emblems that remain as such throughout the passing of time. Even when they are (or become) intentionally enigmatic, their meaning can always carry an anti-mythical quality that may allow critical thought to get rid of its imaginary unposited pressupositions and assumptions. This lecture proposes a materialistic reading of Benjamin’s allegory of the chess player: its most accepted reading is adamant in stating that, according to Benjamin, historical materialism needs to pull out from theology its true revolutionary (messianic) resources in order to win all political battles (the chess game) over its opponents. Benjamin’s allegory would be really about the overwhelming symbolic powers of mythical thought over rational ways of knowledge, and his political-messianic stances would be easily brought back into the realm of religion. Thus, the puppet would stand for the science of historical materialism, whilst the dwarf represents “theology, which as everyone knows is small and ugly and must be kept out of sight”. Instead of this reading, we place Benjamin’s effort in a perspective that’s actually closer to Bertold Brecht’s subversive Verfremdungseffect: by taking a critical distance from positivistic historicism, Benjamin denounces its theological hidden grip over all trends of historical materialism in order to demonstrate, under a subtle layer of irony, how difficult is the task of the working class in its strive to get rid of the mythical shackles that still binds mankind to a history of misery and oppression. His ironical intentions can be hinted at through his careful choice of words in the rendering of his own interpretation of the chess-player allegory: “The puppet called ‘historical materialism’ is always supposed to win. It can do this with no further ado against any opponent, so long as it employs the services of theology, which as everyone knows is small and ugly and must be kept out of sight”. Take out the above highlighted figures of speech from the text and we still get the same basic contents - but in a much more affirmative, straightforward tonality that is not representative of Benjamin’s attitude towards historical materialism at all. Far from being a precursor of nowadays post-modern cynical scholars, Benjamin was actually trying to reinvigorate the proletarian revolution in its most tragic and dark hour. This reading is amply demonstrated by the way the question of historical materialism is developed along the other sections of his last text, On the Concept of History.

14h

Conferência

A grande orelha de Kafka

Rosana Kohl Bines :: PUC-Rio

Havia uma fotografia do escritor Franz Kafka quando menino, pela qual Benjamin tinha especial apreço. Diante desse retrato, “a pobre e breve infância” aparece para Benjamin com força inigualável. Vestido de mini adulto e constrangido em trajes apertados e humilhantes, a criança exibe “olhos incomensuravelmente tristes.” Mas há algo no corpo do menino que parece resistir à captura precoce da infância pelo mundo filisteu e que se materializa, para Benjamin, na “concha de uma grande orelha” que ausculta a paisagem ao redor. Exploraremos o alcance artístico-especulativo dessa escuta penetrante que Benjamin localiza na figura infantil de Kafka e que buscará cultivar como política do pensamento, apostando numa espécie de pedagogia do ouvido, cujos desdobramentos serão discutidos também à luz das emissões radiofônicas de Benjamin junto às crianças alemãs entre os anos 1927 e 1933.

16h

Sessão de lançamentos

O local da diferença

Márcio Seligman-Silva

Walter Benjamin: a arte de contar histórias

Organização e posfácio de Patrícia Lavelle

18h

Artistas

Por uma estética da experimentação: Asja Lacis e o Teatro Infantil Proletário

Isabela Carolina Rossi :: USP

No texto do ‘Programa de um teatro infantil proletário’ Walter Benjamin escreve que “todo desempenho infantil orienta-se não pela “eternidade” dos produtos, mas sim pelo “instante” do gesto. Enquanto arte efêmera, o teatro é arte infantil”. A partir desse recorte e junto à leitura do livro “Profissão: Revolucionária”, esse trabalho comunica a pesquisa em processo acerca da contribuição da militante bolchevique, atriz e diretora de teatro letã Asja Lacis, para uma pedagogia do teatro e da experimentação na Linguagem, segundo uma estética materialista contemporânea. Neste livro, ao narrar sua experiência com exercícios corais e práticas de encenação junto à crianças e trabalhadores na Alemanha da década de 1920-30, Asja realiza uma espécie de ensaio organizador que movimenta, materialmente, alguns conceitos irradiantes na constelação de Benjamin, o “Spielraum” (espaço de jogo) e “Versuchsanordnung” (ordenamento experimental). Ao nos movermos por entre esses dois conceitos, assim conversamos sobre em que medida tais exercícios de aprendizagem fazem emergir, no continuum da história, uma perigosa estética da tatibilidade ou da experimentação.

