Clariceana 2019

Entre os dias 04 e 06 de setembro de 2019 ocorrerá no auditório E3 da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro a 2a Clariceana. O evento busca congregar pesquisadores, leitores e apaixonados pela obra de Clarice Lispector, criando um espaço de diálogo e troca para pesquisadores e estimulando o debate. Teremos conferências confirmadas de Clarisse Fukelman (PUC-Rio) e João Camillo Penna (UFRJ) e Nadia Batella Gotlib (USP/CNPq). Além disso, esperamos contar com a participação de pesquisadores de todo o Brasil e do exterior em sessões de comunicação. O evento é promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ e pelo Projeto Fortuna.

Até o dia 14 de julho a comissão organizadora receberá resumos de trabalhos com propostas de comunicação. Os resumos devem conter até 500 palavras e 5 palavras-chave e serão selcionados pela comissão científica. As inscrições de resumos e de ouvintes devem ser realizados pelo formulário abaixo ou por e-mail (clarice.lispector.fortuna@gmail.com, escrever no campo assunto ‘resumo’). Inscrições para ouvintes serão aceitas até o dia do evento.

Comissão organizadora:

Lucas Cavalcanti (UFRJ), Leyliane Gomes (UFRJ), Ricardo de Souza (UFRJ)

Comissão Científica:

Clarisse Fukelman (PUC-Rio), Flavia Trocoli (UFRJ), João Camillo Penna (UFRJ), Leilyane Gomes (UFRJ), Marcela Lanius (PUC – Rio), Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

clariceana 2018

Annual Clarice Lispector's Researchers Meeting


Sptember 4th, 5th and 6th
Faculdade de Letras da UFRJ | Auditório E3

Projeto Fortuna — Laboratório de Edição
Clarice Lispector's Page
PPG em Ciência da Literatura UFRJ

From september 4th to September 6th, 2019, the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ) will host the second Clariceana - annual Clarice Lispector's Researchers Meeting at Faculdade de Letras. The congress aims at gathering researchers and readers of the Brazilian writer Clarice Lispector, creating room for dialogue and stimulating discussions and exchange of information about Clarice Lispector's studies. Brazilian researchers Clarisse Funkeman (PUC-Rio), João Camillo Penna (UFRJ) and Nadia Batella Gotlib (USP/ CNPq) will be giving speeches. Besides, the participation of researchers from all over the world is expected for paper presentations. This congress is organized by Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura (UFRJ) and Projeto Fortuna.

Papers can be submited up to July 14th. Proposals must be no longer than 500 words and contain 5 keywords. Paper proposals will be evaluated by the scientific committee whose participants are listed below. Propositions must be sent by e-mail (clarice.lispector.fortuna@gmail.com) or form.

Committee:

Lucas Cavalcanti (UFRJ), Leyliane Gomes (UFRJ), Ricardo de Souza (UFRJ)

Scientific Committee:

Clarisse Fukelman (PUC-Rio), Flavia Trocoli (UFRJ), João Camillo Penna (UFRJ), Leilyane Gomes (UFRJ), Marcela Lanius (PUC–Rio), Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

clariceana 2018

Reunión Aual de Investigadores de Clarice Lispector


04, 05 y 06 de septiembre
Faculdade de Letras de UFRJ | Auditorio E3

Projeto Fortuna — Laboratório de Edição
Sitio de Clarice Lispector
PPG em Ciência da Literatura UFRJ

Del 04 al 06 de septiembre de 2019, la Facultade de Letras de la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ) será la sede de la segunda Clariceana - reunión anual de investigadores de Clarice Lispector. El congreso tiene como objetivo reunir investigadores y lectores de la escritora brasileña Clarice Lispector, creando un espacio para el diálogo sobre su obra además de estimular discusiones y el intecambio de informaciones sobre los estudios clariceanos. Los investigadores brasileños Clarisse Funkeman (PUC-Rio), João Camillo Penna (UFRJ) and Nadia Batella Gotlib (USP/ CNPq) serán conferencistas. Esperase que investigadores del mundo todo presenten ponencias. Este congreso es organizado por el Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura (UFRJ) y Projeto Fortuna.

Propuestas de ponencia pueden enviarse hasta el 14 de julio. Los resúmens no deben tener más de 500 palabras y contener 5 palabras clave. Las propuestas en papel serán evaluadas por el comité científico cuyos participantes se enumeran a continuación. Las propuestas deben enviarse por correo electrónico (clarice.lispector.fortuna@gmail.com) o formulario.

Commité organizador:

Lucas Cavalcanti (UFRJ), Leyliane Gomes (UFRJ), Ricardo de Souza (UFRJ)

Comité científico:

Clarisse Fukelman (PUC-Rio), Flavia Trocoli (UFRJ), João Camillo Penna (UFRJ), Marcela Lanius (PUC – Rio), Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

Clariceana 2019

Encontro de pesquisadores de Clarice Lispector

04, 05 e 06 de setembro

Programação

Faculdade de Letras da UFRJ ― Auditório E3

Av. Horácio Macedo, 2151 ― Cidade Universitária, Rio de Janeiro

Com conferências de Nadia Gotlib (USP/CNPq) (04/09), João Camillo Penna (UFRJ) (05/09) e Clarisse Fukelman (PUC-Rio) (06/09)

Organização

Lucas Cavalcanti (UFRJ)
Leyliane Gomes (UFRJ)
Ricardo de Souza (UFRJ)

Comitê Científico

Clarisse Fukelman (PUC-Rio)
Flavia Trocoli (UFRJ)
João Camillo Penna (UFRJ)
Marcela Lanius (PUC – Rio)
Ricardo Pinto de Souza (UFRJ)

04-09 ― quarta-feira

04/09 | quarta-feira

9h30

Olhares sobre Macabéa

Bianca Soares Rocha (UFRRJ) |A hora do espelho de Macabéa: o reflexo do auto-desconhecimento de uma nordestina.