Narrativas e Histórias: o Artista Contemporâneo como Colecionador

Lucas Alberto Miranda de Souza :: UFF

O presente estudo se propõe a entender o artista contemporâneo a partir da figura do colecionador na filosofia de Walter Benjamin. A partir dessa aproximação, também se compromete a pensar os desdobramentos cometidos nos conceitos de história e narrativa através da atividade desse sujeito no campo da arte. Atualmente, entende-se o artista contemporâneo a partir do questionamento dos meios e técnicas característico da segunda metade do século XX, uma figura que expandiu a possibilidade de seus instrumentos de ação para além dos suportes tradicionais de criação. Indo de encontro com questões benjaminianas suscitadas em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, a Pop-Art americana e o Neoconcretismo no Brasil foram apenas alguns dos exemplos deflagradores da disseminação e diversificação dos materiais para a criação artística no pós-guerra. O pesquisador e artista Allan Kaprow, já prescrevia em 1958: “tudo vai se tornar material para essa nova arte” (KAPROW, 2006, p. 35). É a partir da premissa de que o artista contemporâneo tem como elemento de sua criação qualquer objeto do mundo que se propõe entendê-lo sob a ótica da figura do colecionador. Sobre essa temática, Agamben escreve: “Uma figura pela qual Benjamin sentia uma instintiva afinidade: a do colecionador. Também o colecionador “cita” o objeto fora do seu contexto e, desse modo, destrói a ordem no seio da qual ele encontra o próprio valor e o próprio sentido” (AGAMBEN, 2013, p.171). O artista contemporâneo e o colecionador praticam a apropriação, transfiguração, ressignificação e reorganização a partir dos diversos objetos do mundo. Há no cerne dessas atividades um deslocamento de narratividades e, com isso, (re)proposição de narrativas. Essas operações encaminham desdobramentos no conceito de história, dialogando com críticas pontuadas por Benjamin em suas “Teses sobre o conceito de História”. O deslocamento dos objetos do mundo na arte, através da atividade colecionista do artista contemporâneo, retira elementos significantes em narrativas já consolidadas tradicionalmente e citaos fora de contexto, exigindo uma reconstrução narrativa que compreenda aquele objeto reposicionado. Há aqui uma emancipação do espectador como sujeito que vive uma experiência de construção narrativa quando em contato com a arte. Presencia-se nele um estimulo à ação de contar, desarranjadora da conceituação do processo histórico como unidirecional e singular, estando sempre a proliferar histórias, atualizando o objeto de arte em seus significados. A proposição do artista contemporâneo sugere ao espectador uma posição de narrador, e nessas múltiplas narratividades, deixa-se que a história admita diversas interpretações, permanecendo aberta, disponível para uma continuação. Essa disponibilidade é o estímulo para as diversas narrativas que atualizam o significado e percepção daquele objeto deslocado, remontam a história de um fragmento de mundo reorganizado pela obra de arte contemporânea. Quanto ao artista colecionador, assim como Heródoto, pai das histórias, propõe obras que, como sementes que conservam poder germinativo (BENJAMIN, 1985, p.13) instigam rizomas de histórias e narrativas.