Obra de uma construção narrativa em que o ponto principal de sua vida é a sua morte, Macabéa possui poucos ou quase nenhum atrativo, pois, sendo dona de uma pele amarelada e encardida e de um cheiro “morrinhento”, o que há de mais atraente na personagem é seu próprio desconhecimento, sendo tal desconhecimento sobre o mundo, o amor, as relações e sobretudo o de si mesma enquanto mulher. No primeiro embate entre a personagem e o espelho, Macabéa e o narrador, Rodrigo S.M são transformados em um só, a partir do momento em que ele se assemelha a ela, conectados devido as suas heranças nordestinas. Ítalo Moriconi, em seu ensaio “A hora do da estrela ou A hora do lixo de Clarice Lispector” (2003) descreve a personagem como “uma caricatura de um nordestino”, concebendo os nordestinos na literatura brasileira como “pobres, excluídos, periféricos, seres provenientes de um Brasil arcaico em relação ao país surgido desde fins do século XIX”, desse modo, Macabéa é sobretudo a caracterização de uma mulher do nordeste que carrega dentro dela mesma o não reconhecimento social do nordestino e da mulher. Macabéa, é a tradução de uma mulher que ao olhar no espelho tem uma impressão assustadora de uma vida em que, quanto mais preenchida de ausências, mais significa diante do olhar do outro. Diante do espelho, a única vez em que Macabéa permite a si mesma um olhar mais humano é quando está afastada de todos os outros seres, no momento de solidão em seu quarto. Tal trecho em diz “tomou tudo se lambendo e diante do espelho para nada perder de si mesma. Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia. Acho que nunca fui tão contente na vida, pensou” (Lispector, 1998. p.48), portanto, podemos entender tal momento como o do encontro da mulher nordestina consigo mesma, entendendo que é apenas quando está sozinha que a personagem se permite um olhar de humanidade. Sua morte é seu momento de triunfo, uma hora de luz onde em um breve ato, a estrela que sempre esteve interiorizada em Macabéa recebe a atenção exterior necessária para tornar-se efetivamente humana aos olhares antes desatentos a ela. A mulher, pela sua tragédia e fim, ganha brevemente a atenção de um público e é nesta hora em que seu reconhecimento sobre si mesma ganha mais destaque do que qualquer olhar projetado na frente do espelho, ali percebe que nasceu para a morte e para o futuro que a morte lhe reservara.

Gabriel Chagas (UFRJ) |Triste fim de Clarice Lispector ou A paixão segundo Lima Barreto: a linguagem precária de Macabéa e Clara dos Anjos

Pensando A hora da estrela como ponto máximo de articulação entre a escrita clariceana e a temática social, o presente trabalho almeja discutir a noção de subalternidade a partir das obras Clara dos Anjos, de Lima Barreto, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Nessa leitura comparativa, será dado enfoque à questão da exclusão dentro do discurso hegemônico, partindo do princípio de que os dois ficcionistas construíram obras cujo cerne é a formação do Outro, na acepção dada pela crítica indiana Gayatri Spivak (SPIVAK, 2010) e pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. (MBEMBE, 2014) Dessa maneira, o trabalho se baseia numa leitura de ambos os textos, destacando as intempéries vividas por Macabéa “em uma cidade toda feita contra ela” (LISPECTOR, 1998, p. 15) e Clara dos Anjos nos subúrbios do Rio de Janeiro, “o refúgio dos infelizes” (BARRETO, 2012, p. 188). Diante da luta desses corpos, partimos do princípio de que os discursos de Macabéa e Clara estão atrelados, respectivamente, às condições de uma mulher nordestina em uma cidade que lhe era estranha e ao desafio de uma jovem negra suburbana em um Rio de Janeiro que a queria apagar. São, portanto, frutos de um enquadramento dentro da concepção da filósofa norte-americana Judith Butler, segundo a qual “os sujeitos são constituídos mediante normas que, quando repetidas, produzem e deslocam os termos por meio dos quais os sujeitos são reconhecidos.” (BUTLER, 2017, p. 17) Nesse sentido, submetidas a territórios de exceção que as limitam à realidade de uma vida precária, (BUTLER, 2017) almeja-se discutir a resistência das duas protagonistas no que diz respeito àquilo que Lilia Schwarcz intitula de marcadores sociais da diferença, aspectos dentre os quais se destacam cor, gênero e lugar de origem. (SCHWARCZ, 2017). Assim, o objetivo desta pesquisa é tecer uma leitura em torno dos dois autores brasileiros, enfocando, sobretudo, a relação das protagonistas de Clarice Lispector e Lima Barreto com a linguagem. Pretendemos, com isso, investigar os pontos de convergência e divergência entre A hora da estrela e Clara dos Anjos no que tange à tentativa dessas personagens em elaborar uma linguagem que lhes fosse própria, dado que “existe na posse da linguagem uma extraordinária potência.” (FANON, 2008, p. 34) Para tanto, contaremos com um arsenal teórico advindo da tradição pós-colonial, tais como Gayatri Spivak, Achille Mbembe, Frantz Fanon e Aimé Césaire. Ademais, no intuito de discutir a relação entre raça e gênero, contaremos com os escritos de Judith Butler, Sueli Carneiro, Angela Davis e Abdias Nascimento.

11h

Pontos de fuga

Ana Paula Araujo dos Santos (UERJ) |“Estou sozinha no mundo!”: horrores femininos em “Preciosidade” (1960), de Clarice Lispector

Na literatura, o Mal parece ser uma realidade incontornável: do século XVIII até a contemporaneidade é possível reconhecer uma tradição ficcional que não está interessada na beleza, na bondade, nas virtudes ou nos sentimentos positivos, mas, pelo contrário, se especializou em retratar as atrocidades e os horrores aos quais estamos expostos em nosso cotidiano, em nossa sociedade. Essa literatura de cunho negativo investe nos efeitos do medo e de seus correlatos – o terror, o horror e a repulsa – produzidos pela estetização de pessoas, lugares, eventos e tempos maus. Na literatura de língua inglesa, esse tipo de ficção contou com escritores como Matthew Lewis, Bram Stoker, Edgar Allan Poe, mas, também, com a contribuição de um número significativo de escritoras. Ann Radcliffe, Shirley Jackson, Charlotte Gilman são apenas alguns dos nomes mais conhecidos de uma vertente feminina que se destacou, sobretudo, por tematizar as ansiedades e os perigos enfrentados pelas mulheres em um mundo que raramente se mostra favorável a elas. A literatura brasileira não se furtou a retratar o Mal em suas narrativas, como atestam as obras de escritores oitocentistas, como José de Alencar, João do Rio, Cornélio Penna, e, também, de escritoras como Maria Firmina dos Reis, Emília Freitas e Júlia Lopes de Almeida. Nesses termos, o presente trabalho pretende estabelecer relações entre a obra de Clarice Lispector e esse viés feminino da literatura do Mal no Brasil. Para esse feito, propomos uma análise do conto “Preciosidade”, publicado na antologia "Laços de Família" (1960). Acreditamos que, ao retratar o assédio sofrido por uma jovem estudante no caminho de volta para a casa, Lispector tenha dado continuidade, no século XX, às temáticas relacionadas aos horrores que ameaçam o feminino. Dessa forma, pretendemos, com o presente trabalho, não apenas adicionar uma nova perspectiva de análise à obra da escritora, mas, principalmente, entender como a maldade foi ficcionalizada na literatura brasileira do século XX.