"Desvio para o Vermelho": o artista como colecionador

Caroline Alciones de Oliveira Leite :: UFRJ

Esta pesquisa analisa a obra "Desvio para o Vermelho" (1967-1984) de Cildo Meireles, compreendendo que, no ato de criação da obra, ao adotar como prática o método do arquivo, o artista transmuta-se em um tipo de colecionador, como descrito por Walter Benjamin em "O Colecionador". Investigamos como a presença de obras de arte, objetos e utensílios na cor vermelha reunidos pelo artista se modifica nas diversas edições da obra e a proximidade da obra com a proposta de Márcio Seligmann-Silva de anarquivar para recolecionar. Entrar em "Desvio para o Vermelho" implica um confronto com uma organização curiosa, uma espécie de ordem à qual estão submetidos inúmeros objetos vermelhos que compõem o ambiente de "Impregnação". Diversas obras de arte, entre objetos e utensílios domésticos, compõem um ambiente inusitado dada à predominância da cor vermelha que se multiplica, em diversos tons, em cada objeto. Os pés descalços do visitante afundam na maciez de um tapete vermelho que, juntamente com utensílios domésticos, insiste em afirmar que se está em casa. A curiosidade desse ambiente guia pés e olhos a um segundo recinto – "Entorno" – onde, no escuro, uma garrafa deitada ao chão derrama um líquido vermelho que conduz a um terceiro ambiente do qual se escuta o som do jorrar de um líquido. No escuro de "Desvio" se encontrará um feixe de luz a iluminar uma pia sustentada em um ângulo inclinado de cuja torneira verte também um líquido vermelho. Se dispersos fora do espaço criado pelo artista, os objetos da coleção/obra "Desvio para o Vermelho" não passariam de meros sofás, cadeiras, máquinas de escrever, peixe etc.; (re)apresentados no espaço erigido pelo artista, configuram-se como uma coleção que se constitui como obra de arte. Assim como Benjamin, em suas "Passagens", organizou “um grande arquivo em forma de hipertexto” (BOLLE, 2009, p. 71), de forma análoga, Cildo Meireles parece compor uma coleção-arquivo que não permite assertivas daquilo que de fato seria. "Desvio para o Vermelho" evidencia certa ânsia de dar conta do mundo distante das metáforas através do fato, ou de parte dele, traço característico de colecionadores. Seligmann-Silva tece relevante reflexão sobre anarquivamento ao compreender que “a estética do acúmulo, da metonímia e não da metáfora, é típica da arte de rememoração do terror. Ela nos remete de imediato para a ideia de (an)arquivo.” (SELIGMANN-SILVA, 2014, p. 43) Mesmo que a coleção e o arquivo sejam instâncias distintas, parecem se tocar naquilo que diz respeito ao método de organização e de estabelecimento de sentidos na seleção daquilo que entra na coleção ou no arquivo e aquilo que neles não cabe. Em "Desvio para o Vermelho", Cildo Meireles repete o ato do colecionador, renovando cada elemento que integra sua obra-coleção. Desdobra-se uma reordenação de mundo a partir da coleção criada pelo artista na condição de obra de arte. A obra-coleção guarda ainda outra particularidade – a cada nova montagem da obra, a coleção se modifica –, renovando a ambiguidade existente entre aquilo que se quer narrar e, ao mesmo tempo, esquecer.

12/09 | quarta-feira

9h

Imagem, semblante, paisagem

Pensar a cidade: a relação imagem-pensamento a partir da obra de Walter Benjamin

Matheus Felipe da Silva Rios Santos :: UnB

A partir da discussão de Benjamin sobre a modernização e a recaracterização do espaço na cidade de Paris forçada pela burguesia emergente, que apresenta sua demanda modernizadora a partir de um desejo de consolidação de seu poder sobre a cidade que foi palco das revoluções de 1789, 1830 e 1848, o objetivo principal do trabalho é discutir a apropriação do espaço no modo de produção capitalista e a nova ordem espacial que se estabelece redefinindo os espaços públicos e privados, e simultaneamente mescla elementos embelezadores e um plano de fundo domesticador das revoltas populares. Tomando como ponto de partida a discussão presente no texto “Paris, capital do século XIX”, onde Benjamin pensa sobre as pretensões da burguesia através dos projetos de Georges Eugène Haussman, que se apresenta como um artista demolidor, pretende-se discutir a questão da urbanização e aspectos ideológicos da construção da cidade de Brasília, onde a proposta principal é apresentar as relações entre imagem e pensamento presentes na estrutura urbana e a utilização estratégica por parte da classe dominante de uma ideologia bandeirante presente no processo de transferência e reorganização do espaço que sediará a capital do Brasil, assim como as consequências inevitáveis do modo de produção capitalista do espaço, onde a segregação espacial e o problema habitacional são indissociáveis do desenvolvimento da cidade. Assim, pretende-se discutir a relação entre a forma de produção da estrutura espacial da cidade e sua imagem na consciência coletiva enquanto experiências transfiguradoras e produtoras de diferentes configurações de vida.

A imagem benjaminiana da constelação como proposta de experimentação teórica para um estudo da modernidade