Leyliane Gomes (UFRJ) |Duas vezes Clarice: as cartas como lentes de leitura para O lustre

Em 21 de abril deste ano, no site do jornal O Globo, o jornalista Lauro Jardim anunciou que “A Rocco prepara um presente para os leitores de Clarice Lispector: um livro com centenas de cartas inéditas da escritora.”, o qual só será lançado em 2020, ano do centenário de nascimento de Clarice. Ainda segundo o jornalista, “nem mesmo o maior biógrafo de Clarice, Benjamin Moser, teve acesso a esse material”. Embora curto, o anúncio de Lauro Jardim permite, mais uma vez, entrever, sobretudo com esse último trecho, o mistério que cerca essa escritora tão consagrada no Brasil e no mundo, tão estudada e tão divulgada hoje nas redes sociais ainda que por frases de cuja autoria se deve duvidar; afinal, nem mesmo o homem responsável por levar Clarice para o mundo estrangeiro tem conhecimento das cartas que serão publicadas. A despeito desse véu de mistério que recobre Clarice, a notícia de publicação de cartas inéditas não só causa curiosidade em leitores e pesquisadores de sua obra, mas também lança luz às cartas já publicadas da escritora e à relação destas com sua obra literária, principalmente com seus romances, uma vez que, das correspondências que se tem conhecimento, em muitas, Clarice fala sobre a escrita de seus livros, bem como convoca seus interlocutores a ajudá-la nesse processo. Em carta a seu amigo, e também escritor, Lúcio Cardoso, escrita em meados de setembro de 1944, Clarice comenta a respeito de seu segundo livro: “meu livro se chamará O LUSTRE. Está terminado,”; até aqui, apenas uma notícia, porém, logo depois, a própria remetente parece revelar uma contradição ao dizer: “só que falta nele o que eu não posso dizer.”. Em seguida, em uma tentativa de dizer de O lustre, Clarice, como em muitos de seus romances, constrói uma comparação: “Tenho a impressão de que ele já estava terminado quando eu saí do Brasil; e que eu não o considerava completo como uma mãe que olha para a filha enorme e diz: vê-se que ainda não pode casar. Mas é preciso que ela case e que eu fique sozinha olhando flores e passarinhos, sem uma palavra.”. Se se tomar a carta, com Jacques Derrida, como uma espécie de arquivo que se faz, ao mesmo tempo, guarda e potência, essa escrita íntima de Clarice, para além de um endereçamento de notícias de quem está distante, instiga questionamentos a respeito da relação das cartas da escritora com sua obra, dentre os quais se destaca: lidas junto aos textos literários, seriam as cartas lugar de criação e, portanto, fundamentais para a leitura da produção literária clariceana, ou seriam as cartas apenas sua antecâmara? Nessa direção, este trabalho tem por objetivo selecionar algumas cartas de Clarice nas quais haja referência ao romance O lustre e construir uma leitura conjunta entre romance e cartas que possibilite, minimamente, elaborar os possíveis sentidos do trecho “não o considerava completo”, como utiliza Clarice em carta para se referir ao romance, a partir do significante que o intitula: lustre.

Valber E. L. Cordeiro (UFRRJ) |Clarice Lispector e Virginia Woolf: algumas indagações comparativas

Este trabalho tem como objetivo investigar as possíveis relações comparativas entre as Clarice Lispector e Virginia Woolf. Para isso, realizar-se-á uma leitura comparativa entre romances A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector, e A Viagem (1915), de Virginia Woolf, uma leitura psicanalítica e focada na construção das personagens Macabea e Rachel Vinrance. pressuposto teórico, teremos Antonio Candido (2011), que nos apresenta três constituintes de um romance: as ideias, o enredo e as personagens. Estas últimas seriam o vetor dos escolhidos pelo sujeito a serem vivenciados dentro da trama. A partir dai, o processo de é obtido, garantindo outros processos como os de identificação, projeção e, o que justamente embasa o caráter verossímil da obra. Além disso, o crítico nos diz a personalidade humana influenciaria no processo de composição das personagens dos, apesar de, na vida cotidiana, a percepção humana sobre o outro seja fragmentada e na tal percepção esteja embasada em conjecturas oriundas da técnica criadora do escritor. No do século XX, as personagens dos romances são denominadas personagens de natureza e de costumes, estando em consonância com as personagens do século XVIII. As de possuem características bem delimitadas pelo sujeito, levando o leitor a fixar os traços e relembrá-los sempre que ela surge em cena, enquanto as de natureza são compostas a partir de superficiais e mutáveis ao longo do enredo. Portanto, é de nosso interesse identificar quais desses elementos estão presentes nas obras estudadas e as suas possíveis evoluções ao longo do tempo, tendo em vista que uma obra é escrita no início do século XX, enquanto a outra na segunda metade do mesmo século. Pretendemos desenvolver nosso trabalho sob a luz do discurso da psicanálise freudiana, que analisa com profundidade a personalidade humana. Além disso, nos interessa a investigação sociocultural acerca dos fatos que envolvem as personagens, bem como os possíveis questionamentos morais e existenciais possibilitados pelo estilo de escrita de ambas as autoras. Clarice, em A Hora da Estrela (1977), aplica a técnica do fluxo de consciência, amplamente explorada por Virginia Woolf em suas obras, apesar de A Viagem (1915) ser caracterizado como um romance experimental, o primeiro da autora, o fluxo de consciência aparecede forma sutil e discreta. Macabea e Rachel Vinrance estão separadas por um grande abismo sociocultural e econômico: enquanto Rachel é oriunda de uma família rica londrina, Macabea é datilógrafa e está no Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor para si mesma. Outro aspecto que salta aos olhos do leitor é o da diferença entre as mortes das personagens. Macabea é morta por um automóvel Mercedes-Benz, já Rachel, após uma caminhada com seus amigos em uma floresta tropical, é morta por uma febre tifo. No mais, a questão da morte parece ser cara às autoras. Em Clarice, percebemos que a vida acaba com a morte, já em Virginia a morte seria transcendental – apesar das queixas das personagens sobre a falta de continuidade dos processos existenciais.

14h

Conferência

Nádia Batella Gotlib (USP) | Clarice Lispector hoje: repertório, a crítica

16h

O nome, o inconsciente e a voz

Marcia Luisa Bastilho Gonçalves (PUC-RS) |Me deram um nome e me alienaram de mim: a importância do nome em Clarice Lispector

O trabalho pretende analisar elementos em Água viva (1973) e Um sopro de vida (1978) que versam a respeito da busca pelo nome original, a primeira coisa, o atrás do pensamento. Na tentativa de Clarice Lispector de capturar o instante em movimento, a palavra no momento em que se escreve, o instante-já, cria-se um paralelo com a “imediatidade de toda comunicação espiritual” de Walter Benjamim em seu texto Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem, do livro Escritos sobre mito e linguagem (2011). Trazendo, também, certa questão biográfica da autora ao ter tido seu nome trocado para uma versão abrasileirada ao migrar-se com a família quando criança da Ucrânia para o Brasil, há uma análise, através das obras da autora citadas anteriormente, a respeito da importância do nomear pessoas e coisas; se é, a partir da nomeação, que se começa a existência ou se, ainda, a essência estaria no próprio nome. Outro paralelo a ser feito é a ideia de essência espiritual explicada por Benjamin com o conceito de it de Clarice.

Michelle Pastorini (UFRJ) |O inconsciente leitor – na margem da literatura e da psicanálise

A proposta desta comunicação é a de trabalhar na margem da literatura e psicanálise, no ponto em que supomos um encontro. A escrita, bem como o que se fala em uma sessão, são ambas da ordem de um texto e adquirem corpo textual no ponto mesmo em que são lidos, escutados. O que sustenta teoricamente a hipótese desta intercessão é o ensino de J. Lacan, que estabelece o inconsciente como estruturado como linguagem. Assim, um ato falho é uma irrupção da cadeia associativa, em que se revela o oposto do que intencionou dizer. A escrita, enquanto trabalho com a palavra, surpreende em sua função de criação, ao fazer com o que escritor se depare com desvios de percursos narrativos, em que terá que se reconhecer nesse estranho familiar. Observamos no texto de C. Lispector, o exercício hercúleo, doloroso, de tentar dar um nome que balizaria esta errância. Em A paixão segundo G.H., atestamos que busca tal nomeação na linguagem, e é também nela que se depara com o impossível de nomear. Assim, consideramos que se trata do trabalho mesmo de uma análise, um trabalho em torno da palavra que não há, na medida em que não há nome para o trauma. É um trabalho em torno da palavra que não existe.

Thaís Almeida Faísca de Souza (UFF) |O diálogo entre vozes em Clarice Lispector

As discussões mais aclamadas pelos estudiosos de literatura, como aquelas feitas por Barthes e Foucault sobre a complexidade da categoria autor, ajudaram a enfraquecer a ideia de que o autor é o narrador do texto, pois considerá-lo como mero personagem é desconsiderar a existência, antes de se tornar palavra, de uma matéria literária pertencente a um campo ainda abstrato, alcançado pela (sub)consciência de uma persona autor, não sendo exatamente a do homem social, mas que pode dialogar com ela. Sob essa perspectiva será desenvolvida a análise de "Um Sopro de Vida (pulsações)" (1978), livro póstumo de Clarice Lispector, visto que nele há certa tentativa de materialização da persona autor, por meio de um desdobramento reflexivo sobre a criação da personagem Ângela. Mesmo havendo algumas referências a sua vida social, o criador de Ângela tem seu nome substituído pela palavra “autor”. Tal impessoalização pode ser entendida como forma de demonstrar o afastamento, ainda que sútil, do caráter assumido no ato criativo da personalidade do homem comum do cotidiano. Tem-se como tênue essa separação para não mistificar a produção artística, já que uma imagem não anula a outra. Por não haver essa anulação, diálogos entre a vida pessoal do autor e sua obra podem ser desenvolvidos. Sendo assim, ler “Todos nós estamos sob pena de morte. Enquanto escrevo posso morrer. Um dia morrerei entre os fatos diversos” (LISPECTOR, 1978, p.24), considerando o contexto em que foi escrito, é quase escutar a voz da própria Clarice. A possível presença da Clarice que existe por detrás da autora é também inferida em seus livros voltados ao público infantil. Neles, Lispector permite a atribuição de seu próprio nome à narradora de "A mulher que matou os peixes" (1968) e à tradutora, em "Quase de verdade" (1978), dos latidos de Ulisses – personagem que compartilha características com o cão de estimação de Ângela, em "Um sopro de vida", possuindo também o mesmo nome do último vira-lata adotado por Lispector. Tal atitude suscita a ideia de que o ser autor e o homem social podem coexistir durante e depois do processo da escrita. Desse modo, encontrar vestígios de pessoalidade, não faz um livro ser, necessariamente, autobiográfico.

05-09 ― quinta-feira

9h30

O processo da escrita Clariceana

Marcela Gomes de Aguilar Cruz (UFMG) |Clarice Lispector e seu processo criativo de escrita: “eu só gosto de escrever quando me surpreendo”

O artigo propõe uma articulação entre o processo de criação de escrita de Clarice Lispector com as proposições em torno do gozo místico propostas pelo psicanalista Jacques Lacan em seu 'O Seminário 20, mais, ainda'. Para tal articulação, nos servimos das elaborações lacanianas em torno da noção de letra presente em seu texto 'Lituraterra', no 'O Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante'. Esse recorte é priorizado ao levarmos em consideração a linguagem como aparelho de gozo. Essa consideração permite admitirmos que a escrita, ao colocar em funcionamento uma prática da letra, nos dá acesso à linguagem como gozo. Nos detivemos em localizar uma diferença fundamental entre literatura feminina e escrita feminina a partir de articulações propostas por Lúcia Castelo Branco (1991) acerca desse tema. A escrita de Clarice Lispector, ao testemunhar uma experiência com o indizível, com o inominável, parece nos apontar para um trabalho da escritora com o gozo feminino, com esse gozo – articulado por Lacan – como o gozo que toca o não-todo fálico. Indo um pouco além, procuramos articular o gozo místico, como uma das formas de expressão do gozo feminino, como uma marca presente na escrita clariceana. Salientamos que a aproximação de Clarice Lispector às místicas não é uma aproximação inédita. Partindo de uma entrevista concedida pela escritora à Isa Cambará, na Revista Veja, datada de 30 de julho de 1975, lemos: “Um crítico de Le Monde já disse certa vez que o estilo de Clarice Lispector lembra o de Santa Teresa d’Ávila. O crítico paraense Benedito Nunes, num de seus ensaios, também compara Clarice com a autora de “A Sétima Morada”. Outros especialistas, ainda mais místicos sugerem tratar-se, mesmo de uma escritora bafejada pelo Espírito Santo”. A pergunta que o artigo pretende responder, portanto, é: qual a relação entre o gozo místico e a escrita como um modo de pensar a Outra satisfação em Clarice Lispector? Na entrevista acima citada, dispomos de elementos para defender a hipótese de que Clarice Lispector nos dá mostras, tanto pela localização de trechos recortados da sua obra (dos quais nos valemos na escrita do artigo), quanto em suas respostas às perguntas feitas na entrevista acima, de que a surpresa é algo que marca seu processo criativo. Ela fala, certa vez, que: “Por exemplo, de tarde no trabalho ou na faculdade, me ocorriam ideias e eu dizia: “Sem perceber ainda que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita.(...)”(ROCHA, 2011, p.130-131) . Na entrevista citada acima (Revista Veja, 1975) ela diz também que “Às vezes, elaboro um trabalho durante anos, sem sentir. O único sintoma são as frases que me vêm de repente, já prontas, no táxi, no cinema ou no meio da noite, revelando que algo está crescendo em mim.” . Seria essa ‘surpresa’ descrita por Clarice Lispector como necessária em seu processo de escrita um elemento que nos permite fazer uma aproximação entre sua escrita com o gozo místico?