Mariana Albuquerque Gomes :: PUC-Rio

No prólogo de sua tese de livre-docência, o estudo sobre o drama trágico alemão, Walter Benjamin (2011) apresenta uma das metáforas mais importantes de seu pensamento filosófico, a imagem da constelação. Ao pensar sobre o Trauerspiel, Benjamin propõe que este seja considerado como uma ideia e, ao estabelecer uma aproximação metafórica entre as ideias e as constelações, pressupõe uma unidade na multiplicidade. As ideias seriam, então, iluminadas, isto é, apresentadas, na medida em que os extremos, agrupados pelos conceitos, se reunissem a sua volta. Não obstante, para ler as imagens benjaminianas é imprescindível compreender que sua obra constitui-se como uma reflexão sobre um mundo em ruínas. A reflexão crítica de Benjamin reconstrói, em sua escrita, o mundo da época da modernidade, do longo século XIX, do passado fragmentado, em ruínas – e também seu próprio mundo contemporâneo e catastrófico. É na retomada dos fragmentos desse passado em ruínas que, em montagem, se quer torná-lo visível, inteligível, e, assim, elucidar o presente (MURICY, 2009). Nesse sentido, as proposições de Benjamin sobre o passado buscam dar visibilidade crítica também ao presente. A elaboração teórica de Benjamin consiste, desse modo, em uma reflexão da modernidade em que se estabelecem ligações entre escrita e consciência do tempo (GAGNEBIN, 2013). Tal aspecto possibilita-nos ler a filosofia da história benjaminiana como uma reflexão centrada na modernidade, cujo imperativo constitui-se no profundo copertencimento do eterno e do efêmero. O teórico busca, através de sua epistemologia poética (OTTE, 2007), garantir a transitoriedade dos particulares, os fenômenos, imortalizando-os ao capturar seus elementos nas ideias. Como o poeta francês Charles Baudelaire, Benjamin extrairia, em seu pensamento filosófico, o eterno do transitório. A proposta de experimentação teórica desse trabalho consiste na contemplação de que as estéticas finisseculares, simbolistas e modernistas, observadas em revistas literárias de diferentes espaços, geograficamente dispersos, podem ser apresentadas numa trama-síntese, na qual, busca-se observar a conservação da ideia estética e suas implicações culturais e políticas em cenários que, apesar de trazerem especificidades, compartilham experiências. Através da imagem da constelação, procura-se expor a modernidade como uma unidade que carrega em si mesma uma multiplicidade de manifestações culturais, das mais diversas realidades históricas. Ao lampejo dimanado da análise benjaminiana, pensar a modernidade em uma amplitude conceitual em que a ideia transpasse as singularidades de sua experiência estética parisiense, possibilita a compreensão de outras experiências modernas não como esparsas, tardias ou marginais, mas como extremos-singulares que são parte integrante de uma modernidade constelar. Parece-nos, assim, ser possível refletir sobre os cenários em que se configuram as modernidades latino-americanas – em suas tensões, continuidades e descontinuidades –, propondo uma análise interpretativa que não secciona modernidades, nem estabelece relações lineares, progressivas e hegemônicas, mas que busca compreendê-las como um todo; como uma constelação, composta por diferentes e distantes estrelas/cenários. É a imagem conceitual da constelação, portanto, a tônica do trabalho que aqui pretendemos desenvolver.

Passagens noturnas: O olhar de Benjamin para as transformações da iluminação na paisagem noturna

Tatiana de Albuquerque Ferreira :: UFRJ

Entendem-se como “passagens” os cenários imagéticos descritos por Walter Benjamin que retratavam os fenômenos característicos do século XIX. Neste sentido, o presente trabalho pretende desmitificar a questão da luz como um símbolo de modernidade e progresso, explicitando as principais modificações na noite dos centros urbanos, visto que a luz fazia parte da composição destas “passagens” noturnas, segundo o olhar benjaminiano. Parte-se do entendimento do processo histórico da iluminação urbana, buscando compreender como estes avanços tecnológicos foram difundidos pelas Exposições Universais e como a luz se tornou um marco na paisagem noturna das cidades através das contribuições de Benjamin para os cenários oriundos do século XIX. O desenvolvimento do estudo foi feito a partir de três construções: as duas primeiras são referentes ao processo histórico da iluminação urbana, onde se traçou um paralelo entre Rio de Janeiro e Paris, para assim compreender as mudanças iniciais no âmbito urbano e público, desde as primeiras soluções adotadas à iluminação a gás e elétrica com a formação de uma imagem de “modernidade”; a terceira construção refere-se às transformações na paisagem noturna sob o olhar benjaminiano, com o entendimento de conceitos (sonhos, referências surrealistas, teologia, experiência, linguagem imagética e imagens dialéticas) presentes na obra do autor, para assim desnaturalizar a ideologia de progresso que acompanhou o surgimento da iluminação a gás e elétrica e como isto transformou a paisagem noturna das cidades em meio às Exposições Universais e o “delírio” do uso da luz. Como metodologia, tem-se a compreensão do materialismo histórico da iluminação urbana por meio de autores como Ferreira (2009), Dunlop (1949), Soares (1999) e Gwiazdzinski (2005). Como embasamento teórico central, apoiou-se nas teorias de Benjamin (1995; 2006) e adotou-se uma abordagem de textos considerados completos da obra “Passagens”, como as Exposés de 1935 e 1939 - “Paris, a Capital do século XIX”, que são resumos do projeto propriamente dito das passagens. Foi fundamental a compreensão de “Notas e Materiais”, que são fragmentos, anotações e pensamentos nem sempre completos de Benjamin, com maior atenção a “Sistemas de Iluminação”. A Introdução de “Passagens” também se mostrou essencial para auxiliar o entendimento da complexidade de Benjamin, onde consta o trabalho de Rolf Tiedermann, filósofo, discípulo de Theodor W. Adorno e organizador da publicação original alemã de “Passagens” em 1982. Dentre as principais conclusões do trabalho, chega-se à reflexão se ainda estamos imersos em uma imagem onírica e que seria necessário um despertar para a compreensão de como estamos iluminando as nossas cidades.