Patrícia Ferreira Alexandre de Lima (UFPR) |Rodrigo S.M. como estratégia narrativa do autor-implícito de A hora da estrela

É um lugar-comum da análise crítica de A hora da estrela atribuir a voz autoral do autor-implícito à Clarice Lispector, escritora, em virtude de esta ter residido no Nordeste com seus parentes quando vieram embora da Ucrânia para o Brasil. Propomos com este trabalho uma análise a partir do conceito de autor-implícito inaugurado por Wayne Booth segundo o qual o escritor cria para cada obra sua um autor-implícito específico que em primeira ou terceira pessoa, conforme a sua escolha, anunciará ao leitor sua narrativa. Assim, sem descartar a possibilidade de a escritora Clarice Lispector, em virtude das suas experiências pessoais, pretender em A hora da estrela uma exposição do Nordeste brasileiro, pois ela mesma afirmou em entrevista que precisava: “botar para fora um dia o Nordeste que eu vivi”, o que estamos pontuando é que essa exposição não se dá de forma direta: Clarice Lispector escritora, mas por meio do autor-implícito que essa cria. Nossa hipótese, portanto, é que o narrador-personagem, Rodrigo S.M., agente e objeto da ação, sujeito da enunciação e sujeito do enunciado, flagrado ao longo da narrativa em contradições constantes e caracterizado como pouco digno de confiança, sendo este mais um conceito de Booth, constitui-se como a perfeita estratégia para o autor-implícito da narrativa anunciar, em suas entrelinhas, o que não está expresso no texto e que se refere à Macabéa, caracterizada de forma nordestinizada por Rodrigo S.M., mas tendo essa forma questionada no interior da narrativa. Em nossa análise relacionaremos alguns teóricos, que nos levaram a formular a hipótese que estamos construindo, diferenciando o autor-implícito do narrador e procurando compreender o ponto de vista segundo cada uma dessas vozes autorais ditam suas perspectivas na narrativa e ainda, como essas vozes se relacionam com a personagem Macabéa.

11h

Perspectivas dos contos de Clarice Lispector

Carolina Lobo Aguiar (UFRO) |Entre o sonho e a violência: a imagem da mulher e a transgressão poética na obra de Clarice Lispector

A partir de uma narrativa da obra intitulada A via crucis do corpo (1974), considerada como obra destaque dentre os livros publicados de Clarice Lispector, este trabalho analisa o conto “A língua do P” (1974), sob uma visão crítica em relação às contradições da modernidade nacional, presentes na literatura brasileira, além das marcas da violência contra a mulher, sejam elas físicas, psicológicas e até mesmo sexuais, as quais estão explicitamente presentes na narrativa. Tendo em vista essas características, avaliaremos o conto citado como um mecanismo para expor a condição feminina através de conceitos em volta da teoria da modernidade, expressando um confronto entre a tradição e a ruptura; a violência e a forma de narrar o conto. Entre outras, resgataremos os conceitos e reflexões sobre a modernidade de Marshall Berman (1940-2013), o contexto histórico sob a perspectiva da violência na literatura contemporânea brasileira, utilizando Jaime Ginzburg (2012), além da recontextualização de alguns conceitos presentes na obra de Hugo Friedrich, intitulada “Estrutura da Lírica Moderna” (1904-1977). Assim, serão discutidas algumas visões críticas, teóricas e sociais, a fim de proporcionar uma melhor compreensão sobre a imagem da mulher que está sendo construída através da literatura moderna feminina, que propõe, acima de tudo, a questão da igualdade de gênero e principalmente o reconhecimento da mulher na sociedade moderna.

Lucas de Aguiar Cavalcanti (UFRJ) |Últimas histórias de Clarice Lispector

Ao falecer em 1977, Clarice Lispector deixou alguns textos inacabados ou não revisados que haviam sido produzidos no final de sua vida. Dentre esses textos, estão os contos “A bela e a fera” e “Um dia a menos” reunidos por Olga Borelli e publicados em 1979. Este trabalho pretende realizar uma leitura desses dois contos produzidos no final da vida da autora e não revisados por ela, relacionando-os a temáticas centrais na obra clariceana. Em “A bela e a fera”, a protagonista Carla é uma burguesa que experimenta uma hora de tédio em uma calçada de Copacabana enquanto aguarda seu motorista. É durante essa hora que ela encontra o mendigo com a perna ferida, estabelecendo um jogo de identificação e afastamento com a figura desagradável do homem miserável. No segundo conto da coletânea, “Um dia a menos”, o tédio de uma mulher que não tem com que ocupar seus dias também movimenta a narrativa. Margarida Flores, uma pensionista de classe média, passa os longos dias em casa esperando que o telefone toque. Isolada em seu mundo solitário, ela só é capaz de estabelecer sua identidade quando está à beira da morte. A despeito das diferenças de classe social e do ambiente em que se encontram, as duas mulheres tem suas vidas marcadas pelo tédio e pelo vazio. O tédio e a solidão da mulher burguesa e de classe média são temas recorrentes da obra clariceana, desenvolvidos em contos como “Amor” e “A imitação da rosa”. Os últimos contos escritos por Clarice nos permitem ler a abordagem desse tema no final da vida da autora. Cabe pensar, portanto, em que resulta o excesso de energia não investida das personagens em cada conto. Pergunto ainda: seriam os contos inacabados, com suas falhas na narrativa e sua forma divergente do estilo construído pela própria Clarice, uma ferida aberta no corpus da autora? Em que a Clarice do final dos anos 1970 difere do estilo desenvolvido pela própria autora nas décadas anteriores?

Thays Freitas De Almeida Pena (UFF) |O revés judaico nos contos de Samuel Rawet e Clarice Lispector

A relação com o judaísmo foi penosa tanto para Samuel Rawet, quanto para Clarice Lispector. Ser judeu faz-se uma questão sensível para os autores. Amós Oz aponta que uma frase que inicie com “nós judeus” é controversa, pois determinar quem é ou não judeu é uma atribuição falha e delicada. Sendo assim, esta pesquisa apresenta de que forma essa relação torna-se árdua para os autores. Perscrutando também de que maneira ocorre a experiência judaica nas trajetórias pessoais dos autores e como esse fator aparece nos contos de Laços de família e Contos do imigrante. Utilizo como aporte teórico principalmente os textos de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger, Berta Waldman, Nelson Vieira, Rosana Kohl Bines, entre outros estudos que fundamentaram as análises realizadas. Contudo, ressalto que estas marcas judaicas aparecerão de maneiras diferentes em cada autor. Logo, o ato de tipicar os autores em uma religião ou forma de pensar é estreitar as suas escritas, tornando-as parcas, algo totalmente oposto à magnitude de suas formas de ficcionalizar, uma vez que os autores experienciaram a cultura judaica de forma individual e singular.

14h

Conferência

João Camillo Penna (UFRJ) | Macabéa enfim liberta?

16h

Os limites do literário e do humano

Brayan de Carvalho Bastos (UFRRJ) |"Menos que humana", ou A antropologia difícil de Clarice Lispector

Com a necessidade de estabelecer novos parâmetros para caracterizar a experiência humana, o entrecruzamento entre saberes diversos tem sido utilizado como ferramenta indispensável no resgate do conceito de Humano, seja no sentido de reencontrar certa tradição de pensamento ocidental, mas principalmente no de reinscrever a própria ideia de humanidade diante de uma crise política, ambiental e epistemológica de proporção global. Reconhecendo na literatura de Clarice Lispector a potência de pensamento suficiente e necessária para contribuir com a edificação de uma imagem não dogmática da existência e da experiência humanas, alguns pesquisadores propõem uma aproximação transversal da autora com temas próprios à antropologia, como proposto por Alexandre Nodari (2015) e, mais notadamente, Evando Nascimento (2012). Nesse sentido, o livro A paixão segundo GH parece representar um momento notável da literatura de Clarice, em que são colocadas de maneira particularmente explícitas algumas compreensões da escritora sobre o que significam conceitos centrais desse debate e sobre como esses termos se interpenetram de modo a constituir uma noção de antropologia que tem como ponto de partida não o eu, o ser vivo ou o humano, mas a despersonalização, o estar vivo e a ideia de um ultrapassamento não excludente. A partir desse repertório conceitual singular, a escritora posiciona a questão humana como uma experiência sempre limítrofe, em que sempre se está aquém ou além das demarcações epistemológicas consagradas ao longo do pensamento ocidental, ao mesmo tempo que compreende a necessidade de uma entrega a esse terreno desconhecido onde se dissolvem a identidade antropológica pela via da linguagem e o próprio entendimento humano sobre o Humano.

Regiane Aparecida de Oliveira Souza (UFJF) |Clarice Lispector: um sopro entre o literário e o filosófico

Numa escrita escorregadia entre o literário e o filosófico, a obra Um sopro de vida – Pulsações, último romance de Clarice Lispector, escrito entre 1974 e 1977 e publicado postumamente, em 1978, busca “pulsar” a vida através do "sopro da palavra", numa clara alusão ao título da obra em análise. A vida do narrador se mantém enquanto a palavra se faz materialidade sobre o papel compondo a obra. Assim como entre as palavras há espaços vazios, também é comum encontrarmos pausas na existência do narrador que se forma a partir da e na linguagem. O enredamento reflexivo dessa obra, graças a um narrador-personagem que identifica-se como Autor e nos apresenta Ângela Pralini, a quem escolheu para que, através dela e de si, pudesse “entender essa falta de definição da vida.” (LISPECTOR, 1999, p. 19), faz desta obra clariceana um romance que nos revela uma temática marcadamente existencial. Clarice procura muito mais interrogar o mundo e nele a própria condição humana do que simplesmente narrar e contar histórias apenas imagináveis. Sob este prisma, a autora pode ser definida como uma ficcionista-filósofa, já que, ao longo de seu percurso criativo, buscou incansavelmente compreender-se e explicar-se na existência, apesar de reconhecermos Clarice, nas palavras de Olga de Sá, não um filósofo, um pensador, mas uma escritora, fundamentalmente comprometida com o ser sob linguagem; ou melhor, com a linguagem espessura do ser." (Sá, 1979, p. 19) É consensual o enriquecimento filosófico que Clarice trouxe à própria linguagem literária, apesar de sabermos que ela nunca esteve preocupada em fazer de sua arte um instrumento deliberado com a intenção de se veicular literatura e filosofia, mas seu intuito artístico deve ser explicado pela necessidade vital de compreender a si mesma e ao mundo que a cercava e não por uma preocupação intelectual de defender alguma ideia filosófica.

Sandra Elizabeth Silva De Barros (UFJF) |Olhar os animais em Clarice Lispector

Alguns autores e autoras brasileiros já demonstraram seu apreço pelos animais inserindo-os em alguns de seus livros. Dentre eles, Clarice Lispector possui algumas obras tendo eles como protagonistas. Em seu livro A descoberta do mundo no texto Bichos (I) ela descreveu seu olhar de como o homem pode lidar com o animal. No conto O Búfalo a escritora novamente utiliza o animal para narrar a história de uma mulher que, com o término de um relacionamento, vai ao zoológico tentar encontrar o ódio instaurado com o fim dessa relação. Ela busca em todos os animais e não encontra o ódio tão procurado, mas nos olhos do búfalo identifica algo que lhe toca. Em outro conto da autora intitulado Uma galinha temos a história do almoço de domingo de uma família onde percebemos o descaso do homem pelo animal. Para a literatura infantil, Clarice Lispector escreveu um texto que pode ser encontrado em seu livro Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras, nele a autora acrescentou o texto Como apareceram os bichos, que conta uma lenda sobre como foram criados os animais. Esses textos são alguns exemplos de como Clarice tinha uma grande afeição por essas criaturas. Os animais contidos nas histórias apresentadas atestam que a representação animal vai muito além do uso desses seres apenas para demonstração de apreço do homem pelos bichos. Eles comprovam a importância do uso de suas representações na literatura. O animal como personagem é uma construção cujos primeiros registros datam de 620 a. C. Isso leva a crer que há, de fato, certa tradição nesse tema que, apesar disso, longe está de ser esgotado, uma vez que ainda é frequente na literatura brasileira de escritores contemporâneos. A representação dos animais literariamente passou a ter um conteúdo mais científico desde o século XVIII e sua reflexão crítica se faz presente a partir do século XX. Existem hoje, diversas maneiras de representação dos bichos na literatura ocidental, levando-nos a perceber que esse campo é bem propício para um estudo científico. Deste modo, para a presente comunicação, serão utlizados alguns conceitos científicos que fazem referência aos animais e a literatura sobre animais, apresentados por Maria Esther Maciel, Jacques Derrida, John Berger, Eneida Maria de Souza, John Maxwell Coetzee, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Márcio Seligmann-Silva. No presente estudo estaremos perfazendo o olhar de Clarice Lispector perante o animal, tema pertinente à zooliteratura, pois a autora insere em seus escritos a representação do animal e com eles demonstra a importância da personificação desses bichos para a elaboração de seus trabalhos. Neles, esse ser é visto como forma de representação de suas inspirações, fazendo-a enxergar o animal como peça-chave para a elaboração de seus escritos. A representação desta zooliteratura induz a perceber as obras não só pelo seu caráter literário, que é muito rico, mas, sobretudo, pela visão animal. Desta forma, o objetivo principal desta pesquisa é, no contexto da zooliteratura, considerar as peculiaridades autorais por meio das quais Clarice Lispector escreve sobre animais.