11h

Escrita, criação

O caráter processual do Atlas Mnemosyne e das Passagens: sobre colagem, clínica e corte

Natalie Lima :: PUC-Rio

Essa comunicação quer investigar de que maneira a interrupção e o corte podem ser compatíveis com o que gostaríamos de chamar de caráter processual das colagens realizadas no Atlas Mnemosyne e nas Passagens . A partir de um signo comum a ambos os projetos – o do lampejo, do relâmpago, do congelamento –, vemos que a interrupção é imanente ao próprio ato de pensar, e que este último é inseparável de um certo adoecer (depressão em Walter Benjamin, esquizofrenia em Aby Warburg). Mais que isso: que ela é parte integrante e vital de um pensamento-colagem. Essa seria uma característica suficientemente forte para se desmentir, como desejava Benjamin, toda progressividade do devir, o que equivale a dizer que uma produção teórica processual via colagem não ruma necessariamente para sua própria realização ou para sua síntese, como não rumaram as Passagens e o Atlas Mnemosyne. Nesse sentido, em ambos os casos, o que já se convencionou chamar de pensamento por imagens revela a maquinaria dos dispositivos de colagem e montagem, mostrando que sua capacidade crítica (e clínica) repousa sobre dois alicerces: 1) na insistência em aproximar materiais de naturezas distintas, seja no encontro entre disciplinas cuja divisão jamais foi de fato sólida, seja no elogio às desproporções; 2) na intuição aguda de que a combinação de imagens, e, antes disso, sua produção, daria conta de gerar um efeito mágico, qual seja, o de que aquilo que não existe (a própria imagem) é, no entanto, real: tempos históricos e contextos culturais vários são aproximados graças ao artifício da colagem e da montagem de imagens, artifício esse que se assemelha a um processo de pensamento esquizo, como o de Warburg. Nesse caso, o fato de que um método de pesquisa foi também de criação e de cura faz dele um instrumento de análise ainda mais eficaz. O que se fez no Atlas foi inventar um “novo espaço de imagens”, como propõe Benjamin em seu ensaio sobre o surrealismo: lidar topograficamente com elas, aproximando impossíveis e produzindo, com isso, um lugar para o impossível mesmo. Um lugar de saúde. Recortar e colar, interromper e continuar – na zona de contato entre uma imagem e outra temos a mistura, o impuro, as durações. As colagens nada ortodoxas do Atlas e das Passagens nos obrigam a olhar para novos corpos e hipóteses de pesquisa, os que elas criaram, a percorrê-los e a reconhecer que precisamos deles de um ponto de vista tanto clínico quanto estético e político. Uma percepção não formalista da colagem nesses dois trabalhos seria, então, uma percepção esquizo, muitas vezes terapêutica, não necessariamente verificável, e ainda assim legítima.