06-09 ― sexta-feira

9h30

Expansões

Dayana Loverro (USP) |A presença da literatura clariceana na Itália

De acordo com estudos, as obras literárias brasileiras ocupam um espaço de menor representatividade no contexto internacional. No entanto, autores como Jorge Amado, Machado de Assis e Clarice Lispector mantiveram índices crescentes dentre o número de obras brasileiras traduzidas e publicadas no exterior – mesmo que a participação da literatura brasileira no sistema literário traduzido apresente determinada alternância de autores e gêneros literários. Nas últimas décadas, a perspectiva italiana sobre os aspectos culturais e literários brasileiros tem passado por mudanças, constituindo-se de modo bastante diferente das impressões observadas em períodos anteriores. Com a intensificação do contato do público italiano com a cultura brasileira a partir dos aos 60 e 70, o número de obras literárias traduzidas na Itália aumentou, sendo que o mesmo pequeno grupo de autores mencionados representa até os dias atuais grande parte da literatura brasileira traduzida naquele país. Sabe-se que a obra de Clarice Lispector alcançou uma expressiva repercussão internacional, originando estudos acadêmicos diversificados sobre a tradução e a recepção dos títulos da autora em diversos países e idiomas. Nessa comunicação, serão apresentadas algumas observações acerca das obras de Clarice Lispector traduzidas na Itália, voltadas à reflexão sobre os diferentes momentos de publicação no país. Considerando-se as teorias dos estudos da Tradução, Estudos Literários, Literatura Comparada e teorias de Recepção, serão ainda comentados alguns trechos selecionados, abordando determinados aspectos tradutórios na relação entre os textos de chegada (em italiano) e de partida (em português).

Yasmin Justo da Silva (UFRJ) |Desejo feminino no corpo silenciado: uma leitura do conto A procura de uma dignidade

O presente estudo propõe uma discussão acerca da representação do desejo sexual feminino em um corpo silenciado pela sociedade patriarcal. Para ilustrar esse debate usaremos como corpus literário o conto A procura de uma dignidade, que compõe o livro Onde estivestes de noite (1999), da escritora Clarice Lispector (1920- 1977). Na narrativa somos apresentados a Sr.ª Xavier que do alto dos seus 70 anos ainda se sente atraída sexualmente: “De novo se emaranhou no desejo que era retorcido e estrangulado” (LISPECTOR, 1999, p.16). Ao longo do conto a autora cria alegorias para que a Sr.ª Xavier se defronte com o prazer, já que ela tem a sua sexualidade reduzida, levando também ao leitor a se questionar o porquê da mulher não ter direito de desejar, mas ser apenas objeto de desejo do sexo oposto: “Como o homem detém poder nas suas relações com a mulher, ele pode ser sujeito do desejo. Não resta a ela senão a posição de objeto do desejo masculino.” (SAFFIOTTI, 1987, p.18). O desenvolvimento das análises será realizado à luz dos estudos de Heleieth Saffioti (1987) e Pierre Bourdieu (2012) para discutirmos as questões de gênero e Walter Benjamin (1987) para dialogarmos com as alegorias presentes no conto.

11h

Escritas do corpo e do olhar

Isadora Bonfim Nuto (UFRJ) |A escrita como água viva ou a escrita como neutrino – escrita, corpo e contato em Clarice e Hilda.

Para o filósofo Jean-Luc Nancy, a escrita é lugar de toque e de contado. O corpo está sempre presente na escrita, pois nela o corpo se excreve e “tocar no corpo, tocar o corpo, tocar, enfim – está sempre a acontecer na escrita”. Se o tocar é o que acontece a todo tempo na escrita, é porque nela há, então, uma dimensão essencial de contato, e o contato é, justamente, aquilo que demando o outro. A escrita, assim, parece demandar esse outro e ser um modo de entrar em contato com ele. Segundo o autor, escrever significa responder a um chamado, ainda que com outro chamado e, ainda, fazer ressoar esse chamado. A ressonância, ou a reverberação, é uma palavra cara a Nancy, e também ela parece ser questão de corpo e de contato, de forma que o corpo, o tocar, o ressoar e o escrever estão necessariamente entrelaçados. Mas Nancy também afirma que escrever é “marcar um encontro”, é “assumir o compromisso do encontro”. É segundo esse pensamento que gostaríamos de relacionar trechos de Clarice e de Hilda Hilst, sobretudo com a obra “Água Viva”, de Clarice, e a entrevista “O sofrido caminho da criação artística”, de Hilda, sem, no entanto, desconsiderar eventuais outros textos das escritoras que tratem da questão. Em “Água viva”, Clarice aponta recorrentemente o lugar do corpo e do outro em sua escrita, demandando, por exemplo, a seu interlocutor que a ouça “de corpo inteiro”, já que é com o corpo todo que ela escreve, já na crônica “Em busca do outro”, ela afirma que o outro é seu porto de chegada; Hilda, por sua vez, na entrevista em questão, cita o neutrino, partícula física que só pode ser detectada “quando colide com outro elemento”, para ela, o ato de escrever se assemelha muito ao neutrino, já que se escreve atravessando corpos até encontrar um elemento de colisão, como afirma a escritora. Nesses e em outros trechos das obras das autoras a questão do corpo, do tocar e do contato com o outro se manifesta de forma patente, o que parece indicar, dessa forma, algo importante do processo de criação e de escrita das duas escritoras, ou seja, a escrita é por elas entendida como um lugar em que o corpo se coloca e em que se entra em comunicação (não necessariamente no sentido de transmissão de mensagem, mas, sobretudo, no sentido de estabelecimento de um encontro) com o outro, o que, como nos interessa mostrar, vai perfeitamente ao encontro do pensamento de Nancy.

Lia Duarte Mota (UFJF) |Ao olhar o búfalo

Em “O búfalo”, último conto de Laços de família (1960), o olhar faz-se o sentido primordial. É por meio dos olhos que a protagonista busca “encontrar-se com o próprio ódio”. Ela entra em um zoológico, no início da primavera. Por essa razão, o texto se inicia com uma conjunção adversativa, pois a protagonista precisa do outro para encontrar o seu sentimento de ódio, mas, no Jardim Zoológico, o que há é a época primeira, o renascimento, o amor dos pares. O olhar é uma experiência íntima, um processo de conhecimento de si e do outro. Ao encontrar os olhos do búfalo, a protagonista coloca em destaque sensações que reverberam em todo o seu corpo, de modo que não mais pode manter-se de pé. O presente trabalho pretende discutir a importância do olhar na escrita de Clarice Lispector, por meio do conto O búfalo”, colocando-o em diálogo com a performance de Marina Abramović, The artist is Present, realizada no MoMA, em 2010. Nela, a artista permaneceu sentada oito horas por dia, durante três meses, em uma cadeira, encaixada em uma mesa de madeira, com uma cadeira vazia à frente, ocupada pelos visitantes do museu, que se tornavam, ao sentarem-se, participantes do trabalho. A longa performance – que colocava o corpo da artista no seu limite diário – seria uma forma de alterar a nossa percepção do tempo. A experiência de olhar nos olhos, manter contato visual, com o completo silêncio da voz, seria um “energy dialogue”. A cadeira não permaneceu vazia em nenhum momento, a fila foi feita todos os dias durante esse período. Para alguns participantes foi uma experiência transformadora, olhar para o outro era perceber o próprio corpo presente e no presente, respirando, se organizando na cadeira, refletindo. Por meio dessa relação entre a performance de Abramović e o olhar entre protagonista e búfalo será possível também pensar o olhar de Clarice Lispector em suas fotos, o olhar para a obra, o olhar para o outro como um olhar-se para si. Tal dialógo será realizado com o auxílio de alguns textos teóricos que abordem o tema, tais como a visão em Os cinco sentidos, de Michel Serres, a visiblidade em Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino, O que vemos, o que nos olha, de Georges Didi-Huberman, além de textos que abordem a performance como experiência artística.

Marcella Assis de Moraes (UFRJ) |O ruído obsceno — um estudo de Clarice

Há alguns lugares comuns a partir dos quais se pode pensar o feminino nos textos literários, inclusive os de Clarice Lispector: de maneira óbvia, embora nada banal, há a abundância de personagens femininos; além disso, há ainda certo aspecto formal de oposição à completude, algo que se poderia começar a formular como uma “escrita feminina”. Há aqui o eco da formulação de Lacan de uma lógica não-toda, de uma suplementariedade que diria respeito ao gozo feminino, pareada, do ponto de vista da literatura, às narrativas que não se propõem à totalidade e ao andamento que avança na segurança do enredo e dos personagens. Remeto, aqui, aos textos teóricos de Lucia Castello-Branco, que pensa essa questão a partir de Maria Gabriela Llansol, de Emily Dickinson, de Marguerite Duras, comparações às quais este trabalho não se furta. O que este texto propõe é se deter sobre essa questão a partir de um aspecto particular em Lispector: a habilidade com que o alvoroço do mundo interior das personagens é revertido em alarido da linguagem. Nos textos da autora, há um excesso que prolifera o ruído. Dessa maneira, a autora é capaz de encenar, em meio à banalidade do mundo exterior, do cotidiano repetitivo, da vida doméstica, um drama que é intensamente vivido na interioridade das personagens. Há, portanto, uma encenação justamente daquilo que, em geral, ocupa a obscenidade, o lugar do silêncio, da dissimulação. Detém-se aqui, portanto, à passividade que caracteriza, de maneira estereotipada, a posição feminina. Mas o que se pretende estudar é justamente a maneira como a inação — a não ação, a espera, a lentidão — é transformada em matéria de linguagem, constituindo o motor da narrativa, que passa a não se tratar propriamente da composição do enredo, mas de uma certa experiência de pensamento, de tempo, de linguagem. Como diz G.H.: “Abria-se em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata imobilizada.” (LISPECTOR, 1998, p. 58) Um possível recorte para trabalhar essa questão seleciona os romances Perto do coração selvagem, A paixão segundo G.H. e Água viva, além de alguns contos.

14h

Conferência

Clarisse Fukelman (PUC-Rio) |É preciso sair de casa e tirar uma fotografia: literatura e politica em Clarice Lispector

16h

Desejo

Nayana Moreira Moraes (UFV) |O corpo, o outro e a percepção em “A menor mulher do mundo”

O presente trabalho tem como objetivo analisar o conto “A menor mulher do mundo”, publicado na obra Laços de família (1960), de Clarice Lispector, partindo de uma reflexão sobre a normatização do corpo. O conto narra um encontro que ocorre no Congo Central entre o cientista Marcel Pretre e uma pigmeia, considerada a menor mulher do mundo – com quarenta e cinco centímetros e grávida – e a repercussão desse evento em lares burgueses, a partir de uma notícia de jornal. A perspectiva adotada para a análise envolve os estudos filosóficos de Merleau-Ponty, que parte de uma reflexão sobre a concepção da corporeidade enquanto representação de mundo, associada à ideia de um “eu-outro”, e Judith Butler, que disserta sobre as imbricações do corpo enquanto percepção excludente e discriminatória acerca do outro – a precariedade resultante de uma violência estrutural. Essa perspectiva dialoga com a análise da alteridade realizada por Regina Lúcia Pontieri (2000) sobre as experiências corpóreas das personagens claricianas, construindo relações entre pares de opostos e o olhar examinador inferido aos sujeitos marginalizados. O narrador, ao deter-se no olhar de diferentes personagens para a imagem da pigmeia publicada em fotografia colorida no jornal, permite-nos discutir questões relevantes sobre as percepções que estas têm desse “outro” e de si mesmas. A análise permite destacar que nos discursos do narrador, do pesquisador e das personagens observa-se a ideia de um parâmetro corporal e comportamental que julga a pigmeia como uma criatura exótica, primitiva e não natural. Desta forma, deflagra-se o silenciamento produzido por esses corpos, algo que culmina na negação e consequente rejeição do outro.

Rosina B. M. S. Rocha & Teresinha V. Z. da Silva (UFJF) |A infinitude do desejo em “A via crucis do corpo”

O tema dessa comunicação é o processo de descoberta do mundo e de si mesmo provocado pela infinitude do desejo das personagens de Clarice Lispector nos contos de A via crucis do corpo, obra escrita sob encomenda a partir de três fragmentos de histórias reais, cujo tema comum é o sexo. Nesses contos, as personagens vivenciam uma tensa relação com o próprio corpo, com suas identidades e, ao mesmo tempo, buscam a satisfação de seus desejos mais obscuros. Durante o processo, revelam-se a si próprias de modo erótico, às vezes grosseiro, porém contundente. A força que move o caminhar para a experiência de uma sexualidade desviante é consequência de desejos violentos e reprimidos. Esses desejos atingem também as personagens mais idosas, revelam identidades de gêneros que estavam oprimidas, constroem trios amorosos que não se constrangem com a obscuridade do que desejam. Enfim, todos buscam a satisfação de seus infinitos desejos. O caminho é o encontro com o que há de mais genuíno dentro de si pois no processo de descoberta do mundo e de si mesmas as personagens entregam-se às forças (que parecem) proibidas, mas que as mantêm vivas, pulsantes vibrantes. Assim, o objetivo dessa comunicação é evidenciar esse processo, esse caminho e identificar a infinitude do desejo como força motriz das transformações que transcendem o cotidiano, experimentadas pelas personagens ao longo desse caminhar.

+ Informações

Mapa da Faculdade de Letras e arredores

Informações sobre transportes

Ônibus passam regularmente até 21:30. Após esse horário os intervalos tornam-se irregulares. Os últimos ônibus passam aproximadamente às 22:20 (ônibus que faz integração com o metrô). Há um ponto de táxi diante da Faculdade, após 18h é necessário requisitar táxi na portaria. Mais informações sobre transporte na paǵina da Faculdade de Letras. Há linhas de ônibus da própria UFRJ que fazem integração entre a Ilha do Fundão e várias partes da cidade. Horários e pontos de saída podem ser conferidos aqui. O tempo de viagem a partir do Centro/Zona Sul do Rio é de cerca de 1h de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Oeste é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 45 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush). O tempo de viagem a partir da Zona Norte do Rio é de cerca de 1:30 de ônibus (incluindo baldeação) e cerca de 30 minutos de carro (o tempo dobra na hora do rush).

Sobre certificados aos ouvintes

Serão concedidos certificados de participação aos ouvintes equivalentes a 1 hora/sessão ou conferência, autenticado por lista de presença. Será concedido um certificado de participação no encontro equivalente a 12 horas para ouvintes com presença em 9 sessões.