Imagens de autoria em Walter Benjamin

André Vechi Torres :: PUC-Rio

O trabalho de Walter Benjamin como filósofo e crítico literário muitas vezes se debruça sobre diversos autores, entre eles: Goethe, Kafka, Proust, Walser, Brecht, Leskov e, é claro, Baudelaire, cujo trabalho monográfico que ele preparava e que serve de modelo para sua grande e incompleta obra sobre as Passagens é interrompido pelas ocasiões que o levaram ao suicídio. Contudo, são poucas as passagens que ele dedica à figura do autor como modelo conceitual que representa o sujeito que institui um objeto dentro dos parâmetros de uma linguagem artística, seja ela visual ou literária (campos principais que nos servirão nessa análise) estando ele inserido e alinhado com os valores de sua tradição de modo a servir à fruição estética. A análise aqui proposta, visa justamente se debruçar sobre essa figura do autor, partindo principalmente de dois textos onde ela aparece de maneira mais pronunciada: “O Autor como Produtor” (1934) e a segunda parte de “As Afinidades Eletivas de Goethe”(1924-25). Serão convocados também outros dois textos da década de 1930: A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1935-6) e O Contador de Histórias/ O Narrador (1936). Visa-se compreender o papel fundamental que essa figura teria como configurador da obra em um tempo de crise da sensibilidade, devido à decadência da comunicabilidade em decorrências aos traumas não só dos eventos catastróficos, como a guerra, mas da própria aceleração da velocidade de circulação de obras, devido a reprodutibilidade técnica. O autor, diferente do criador divino, não estaria na gênese do texto, mas poderia surgir como o articulador de sua origem, lançando-o sempre em devir e desaparecimento, quase como uma presença fantasmática que aparece na construção da obra e desaparece pela autonomia da mesma. Como articuladores da reflexão, serão convocados, ainda. os famosos conceitos de experiência (Erfarung) e vivência (Erlebnis). Como diz Benjamin (2015) “A vivência (Erlebnis) busca o que é único e a sensação, a experiência (Erfährung) busca o sempre-igual”. Essa unicidade da vivência não é só por uma irreprodutibilidade, mas se circunscreve pela individualidade do sujeito que a experimenta de modo tão determinante que a desvincula da necessidade de a comunicar. Já a experiência é o sempre-igual não da repetição exata, mas da continuidade de uma tradição capaz de atravessas sujeitos de distintas temporalidades Sou levado a crer, e a projetar, que Benjamin intuía nas mudanças de seu tempo um novo modelo perceptivo para a produção que surgia e se colocava em jogo em seu tempo, onde o “número substancialmente maior de participantes produziu um novo modo de participação” (BENJAMIN, 1987). Essa participação poderia ser o entrecruzamento entre a experiência coletivizadora e a vivência individual, em que o observador e o autor se comunicam através de um objeto onde a diferenciação de suas posições já estivesse, de início, borrada, pois o autor já é, em si, o sujeito de transformar a própria vivência em experiência.

A violência criadora: Walter Benjamin, o tigre da ira de Willian Blake

Leonardo A. Alve de Lima :: UFRJ

14h

Conferência

Sobre a mesa de mármore do café, uma iguaria canibal. Perspectivas do olho, entre Walter Benjamin e Georges Bataille

Marcelo Jacques de Moraes :: UFRJ

Reflexão sobre os regimes críticos do e sobre o olhar na obra Walter Benjamin e Georges Bataille.

16h

Contrapelo

Frear a locomotiva da história é uma ação contra o programa do aparato: notas sobre a crítica da técnica em Benjamin e Flusser.

Fernando Araújo Del Lama & Gabriel Salvi Philipson :: USP, UNICAMP

Trata-se de estabelecer um exame crítico-comparativo entre as reflexões de Benjamin e de Flusser sobre a técnica. O escopo da investigação consiste em aproximar ambos os pensadores, guardando seus traços idiossincráticos e irredutíveis, por meio de uma crítica da técnica que se exprime como recondução dos potenciais inerentes à técnica com vistas à emancipação humana (Benjamin) ou como resistência diante da lógica dos códigos e programas que dela é fruto (Flusser). O interesse em construir relações entre Walter Benjamin a Vilém Flusser vem crescendo ao longo dos últimos anos. Certamente, tal interesse se deve à imbricação de temas que despontam em suas respectivas obras: a tentativa de compreensão teórica sobre o advento das novas mídias, com amplo destaque para a fotografia, objeto de Benjamin em seu ensaio Pequena história da fotografia, assim como em importantes capítulos do célebre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, e de Flusser no já clássico livro Filosofia da caixa preta, mas também os rumos da história, as novas formas de escrita e de uso da linguagem, a (im-)possibilidade da tradução, a ascensão da imagem perante o declínio da escrita, a crítica da técnica, dentre outros. É este último cruzamento temático que orientará a investigação aqui proposta. Dadas as restrições às quais um trabalho desta ordem deve ser submetido, selecionamos alguns eixos específicos para serem aprofundados em nossa investigação: a relação entre a desconfiança para com a ideologia do progresso e a crítica da técnica e da razão, bem como os modos particulares – ainda que sensivelmente afinados – de cada um dos autores em propor saídas à problemática dela decorrente: Benjamin propõe repensar internamente os princípios que constituem a técnica clássica, baseados na dominação e subjugação da natureza pelo homem, em função da elaboração de uma “segunda técnica”, fundada na busca de uma relação harmônica entre ambos; Flusser, por sua vez, constrói uma crítica por assim dizer externa da técnica, por meio de uma crítica mordaz das imagens técnicas que codificam o mundo, recusando-se em aderir passivamente ao programa do aparato por elas constituído. Para tanto, utilizamos textos e fragmentos de Benjamin pertinentes à crítica da técnica e do progresso, tais como o ensaio sobre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica e as teses Sobre o conceito de história, passagens fundamentais dos textos de Flusser, sobretudo d’O universo das imagens técnicas, além de relativizarmos os desenvolvimentos argumentativos com peças importantes da bibliografia

Walter Benjamin: arte e história na divisa do materialismo

João Felipe Lopes Rampim :: UNICAMP

Trata-se de abordar o ensaio “Eduard Fuchs, colecionador e historiador”, publicado em 1937, ressaltando sua posição no interior da produção materialista de Walter Benjamin. Partimos do fato de que duas temáticas decisivas desta produção confluem nesse ensaio: uma reflexão sobre dialética materialista e saber histórico, por um lado, e uma abordagem sobre arte de massas, por outro. No primeiro caso, o ensaio sobre Fuchs é notável por conter algumas formulações que em 1940 seriam retomadas nas teses “Sobre o conceito de história”, texto conhecido especialmente por sua tentativa de articular materialismo histórico e teologia. No segundo caso, destacamos a correspondência com o ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, cujo trabalho de produção e primeira revisão é contemporâneo ao trabalho de Benjamin no ensaio sobre Fuchs – certamente, Benjamin, em sua abordagem da história da arte de Eduard Fuchs, tinha em mente sua própria teoria, desenvolvida em “A obra de arte…”. Essa posição do ensaio sobre Fuchs como possível articulador de dois dos escritos mais conhecidos de Benjamin nos leva a enfatizar a dimensão estética de seu conceito de história. Considerando ainda que Benjamin recebeu as discussões de sua época sobre história da arte (Riegl, Wickhoff, Wöl􀂤in…), podemos tangenciar essa leitura à sua posição perante tais discussões – especialmente, podemos lançar luz sobre o curioso fato de Riegl ter exercido uma forte influência em Benjamin. No limite, parafraseamos a anotação de Benjamin sobre história da cultura e perguntamos: é possível uma história materialista da arte? Entendemos que a resposta a essa questão é afirmativa, na medida em que esse potencial não se traduza em concordância com o conceito de um tempo contínuo, homogêneo e vazio. Buscaremos a chave dessa interpretação na caracterização do Fuchs colecionador e suas implicações na produção do Fuchs historiador, bem como no caráter peculiar de sua coleção de obras de arte de massas, que era também seu objeto de investigação histórica. Por esse viés, veremos como Benjamin ensaia um olhar crítico sobre a arte, que encontra a obra em sua materialidade própria e desvela nesse encontro uma nova visada sobre o passado, construída através do tempo da atualidade.

A dialética da atualidade em Walter Benjamin

João Guilherme Siqueira Paiva :: UFRJ

No livro das Passagens encontramos a necessidade da apreensão de uma "atualidade autêntica" ao invés de uma diluição na "má atualidade" contida na superfície do presente. Em que consiste a diferença entre a autêntica e a má atualidade? Fazer essa distinção, para Benjamin, é fundamental no interior da reflexão histórica. Os objetos artísticos apareceriam com sua potencial "atualidade", com seu "teor de verdade" a ser extraído pela crítica filosófica – ainda quando a custo de serem mortificados. A "obra de arte autêntica", aliás, chega a ser apresentada como "verdadeira definição" de progresso, em contraposição à ideologia moderna do progresso. Mas na Tese VII o relevo dado à obra de arte para qualquer legibilidade histórica se nivela a todos os outros objetos da cultura, quando todo documento de cultura aparece como documento de barbárie. Tal nivelamento demonstra que, para a filosofia da história de Benjamin, a legibilidade não se restringe aos objetos artísticos. Pelo contrário, na análise de "elementos minúsculos" e do "pequeno momento individual" seria possível a descoberta do "cristal do acontecimento total". Se a verdade – na filosofia benjaminiana – é a verdade carregada de tempo, então mesmo o inautêntico e a inverdade seriam passíveis de se converterem no indício histórico de uma "atualidade autêntica"? Mas e quanto à má atualidade? Nessa dialética, também a arte sofreria o processo da má atualidade? Benjamin anota em outro fragmento das passagens: "Marx caracteriza magnificamente como elemento vulgar [da economia política] o elemento que nela é mera reprodução da aparência como representação da aparência". Benjamin escreve sobre a necessidade de denunciar esse elemento vulgar não só na economia política, mas também nas outras ciências. Daí a tentativa de "legibilidade" da história fazer exigências epistemológicas que auxiliem no trabalho de distinção entre a representação da aparência e de sua mera reprodução. Entre atualidade autêntica e má atualidade. Nossa proposta é discutir a relação da filosofia de Benjamin com a arte, particularmente a poesia, tendo em vista suas possibilidades de "representação" do tempo – seja positiva ou negativamente.

O umbigo da história: uma citação freudiana em Benjamin

Pedro Alegre Pina Galvão :: UFRJ

A noção de imagem, no pensamento de Benjamin, figura numa intricada correspondência literária e filosófica. Trata-se de um autor que não apenas pensa a imagem, mas pensa por imagens. A constelação fulgurante, que mostraria de modo fugaz a imagem dialética, é também a pequena cartografia, que ora se furta, ora se revela, do que Benjamin elaborou como seu mundo singular de afinidades. Dentre elas, este trabalho propõe a que se iluminou, de maneira definitiva, sobre a noção de história benjaminiana, a partir de Freud. O método de trabalho que é desenvolvido, por exemplo no projeto das Passagens, organiza de modo intenso uma impressão freudiana que figura dentro da compreensão de imagem dialética. Se o trabalho do historiador, que pretende dar a ver o passado, se encontra decisivamente em fixar a imagem fugaz do ocorrido, isso significa que a natureza dessa imagem se apresenta do seguinte modo: com um caráter crítico, ela aparece desfigurando o continuum da história (como um sintoma) para depois se dissipar no instante seguinte (como um sonho). Este relampejar da imagem da história implica o historiador, segundo Benjamin, na tarefa da interpretação dos sonhos. Nesse ponto, parece que Freud se transforma, no pensamento benjaminiano, em uma citação. Fora do contexto da psicanálise, Benjamin pretende introduzir a interpretação dos sonhos na esfera coletiva das massas, propondo assim um segundo paradigma naquilo que Freud estabeleceu para o inconsciente psíquico. As conseqüências disso são de tal ordem que se poderia mesmo dizer, sobre a crítica feita por Benjamin, que ele pensa a história como Traumdeutung e a materialidade dos vestígios do passado que desponta no horizonte do presente é parte de um sonho do qual precisamos despertar, isto é, conduzir o pensamento através da legibilidade histórica rumo à interpretação onírica. A correspondência encontrada em Freud foi antes, na verdade, percebida em Proust. A dialética da memória e do esquecimento, para o tradutor alemão da Recherche, se confunde com a percepção da história onírica da qual se busca não o passado, mas sua perda. O conhecimento da história confere à sua legibilidade o caráter de recordação. A imagem dialética é uma madeleine benjaminiana, a qual seria capaz de irromper como memória involuntária da humanidade. Dos muitos caminhos possíveis através das correspondências encontradas no pensamento benjaminiano, este trabalho pretende circunscrever Freud, e também Proust, naquilo que Benjamin poderia ter chamado de o “umbigo da história”, quer dizer, imagem involuntária, quer dizer, memória dialética.

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Informações sobre transportes

Ônibus passam regularmente até 21:30. Após esse horário os intervalos tornam-se irregulares. Os últimos ônibus passam aproximadamente às 22:20 (ônibus que faz integração com o metrô). Há um ponto de táxi diante da Faculdade, após 18h é necessário requisitar táxi na portaria. Mais informações sobre transporte na paǵina da Faculdade de Letras. Há linhas de ônibus da própria UFRJ que fazem integração entre a Ilha do Fundão e várias partes da cidade. Horários e pontos de saída podem ser conferidos aqui. O tempo de viagem a partir do Centro/Zona Sul do Rio é de cerca de 1h de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Oeste é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 45 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Norte do Rio é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush).

Sobre certificados aos ouvintes

Serão concedidos certificados de participação aos ouvintes equivalentes a 1 hora/sessão ou conferência, autenticado por lista de presença. Será concedido um certificado de participação no encontro equivalente a 12 horas para ouvintes com presença em 9 sessões.